O Ponto de Vista do Autor Cap. 114 — Correntes Ocultas [2]

Capítulo 114 – Correntes Ocultas [2]

-Fwap!

Perto de um dos enormes prédios apareceu um demônio de dois metros com asas de morcego que cobria o sol pairando no ar.

“Kukuku, continua atenta como sempre, Madame Matriarca, ou melhor lhe chamar de Angelica Von Droix?”

-Vooom!

No instante que as últimas palavras saíram da boca de Everblood, como se tivesse quebrado o último fio de paciência dela, uma pressão enorme começou a envolver tudo ao redor da mulher. Tudo em sua volta explodiu em pedaços enquanto pequenos rachões no chão foram se formando debaixo dela.

Com os olhos cheios de sangue, ela encarava Everblood.

“Parece que veio procurar a própria morte, Everblood…”

Quando percebeu a expressão de Angelica, Everblood cobriu a boca com a mão, no intuito de segurar o riso, mas, no final, seu corpo começou a tremer por inteiro e não conseguiu mais se segurar.

“Kukuku… kukuku… kuku-hahahahahahahaha”

“Não estou vendo graça nenhuma aqui!”

Depois de alguns segundos de gargalhadas, o demônio limpou os cantos dos olhos cheio de lágrimas e falou.

“Não precisa mais fingir…”

“Do que está falando?”

Pairando no ar com toda a calma no mundo, Everblood olhou para a mulher com diversão nos olhos.

“Que no momento você não é párea para mim.”

Como se as palavras do outro tivessem perfurado seu coração, Angelica rangeu os dentes em raiva e olhou em sua direção, cuspindo as próximas palavras.

“Então foi você que planejou tudo isso…?”

Ainda no ar, Everblood esperou um segundo antes de balançar a cabeça e falar de forma inocente.

“Eu? Imagina. Acredite em mim, sou inocente nisso tudo.”

“Então por que está aqui?”

Aos poucos, um sorriso largo foi se formando nos lábios do demônio, onde olhou na direção do caixão preto pelo canto dos olhos e respondeu.

“Só estou aqui para pegar emprestado o caixão da Noite Amaldiçoada…”

-Vuam!

De repente, tudo ao redor de Angelica começou a se tornar vermelho enquanto uma pressão esmagadora a envolvia. Dando um passo à frente, Angelica fuzilou Everblood com o olhar.

“Como você ousa!-pfff”

Porém, antes que pudesse terminar de falar, Angelica levou a mão até a boca enquanto sangue preto escorria através dos dedos.

Vendo o estado em que Angelica se encontrava, Everblood umedeceu os lábios com a língua e não pode segurar o riso que escapou enquanto pousava lentamente.

“Ah… pelo visto alguém ficou sem gás, uma pena… kukuku.”

“V-Você.”

Ajoelhada com um joelho no chão, Angelica observou Everblood, cujo olhos tinham um leve traço de impotência, descendo.

Desviando o olhar do demônio, a mulher olhou na direção do caixão preto há alguns metros de onde estava.

O Caixão da Noite Amaldiçoada.

Um artefato ancestral demoníaco que lhe foi dado devido aos seus próprios méritos.

Ele possuía o efeito extraordinário de acelerar a recuperação e a velocidade do treinamento. Era um item praticamente divino capaz de fazer qualquer demônio abaixo da Classe Visconde salivar de inveja.

Seu valor era imenso.

Se não fosse pelo seu poder nunca que ela teria conseguido manter posse do caixão. Contudo, assim que os rumores dos seus ferimentos começaram a se espalhar, demônios de classe baixa não perderam a chance de tomar posse dele.

O vencedor sempre leva tudo…

Esse é o lema dos demônios. Até mesmo com os da mesma raça, isso não fazia diferença para eles. Seus desejos mais primitivos sufocavam qualquer traço de racionalidade, levando-os a tomar para si, de forma gananciosa, tudo o que cobiçavam.

Os demônios dominavam uns aos outros com poder… agora que Angelica estava em uma condição enfraquecida, era a sua vez de enfrentar o lema.

Ela estava sozinha e sem poder.

“Aqui.”

Depois de jogar um objeto redondo na direção de Angelica, Everblood se aproximou do caixão preto.

-Swooosh!

Pega de surpresa, Angelica pegou o objeto por puro reflexo e viu o que era.

“Huh? Uma fruta demoníaca?”

“Pensa nisso como uma pequena compensação por estar pegando o Caixão da Noite Amaldiçoada emprestado…”

Ao observar a fruta em sua mão, Angelica começou a sentir uma vontade enorme de jogar na cara de Everblood… mas considerando seu estado atual, sua única opção era aceitar a fruta.

Abrindo um sorriso ao ver a expressão de derrota de Angelica, Everblood se aproximou do caixão.

“Ah… exatamente do que eu precisava…”

Depois de analisar o caixão por um tempo, Everblood acenou com a cabeça satisfeito. Isso, sem dúvida, era o que mais precisava no momento.

Por causa do que aconteceu no passado, ele foi gravemente ferido e perdeu a maior parte da sua força. Mas agora, com a ajuda do caixão, finalmente vai conseguir se recuperar dos seus ferimentos e subir de Classe.

Pegando o caixão com ambas as mãos, o sorriso do Everblood se alargou ainda mais. E antes de ir embora, ele olhou na direção de Angelica pela última vez, que parecia ter perdido a vontade de viver, e disse.

‘É agora…”

“Mais uma coisa, Matriarca… Talvez eu saiba quem matou o seu cachorrinho.”

Virando a cabeça bruscamente na direção de Everblood, o rosto de Angelica tornou-se feroz. Seu corpo pareceu renascer em um instante, e o chão ao seu redor começou a tremer.

-Rumble!

“Quem? Acho bom você não está mentindo…”

“Kukuku, não precisa ficar agressiva assim… Aqui.”

Ainda com um sorriso largo no rosto, Everblood balançou a cabeça e, como um passe de mágica, fez uma fotografia aparecer em sua mão antes de lançá-la despreocupadamente na direção de Angelica.

-Swoosh!

“Huh? O que é isso?”

Pegando a fotografia do ar, Angelica olhou para a imagem. A imagem mostrava um jovem de cabelos pretos e olhos azuis escuros, ele usava roupas normais e caminhava por uma movimentada área comercial.

Voltando sua atenção para o outro demônio, Angelica perguntou.

“Quem é esse?”

Sorrindo, Everblood não respondeu.

-Fwap!

Expandindo suas asas iguais de morcego e segurando o caixão, Everblood levantou voo.

“Bom, aqui vai a minha deixa, espero que consiga resolver o seu probleminha…”

“E-Espera.”

Ignorando o chamado de Angelica, ele continuou levantando voo com o caixão em mãos e logo desapareceu no ar.

Sem poder fazer nada, Angelica observou Everblood se afastar voando com seu caixão. Em seguida, baixou o olhar para a foto em sua mão.

“Então foi você que…”

-Fuuuua!

Depois de queimar a fotografia, Angelica se levantou devagar. Cambaleando alguns passos, ela memorizou internamente a imagem do garoto.

“E-Eu não ligo se não foi você quem matou o Elijah… mas como você é a minha única pista, será você quem aguentará as consequências da minha fúria!”

…..

Não muito longe de onde a mulher estava, Everblood olhou para baixo enquanto um sorriso se formava em seu rosto.

“O momento que estava esperando finalmente chegou…”

Desde o que aconteceu há três meses na dungeon, Everblood perdeu a maioria dos seus seguidores da Tribo. Lembrando da humilhação que passou nas mãos daquele pirralho, a expressão do Barão do Everblood se contorceu.

‘Porque aquele desgraçado destruiu meu clone, perdi uma parte da minha força e tudo que trabalhei para conquistar… minha posição, meu poder, minha honra… MEU TUDO!”

Seu olhar feroz permaneceu fixo no chão abaixo. Uma sede de sangue sem limites envolveu toda a região ao seu redor, tornando-se tão densa que, pouco a pouco, condensou-se em uma onda vermelha visível a olho nu.

-Fwuuuaa!

No entanto, a sede de sangue desapareceu tão rápido quanto veio. Olhando para o horizonte, o sorriso de Everblood relaxou.

“Mas tudo bem…”

Pegando uma foto similar a qual deu para Angelica, Everblood acariciou a imagem enquanto sua expressão se contorcia severamente. Observando a foto, Everblood falou para si mesmo, quase como se estivesse falando com a pessoa cara a cara.

“Consegue imaginar o quão surpreso fiquei quando vi a sua foto quando estava investigando o que aconteceu com a Angelica?”

“No início, toda vez que via o seu rosto, uma raiva imensa me consumia… você não consegue imaginar as coisas que tive que passar por sua causa…”

Planando no ar enquanto conversava com a foto, seu tom parecia como se estivesse falando com um dos seus amigos pra vida. PAREI AQUI

“Eu perdi minha posição de Ancião, fui desprezado por aqueles que eram meus subordinados… e o pior de tudo, é que não pude contra-atacar, porque meu poder caiu para abaixo da Classe Barão… Eu não era mais chamado de Barão do Everblood… apenas Everblood.”

Pensando por um momento, Everblood continuou observando ao longe enquanto lembrava das coisas que passou nos últimos dois meses. Depois de alguns segundos, encarando a foto em mãos, ele continuou.

“Em meio ao desespero, a única coisa que me manteve sã foi a sua imagem…”

“Ahhhh… só de me imaginar torturando você das piores formas possíveis faz com que meu coração queira explodir. As tantas vezes que quis me encontrar com você. Só de imaginar esfolando você por inteiro me fez muito feliz… mas, acabei percebendo algo.”

Após uma breve pausa, a expressão de Everblood tornou-se séria. Voltando o olhar para a fotografia, falou em um tom retórico.

“Mas isso não seria um pouco anticlimático?”

“…matar e torturar você não seria um pouco sem graça? Eu quero ver você desesperado… tão desesperado quanto fiquei… não, em nível maior que experienciei.”

Parando para respirar, o sorriso retornou ao rosto de Everblood. Ao recordar-se de algo, seu corpo estremeceu, e uma risada baixa escapou de seus lábios, crescendo de uma maneira incontrolável.”

“Kukuku, de primeira, pensei que ir atrás da sua família seria o suficiente… mas sabe o quê? Para a minha surpresa, quando os avistei à distância, percebi que já estavam sob a Maldição Aniquilador de Mente… ah, a ironia… naquele dia, eu nunca ri tanto na minha vida. Só de imaginar a sua reação quando descobriu a maldição dos seus pais… ahhh, o arrepio que tive naquele dia… kukukukuku… hahahaha.”

Cobrindo a boca com uma mão para tentar conter a risada, Everblood continuou.

“Então, depois de perceber o quão feliz fiquei ao imaginar o seu sofrimento, decidi esperar…”

“Você não está no ponto certo ainda…”

“Para mim conseguir o pico de euforia preciso que você fique ainda mais… forte, bem-sucedido, feliz… Minha vingança só estará completa quando você despencar do topo.”

-Crump

Amassando a imagem, Eveblood cuspiu as próximas palavras.

“Só depois de lhe ver com a cara de puro desespero, que finalmente vou conseguir esquecer toda a humilhação que você me fez… e finalmente estarei completo.

-Fuuu!

Queimando a fotografia, Everblood assistiu as brasas voarem com o vento à distância.

“Espero que quando acordar do meu pequeno sono, você ainda esteja vivo. Afinal de contas, tenho grandes expectativas sobre você… Ren Dover.”

Olhando na direção da Matriarca, seu sorriso se alargou ainda mais.

“Embora possa não ter sido você que matou o contratante dela, tenho certeza que Angelica não dá a mínima para isso… mas, bem, se não conseguir superar pelo menos isso… de que adianta todo o esforço que fiz para me vingar de você… kukukukuku.”

-Fwap!

Movendo suas asas enormes de morcego, enquanto ainda carregava o enorme caixão preto em ambas as mãos, Everblood desapareceu aos céus.

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