“Ohhh, você está acordado. Que bom, muito boooom.” O homem alto, de longos cabelos azul-escuros que desciam até suas costas, disse isso alegremente ao olhar para Subaru.
Era um homem alto. Sua altura ultrapassava a de Reinhard, com cerca de um metro e oitenta. Tinha um corpo esguio, como se nunca tivesse feito nenhum tipo de trabalho físico na vida, e mais do que esguio, era delicado. Seus olhos tinham cores diferentes, um amarelo e o outro azul, combinavam com sua pele fantasmagoricamente pálida, que o fazia parecer doente.
Sua aparência era bela, nos padrões convencionais de beleza. No entanto, por mais bonito que fosse, se chegasse muito perto certamente causaria desconforto em qualquer um.
“Seu rosto tá perto demais!”
“Desculpe, meeesmo, desculpe. Sabeééé, da primeira vez que te vi, você estava paaalidíssimo, coberto de sangue, à beira da mooorte. Estou profuuuundamente comooovido de ver você andando por aí assim.”
Ele deu alguns tapinhas amigáveis nos ombros de Subaru e se curvou, olhando de perto mais uma vez, esse era o dono da mansão, Roswaal.
Subaru achava que ele parecia estar na casa dos vinte e poucos anos, e sua aparência passava a impressão de um “filho pródigo”.
“Não, não, mesmo assim, tenho certeza que você é um cara bem esperto…”
“Ééééé meeesmo, que avaliação legal. Pode me encarar à vontaaaaade. Eu pareço espeeerto? Hmmmm?”
Posando na frente de Subaru, ele girou e ficou parado como um modelo. A postura imponente que assumiu fez Subaru ficar tão surpreso que seus pés recuaram alguns passos por reflexo.
“N-não é possível… fui superado aqui?! Não é normal alguém ser mais ‘personagem’ do que eu… Isso não atrapalha a sua vida diária?!”
“Beeeem, tanto faz pra miiim.” Um suspiro veio por trás deles, e Emilia avançou enquanto Subaru ainda estava em choque. Ela se virou para Roswaal e disse:
“Bem-vindo de volta. Como você está?”
“Estou óóóótimo. Me sinto beeeem satisfeito. Faz quatro dias, três horas e dezenove minutos desde nossa úúúltima conversa. Preciso anotar isso no meu caderniiiinho.”
Roswaal recebeu seu caderninho e uma caneta das mãos das criadas de cabelo rosa e azul-claro, que estavam posicionadas à sua direita e à sua esquerda. Ambas se curvaram com reverência ao fazerem isso. Com o caderno e a caneta recém-entregues, ele começou a escrever freneticamente, e…
“No décimo quinto dia do mês de Tadmus. Lady Emilia falou comigo pessoalmente. Estou muito feliz. Sinto que estamos começando a nos dar bem, e…”
Roswaal fechou o caderno com uma expressão de satisfação no rosto, o entregou à criada e então se virou. Ele foi recebido por Emilia, que estava com um leve sorriso no rosto, e…
“Não, sério… isso foi só… CRINGE!” Após lançar um olhar rápido para o caderninho que estava nas mãos da criada, bem parecido com uma agenda, Subaru pôde ver que ele estava bastante usado, com quase metade das páginas preenchidas com o mesmo tipo de conteúdo que Roswaal acabou de escrever. Se todas fossem iguais, aquilo era um verdadeiro caderno de pesadelos.
Roswaal bateu nos joelhos diante de tal reação, que superou até a resposta de Subaru.“Cringe! Que palavra legaaaaal. É a primeira vez que a ooouço, e eu adooreeiii! Mmmm, essa sensação de não conseguir entender outra palavra… ah, é maaaaaravilhoso.”
“Uau, odeio o fato de que consigo até me identificar um pouco. Ei, você realmente disse que eu podia me dar bem com ele?”
Diante daquele excêntrico que segurava seus ombros de um jeito estranho, Subaru lançou um olhar frustrado para Emilia e resmungou:“Você me colocou no mesmo nível que esse cara!?”
Ela levou um dedo aos lábios e soltou um “Hmmmm” levemente incomodado.
“Como esperado, nem mesmo você é páreo para o maior pervertido desse país, Subaru… ou será que é?”
“Nem de perto! Essa linha é mesmo tão tênue assim?! Com aquilo ali?!”
“Erros de um homem são lições para outro”, ou algo do tipo, mas ser colocado no mesmo patamar que o maluco à sua frente foi um verdadeiro golpe para Subaru. A partir daquele momento, ele prometeu ser mais cauteloso com o que dizia e fazia.
“Enfim, voltando, voltando. Agora deixe-me agradecer. Obrigado por me causar tanto trabalho, e obrigado por me deixar usar sua cama. Sinceramente, Subaru.”
“Ai, já começou todo bagunçado…”
Subaru era orgulhoso demais para demonstrar gratidão de verdade, mas Roswaal não parecia se importar com isso e apenas assobiou em resposta. Emilia, que estava espremida entre os dois, levou as mãos à cabeça. Aliás, as gêmeas optaram por se abster silenciosamente de se envolver, como se nunca tivessem tido a intenção de interferir desde o começo, e Puck continuava escondido no cabelo de Emilia, sem emitir um som.
“E-N-F-I-M…”
Roswaal lançou um olhar mal-humorado para Subaru, de cima a baixo, após ele retornar de uma forma extremamente desajeitada. Ele franziu a testa para ele, que estava claramente desconfortável.
“Você pareceeee uma pessoa normal. E isso é um pouco decepcionaaaante.”
“Ei, peraí, você tá dizendo que eu sou só um cara normal? Normal não é nem bom nem ruim… Essa avaliação me insulta! Retire o que disse!”
“Por que ficar bravo com algo assim, eu suponho…” comentou Beatrice.
Subaru respondeu à provocação com desafio.
Era uma linha que ele não tolerava que fosse cruzada. E, por conta dessa postura ousada, Roswaal apenas acenou com a mão.
“Aaaaahhh, desculpe, desculpe,” começou ele. “Eu quis diiiiizer ‘normal’ no sentido ‘racial’. Vêêê, eu sou um nobre perveeeertido com ‘preferência por semi-humanos’.”
“Você tem que ser bem doentio pra falar isso de si mesmo com tanto orgulho, hein? Ah, cara, tô começando a gostar de você um pouco… mas me odeio por isso!”
Roswaal olhou divertido para Subaru, que tinha a cabeça entre as mãos, e então envolveu os ombros das criadas gêmeas, uma de cada lado.“O mesmo vale para essas crianças, e também é o motivo pelo qual apoiamos Lady Emilia. Boooem, sinto que somos todos aves da meeesma plumaaa, o que torna tudo bem suspeito, não éééé?”
Roswaal acariciou os queixos das gêmeas que abraçava com os dedos, e ao mesmo tempo criou uma atmosfera estranhamente imoral. As gêmeas obedeceram sem protestar, seus rostos ficaram vermelhos, como se já tivessem sido mordidas por presas venenosas. Subaru não conseguiu evitar olhar para Emilia com um sentimento ruim no estômago.
Talvez percebendo a intenção por trás do olhar de Subaru, ela rapidamente acenou com as mãos
.“Não me entenda mal. Eu não sou do tipo que se atrai por pervertidos.”
“Ser normal é totalmente OK. Quando eu me formar no ensino médio, vou entrar na faculdade, e depois de me formar, vou arranjar um emprego e trabalhar para sustentar minha família, como todo mundo faz.”
Subaru voltou atrás em sua opinião anterior e pensou sobre a típica vida normal. No entanto, ele se lembrou do fato de que os pais que levavam uma vida normal no mundo real sempre passavam por dificuldades.
Então Subaru de repente captou uma parte inquietante da fala de Roswaal.
“Quero dizer, o que você quis dizer com apoiar a Emilia-tan? É isso que eu não entendo no relacionamento de vocês dois.”
“Oooh, você não sabe o que está acontecendo? Hmmmm, que estraaaanho.”
Roswaal soltou as gêmeas e se aproximou de Subaru com as mãos para trás. Mais uma vez, olhou para ele de perto, mas desta vez Subaru não recuou e apenas retribuiu o olhar.
Seus olhares se chocaram e começaram a soltar faíscas, era desconfortável ser encarado tão puramente, como se tentassem sondar suas intenções. No entanto, desviar o olhar também era irritante, porque seria como admitir derrota. Diante daquele olhar que parecia enxergá-lo por completo, Subaru também estava preparado para revidar com firmeza.
Eles se encararam intensamente, e a distância entre eles foi diminuindo aos poucos. Não perca, não ouse perder. Com esse sentimento, ele concentrou toda a força do olhar, encarar, encarar…
Mwah
“Hoagyahhhhhh!”
Subaru não conseguiu evitar e mandou um uppercut reflexivo no homem alto que havia, por acidente, beijado sua testa.
O homem alto foi lançado para longe pelo golpe implacável, e as criadas gêmeas correram apressadas para tentar ampará-lo enquanto caía. Subaru, sem sequer olhar para o resultado, esfregava a testa com força.“O que—que diabos foi isso… que raios tá acontecendo aquiiiiii?!”
“Aaaaaahh, isso dooooi, dooooi. Boooom, é que não consigo evitar notar que você me olha com os olhos inoceeentes de uma donzeeela tremuuulante, e isso me deixa um pouquinho excitadoooo.”
“Eu não consigo evitar de apertar as nádegas! Para de me olhar com esse olho! Sério!!”
Sua testa ardia como se tivesse sido queimada, e então ele fechou o punho com a mão que havia esfregado e ficou diante de Roswaal, mas foi interceptado pelas gêmeas, que o encararam com animosidade nos olhos.
Como era de se esperar, elas jamais ririam se seu empregador fosse agredido. Ao ver a animosidade clara delas, Subaru deu um passo para trás por reflexo, mas Roswaal as deteve com um:“Paaaarrrrem, parem, Ram e Rem. Foi só uma piadaaaa de mau gosto. Ele não tem culpa, acho que a culpa é minha por ser feminina demaaaais.”
“Se você está me tratando como uma donzela por causa do jeito que te encarei, precisa mandar revisar a vista, nobre. Eu era bonito como uma flor até o jardim de infância, mas a partir daí rasparam a parte de trás da minha cabeça.”
Subaru não queria ser confundido com uma garota, e a resposta de seus pais foi simplesmente raspar sua cabeça. Hoje em dia ele só se sentia confortável se a parte de trás da cabeça estivesse áspera ao toque, mas naquela época isso o fazia chorar bastante.
Os pais de Subaru tiveram uma influência forte na formação de sua personalidade. Sua mãe o influenciou por nunca ouvir os outros, e seu pai por ser um sujeito super motivado.
Apesar de estarem irritadas com o tratamento dado ao seu senhor, as gêmeas deram um passo para trás. E então, enquanto esfregava o queixo que havia levado o golpe, Roswaal se levantou.“Peço desuuulpa pelo que aconteceu agora há pouco, a culpa foi minha. E para mostrar meu arrependimento de verdade, que taaall tomarmos o café da manhã juntos? Por minha contaaa?”
“Mas já vou avisando, não pretendo trabalhar por isso. Se for de graça, vou comer até não aguentar mais.”
“Isso é óóótimo. Comerrr bem está ligado a viverrr bem. Hmm, essa foi boaaa. Preciso anotar no meu caderniiiinho.”
As gêmeas entregaram novamente o caderno e uma caneta para Roswaal, que estendia a mão.
Ao ver como ele começou a escrever suavemente e com habilidade, parecia que o conteúdo do caderno não era composto por escritos esquisitos do “Diário de Amor com Emilia-tan”.
“Se você fosse escrever sobre sua viiiida diária, não seria como uma coletânea de poemas? Sinto que vou sofrer muito se relerrr tudo no futuro, maaaas se eu ainda estiver nessa nessa idaaaade, então realmente não vai ter mais volta pra mim.
“Os habitantes de um jardim de flores não achariam triste o fato de estarem em um jardim de flores”. Subaru se convenceu disso, e então deu sua resposta ao convite para o café da manhã que havia recebido anteriormente.
“De qualquer forma, aceito o convite pro café da manhã. Não como nada desde antes do meio-dia de ontem, quanto mais café da manhã.”
“Isso é esplêndido. Booooom, então, vou pedir que mostrem o lugar pra voooocê. Ram, Rem, cuidem disso.”
““Pode deixar com a gente, Mestre Roswaal.””
As gêmeas responderam em perfeita sincronia enquanto se posicionavam uma de cada lado de Subaru. Em seguida, cada uma agarrou um de seus braços, segurando-o firmemente.
“Ei, ei, qual é a dessa atmosfera de escolta? Mesmo se vocês não fizessem isso, eu não ia fugir, e a mesa de jantar também não… Ei, ei, isso tá doendo um pouco.”
“Então, deixe-me acompanhá-lo, senhor.”
“Isso mesmo, permita-me acompanhá-lo, senhor.”
“Ei, escuta, meu cotovelo só vai até aqui… Então vocês ainda não me perdoaram por aquele uppercut de antes, né?! Mas por mais que eu pense sobre aquilo, aquele cara é que estava errado…Ai-ai-ai-ai-ai! Meus cotovelos! Meus cotooovelos! Vocês duas, eles não dobram assim, ei!”
Fazendo um escândalo com seus “ai”, Subaru foi arrastado até a mesa de jantar com os braços presos num golpe de submissão.
Emilia observou os três se afastando com um olhar de pena, quando eles já estavam fora de vista, Roswaal perguntou:
“Eeeentão, coooomo foi de verdade, Lady Emilia?”
A pergunta foi feita com seu jeito habitual de falar, mas tinha uma sensação diferente. Emilia aceitou a mudança sem nem um pingo de surpresa.“É o mesmo que você. O Puck também pensa igual. Certo?”
Ao seu pedido por confirmação, o gato assentiu com a cabeça, com apenas o rosto aparecendo por entre seus cabelos prateados. Os olhos de Roswaal se estreitaram, como se satisfeito com a resposta, e Emilia pressionou as mãos contra o peito, sentindo uma leve pontada de culpa.
“Eu reaaaalmente não sei se devo desconfiar de quem salvou minha vida. Eu sei que tem a ver comigo, mas isso é horrível.”
Ela soltou essas palavras como se zombasse de si mesma.
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