Re:Zero – Começando a Vida em Ou... Cap. 28 — Consciência das Emoções

Emilia suspirou ao olhar para Subaru, que ainda estava prostrado no chão, e levou um dedo aos lábios como se tivesse acabado de se lembrar de algo.

— Isso me lembra…

Os gestos que ela fazia às vezes pareciam estranhamente infantis e fofos aos olhos de Subaru. Quando ele saltou do chão, Emilia tirou o dedo dos lábios e apontou para os próprios olhos.

— Você nunca viu um espírito antes, certo Então, sabe como usar mana?

— Como se usa mana?

— É tão simples quanto focar os olhos, né? O que mais teria…

— Lia. Não é tão simples assim. Você só conheceu humanos que são bem bons em usar mana. Bem, além disso, a situação do Subaru é um pouco especial.

Emilia inclinou a cabeça e perguntou:

— Especial?

Puck cruzou os braços e assentiu para ela.

— Pelo que vi com uma olhada rápida, o Portão do Subaru está praticamente selado. Mesmo que ele nunca tenha visto um espírito ou magia antes, não devia estar tão fechado. É nesse nível.

— Isso é estranho… Mesmo levando uma vida normal, isso não aconteceria, né?

— Pois é, por isso é estranho. O Subaru não teve uma vida normal.

Depois de assentirem um para o outro com os olhares conectados, eles voltaram os olhos para Subaru ao mesmo tempo, prendendo a respiração. Sendo encarado daquele jeito pelos dois, Subaru respondeu:

— Fico até com receio de interromper vocês nesse mundinho próprio… Tô morrendo de inveja.

— Bem, bem, eu sei que isso não é normal.

— A sua definição de normal tá totalmente errada! Tipo, não é meio rude olhar pra cara de alguém e dizer se ela é normal ou não? E a sua filha, então, hein?

— Fico feliz em dizer que ela está crescendo como uma garota gentil e honesta.

— O pai-gato apareceu! — Subaru cobriu o rosto com a palma da mão diante da atitude de Puck com a filha.

Ao ver aquela reação exagerada, Emilia comentou:

— Não sei por quê, mas eles parecem bem próximos. — Murmurando isso, ela olhou de um para o outro.

Ao ouvirem o comentário, Subaru e Puck se entreolharam, assentiram e bateram um high five.

— Oooh, com certeza, somos melhores amigos! Estamos na mesma sintonia. Que tal vir com a gente e formar a melhor dupla cômica do mundo!?

— Você diz isso, mas tenho certeza de que só está atrás do meu corpo, né? — respondeu Puck.

— Seja por amor ou pela sua fofura, são duas coisas diferentes, mas no fim das contas eu sempre volto pra você. E se eu estiver generoso, até tolero um pouco de traição. Cócegas, cócegas, cócegas.

Eles foram interrompidos pelo toque das palmas de alguém, Subaru aparentemente esqueceu a conversa anterior ao se concentrar totalmente em brincar com Puck, com um sorriso no rosto. Emilia então decidiu deixar Puck com Subaru por um tempo.

— Puck, vai brincar com o Subaru ali. Eu vou conversar com os espíritos agora. Não quero ser incomodada, tá?

— Ela nos descartou…

— Fomos descartados…

Emilia os ignorou em silêncio enquanto os dois encolhiam os ombros em tom de brincadeira. Assim que se afastou, voltou a se concentrar nos espíritos que havia trazido consigo, dando continuidade ao que estava fazendo antes continuar sendo repreendido, então vou te contar por conta própria. Ela está no meio de uma cerimônia importante com os espíritos, então não posso mais fazer vista grossa.

A cena dela conversando com os espíritos era exatamente como a que Subaru tinha visto antes, uma visão fantástica. Foi por isso que ele havia agido daquela forma: queria dar uma espiada.

— De qualquer forma, essa nem era a minha real intenção, então espero que entenda.

— Não se preocupe com isso. Bem, não quero continuar sendo repreendido, então vou te contar por conta própria. Ela está no meio de uma cerimônia importante com os espíritos, então não posso mais fazer vista grossa.

— Mas você simplesmente não consegue se controlar e acaba interrompendo mesmo assim… O que tem de tão importante nisso, afinal?

— Um contrato cerimonial com um espírito, a forja de um pacto.

Subaru fez uma careta de confusão ao ouvir tantos termos desconhecidos. Puck, como se procurasse uma maneira adequada de explicar, começou dizendo:

— Vejamos…

— Primeiro de tudo, um usuário de artes espirituais precisa formar contratos com espíritos antes de poder usar magia espiritual. E o conteúdo do contrato varia de espírito para espírito. Tá acompanhando até aqui?

— Então é diferente de juros e garantias em um empréstimo bancário. OK

— Meu nome não é “OK”, mas vamos continuar. O que os espíritos pedem varia de indivíduo para indivíduo, mas quando se trata de espíritos menores, eles só querem coisas simples, como acesso direto à mana do conjurador. Por isso é relativamente fácil conseguir a cooperação deles.

— Entendi. Mas, pelo que você disse, os espíritos verdadeiros são diferentes, né? Que tal explicar isso, Sr. Espírito?

— Crianças espertas falam rápido e são bem úteis… mas não vamos muito longe se você continuar se desviando do assunto.

Subaru coçou a cabeça, envergonhado. Então, Puck olhou para ele calorosamente enquanto acariciava os bigodes.

— Como você disse, espíritos com consciência própria são mais exigentes, como eu, por exemplo. Apesar disso, gosto de fechar bons acordos com quem vai formar o contrato. Ainda assim, sou um espírito poderoso, então as condições do contrato com a Lia são bem rígidas.

— Já faz um tempo que venho pensando nisso, mas “Lia” é um apelido bem fofo.

— O “Emilia-tan” é ainda mais fofa. Talvez eu chame ela assim da próxima vez.

— Tô implorando, por favor, não faz isso. — Subaru suplicou, e Puck concordou com a escolha de apelido dele. Foi nesse momento que Emilia entrou na conversa com uma expressão zangada no rosto.

Enquanto olhavam para ela, o brilho suave dos espíritos que a rodeavam desapareceu à medida que ela os encarava.

— Parece que o Talk Show Espiritual chegou ao fim.

N/T: “Talk Show”, é um uma conversa ou debate entre um ou mais apresentadores e convidados em um programa.

Subaru se levantou e limpou a grama do traseiro.— Já acabou a festa? Isso foi moleza.

— Eu encurtei porque vocês dois estavam me atrapalhando, e foi muuuito distrativo. Vocês conseguem irritar alguém mesmo de longe… Isso é quase um dom.

— Duas pessoas que nunca deveriam ter se encontrado acabaram se encontrando… Tenho a sensação de que algo está prestes a acontecer. Não consigo parar de pensar nisso, e meu coração tá disparando.

Enquanto Subaru batia no peito no ritmo das próprias batidas do coração, Emilia estendeu a mão para ele e Puck saltou de onde estava e pousou ali. Ele olhou para Emilia com seus olhos negros e redondos, exibindo um sorriso satisfeito.

— Tá tudo bem. Pelo que percebi até agora, não sinto nenhuma malícia, hostilidade ou más intenções no Subaru. A personalidade dele é meio esquisita, mas ele é um bom garoto.

— O quê…? — Emilia ficou sem palavras após ouvir aquela avaliação nada lisonjeira de Puck.

Ela se virou para Subaru para ver sua reação e repreendeu Puck com pressa:

— Por que você disse uma coisa dessas bem na frente dele…? Mesmo que seja verdade, não é meio cruel ouvir isso assim?

— Ah, tudo bem. Pra você, eu devo ser um completo estranho, então faz sentido. É natural desconfiar de um cara legal como eu, cujo nome nem pode ser verificado… Mas essa última parte doeu, Emilia-tan!

Emilia rapidamente cobriu a boca com a mão, e Subaru deu uma risadinha amarga diante da reação sincera dela.

Subaru já esperava que isso acontecesse, e por isso havia passado tanto tempo com o Puck, tudo para se preparar para esse exato momento. Eles não seriam tão ingênuos a ponto de aceitá-lo de braços abertos, sendo que ele não havia fornecido nenhuma informação confiável até agora. O aparecimento repentino de Ram e Rem mais cedo provavelmente também foi resultado da vigilância que estavam mantendo sobre ele.

— Apesar disso, eu realmente não sei como explicar.

O Subaru deste mundo existia na memória das pessoas, mas não havia registros anteriores dele. Era difícil de explicar, havia grandes chances de ser tratado como um lunático. Dado isso, deixar que Puck fizesse seu próprio julgamento era a melhor opção.

Subaru esperava que, com a troca que haviam acabado de ter, Puck, que era capaz de ler pensamentos até certo ponto, pudesse transmitir sua situação de maneira mais convincente do que ele mesmo conseguiria.

Era uma espécie de aposta, mas Puck riu ao perceber o que Subaru estava tentando fazer.

— Tá tudo certo, Lia. Digo, o Subaru também sabe disso. Que garoto travesso, usando minhas habilidades de leitura mental assim.

— É uma honra. Vamos nos dar muito bem, meu amigo.

A expressão de Puck se iluminou em surpresa ao ouvir Subaru chamá-lo daquele jeito. Logo depois, ele caiu na gargalhada e sorriu.— Faz muito tempo desde que fui tratado assim. Gostei.

Subaru entendia o motivo da felicidade de Puck, mas antes que pudesse comentar, o espírito flutuou até o rosto de Emilia. Então suas testas se encostaram, com ela de olhos fechados, uma cena estranhamente surreal.

— Toma essa! A técnica super misteriosa do Puck: “Impacto da Testa do Gato”!!

Subaru não pôde evitar se sentir solitário ao ver os dois mergulhados naquele silêncio, e em sua desolação, tentou chamar a atenção deles. Mas os dois estavam tão concentrados que nem reagiram, o que fez sua solidão crescer exponencialmente.

— Droga! Me sinto tão impotente… Não consigo pensar em mais nada pra chamar a atenção de vocês. Tô quase chorando aqui.

— …Uhum, entendi. Nossa, e eu tava pensando bastante em você também… Por que você tá sentado no chão chorando igual uma garota?

— N-n-não se preocupa com isso! Então, o que foi aquilo, afinal?

— É mais como uma consciência compartilhada. É mais fácil te mostrar o que eu sinto do que tentar explicar tudo com palavras, sabe?

Respondendo de forma direta à pergunta de Subaru, Puck se sentou ao lado da garota de cabelos prateados. Ela colocou a mão no ombro de Puck e assentiu.— É isso mesmo.

— Foi por meio do Puck, mas eu entendi a mensagem sobre você… Me desculpa de verdade por ter duvidado. Agora eu sei da verdade, e me sinto muuito mal por isso.

— Ser investigado por uma mulher bonita é até empolgante, não é? Da próxima vez, faça questão de entrar direto na minha mente, você mesma e não o Puck. Subaru levantou o polegar e abriu um sorriso brilhante, Emilia olhou para ele com uma expressão de decepção profunda. Vendo aquela reação, o arrependimento de Subaru começou a correr solto dentro dele. Ah, não… Fiz de novo.

Subaru tinha o péssimo hábito de soltar bobagens quando estava de bom humor.— N-não, não, não era com segundas intenções! Mas, sabe… no nosso meio, esse tipo de dor é até uma forma de recompensa…

Também era típico de Subaru estragar qualquer tentativa de se redimir.

Com um sorriso forçado, Subaru sentiu um suor frio escorrer pelo rosto. Seja suor, lágrimas, chuva ou baba, algum líquido que certamente o faria se sentir um idiota em três segundos estava escorrendo pelo queixo.

Emilia inclinou a cabeça levemente, olhando para Subaru, que era um péssimo ator.— …Você é mesmo estranho, Subaru.

— Hã?

— Brincar com um espírito de verdade como se fosse a coisa mais normal do mundo… e ainda por cima, ficar de olho numa meio-elfa como eu.

— Isso me pegou de surpresa, mesmo que tenha sido só uma brincadeira. — Ela deu uma risadinha tímida.

Será que você ficaria tão surpresa assim se não fosse brincadeira? Pensou Subaru, mas logo esqueceu disso ao se encantar com o sorriso encantador dela.

Aquele sorriso era tão claro e puro quanto o que ele tinha visto naquele beco da capital real. Não era fugaz nem melancólico, vê-lo de novo o deixou genuinamente feliz. Foi naquele momento que Subaru percebeu o quanto amava aquela expressão.

— Ah, não!

— O quê?

— Não, é que… faz muito tempo que eu não me sentia assim… Sério.

O coração de Subaru começou a bater mais rápido, sua boca ficou seca, e sua respiração ficou ofegante.

Seus olhos começaram a perder o foco, e ele mal conseguia manter a cabeça erguida. Depois, perdeu o controle das emoções e sentiu como se estivesse pegando fogo por dentro, o que deixou seu pescoço e rosto completamente vermelhos.

— O que foi? Tá tudo bem? — Emilia perguntou, olhando para o rosto dele de baixo para cima, com uma expressão preocupada. Aquela carinha, preocupada daquele jeito, parecia absolutamente adorável aos olhos dele.— Woooooohoooooo!

Depois de soltar esse grito alto, Subaru de repente deu um pulo pra trás e tentou fazer uma cambalhota para escapar da situação. Ele caiu de cabeça no chão com a mão tentando amortecer a queda, mas acabou escorregando por causa da grama ainda molhada e bateu com a cabeça. Em seguida, deslizou alguns metros sobre a grama com a cabeça até parar.

— Ei, o que deu em você de repente?!

—Ai, ai, ai, ai, ai, ai. Meu Deus, será que eu fiquei careca…? Ah… são brancos.

Emilia correu até Subaru, que rolava no chão segurando a cabeça, e ficou mexendo as mãos sem saber o que fazer. Ele tinha dito aquelas palavras ao olhar para cima do chão.

O rosto de Emilia, que antes parecia confuso, ficou instantaneamente vermelho como um tomate ao perceber o que aquilo significava. Era porque ela tinha passado bem na frente dele usando uma saia curta enquanto ele rolava no chão.

— Force majeure! Force majeure! Eu juro que não foi de propósito!

N/T: “Force majeure” significa Força maior, um evento imprevisível e incontrolável.

—Está dizendo a verdade?

—Obrigado pela refeição visual.

Sentado em posição de seiza, Subaru juntou as mãos e curvou a cabeça diante da deusa de cabelos prateados.

Quando levantou o rosto, Emilia sorriu para ele. Diferente do sorriso de antes, aquele tinha um ar sádico.

—Esse tipo de expressão também é adorável… ah, merda.

—Reflita sobre seus atos.

Mesmo levando em conta o que tinha feito, Subaru achou que os blocos de gelo que caíram sobre ele eram grandes demais.

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—Ah, isso doeu… Será que estou mesmo começando a ficar careca? Será que vai ficar tudo bem?

—É só um galo na cabeça. Você devia me agradecer muuuuuito pela minha gentileza.

Subaru acariciava o local da pancada enquanto permanecia sentado no chão. Estava quase chorando, Emilia, que havia virado de costas para ele, respondeu de maneira fria.

Agora havia vários metros de distância entre os dois, como se o que ele havia feito antes tivesse realmente criado um abismo entre eles.

Subaru lançou um olhar de relance para o perfil branco dela e depois virou o rosto.

Olha de canto, vira o rosto. Olha de canto, vira o rosto. Olha, olha, vira, vira.

—Não brinque. Ainda estou brava com você.

—Ah, foi só um acidente. Um mal-entendido bobo que acabou ficando grande demais.

Se fosse um mangá, aquele galo na cabeça era tão grande que dava vontade de colar um band-aid.

Subaru realmente sentiu que sua vida passou diante dos olhos no momento do impacto. Foi tão forte que achou que poderia voltar para a loja de conveniência se não tomasse cuidado.

Agora estava se sentindo bem, mas depois da queda ficou bem tonto. Talvez ela tenha achado que tinha exagerado, mas Emilia olhava para ele, caído no chão, com um ar de animalzinho adorável.

Quando Emilia percebeu que Subaru a espiava de canto de olho, voltou a se irritar.

—Sua personalidade é tããão difícil de lidar. Queria que você facilitasse as coisas pra mim.

—Sou do tipo que corta caminho na vida pra viver confortavelmente. Você é otimista demais.

Logo à frente do olhar invejoso de Subaru estava Puck, relaxando no colo de Emilia. Ele tinha o tamanho da palma de uma mão até pouco tempo, mas agora estava do tamanho de um bebê, e ela o acariciava em seu colo.

—Esses sentimentos nojentos não têm nada a ver comigo.

—Cala a boca e para de ler a mente dos outros. Isso está na mente de um adolescente, sabia? E isso é algo lindo. A Emilia-tan não escapa.

—Se você tiver muitos pensamentos sujos sobre a minha filha, eu vou apagar você.

—Você me apagaria só porque ficou bravo?!

Subaru só estava brincando, mas sentiu que Puck falava sério.

Subaru olhou para os dois.

—Ainda assim…

—Se arrume direitinho toda manhã, ouviu? Parece que as obrigações do espírito nesse contrato estão muito pequenas.

—Nem tanto. Alguns espíritos são mais exigentes que outros. Podem exigir uma quantidade de mana muito maior do que a de uma pessoa comum… ou até pedir uma morte por dia, se forem agressivos.

—Essa comparação foi brutal demais… e você mima demais sua filha.

Comparado com esse exemplo, os termos do contrato pareciam bons demais. Subaru se perguntou se em todos os mundos era assim quando se tratava de dar condições favoráveis para familiares em contratos e coisas do tipo. Viva o nepotismo!

Subaru observou o momento de brincadeira entre Emilia e Puck em um raro silêncio, enquanto pensava sobre o conceito de nepotismo.

O motivo de Subaru ficar tagarelando sem parar sobre tudo que vinha à mente era porque ele tinha dificuldade em ficar em silêncio perto das pessoas.

Ficar calado na presença dos outros lhe dava uma sensação de “Já que você decidiu ficar quieto, então fique quieto mesmo”. Era estranho como sua personalidade habitual parecia desparecer nesses momentos

-Era um silêncio total

Talvez fosse por causa da cena tocante à sua frente.

O movimento dos dedos de Emilia enquanto penteava o pelo de Puck era muito delicado. Ela parecia estar esquecendo da briga com Subaru, já que sua expressão começava a suavizar, e a forma como ela se concentrava na tarefa era séria, porém serena, absolutamente hipnotizante.

Ah, acho que estou ficando cego, pensou Subaru.

Subaru realmente odiava aquele gato leitor de mentes que o olhava com um sorriso no rosto. Aquele gato, que podia captar as emoções das pessoas sem nem encostar nelas, com certeza entendia a natureza real dos sentimentos complexos que ocupavam o coração de Subaru naquele momento. Sua fraqueza havia sido descoberta de forma inesperada, e ele não achava graça nenhuma nisso.

Subaru sentia como se tivesse escolhido um caminho bem espinhoso.

Seu cabelo prateado e sedoso era tão mágico quanto o orvalho sob o luar. Sua pele branca parecia neve recém-caída, e seus olhos ametista pareciam hipnotizá-lo como se ele estivesse sob um feitiço. Ele também sabia que o corpo delicado dela, com seus membros longos e finos, era tão frágil que poderia se quebrar se ele a segurasse em seus braços, mas, ao mesmo tempo, sabia que dentro dela havia um coração de ouro envolto por um núcleo inquebrável. Ela era nobre, linda e uma mulher ideal.

Por mais que tentasse, Subaru não conseguia imaginar um mundo em que ela demonstrasse interesse por um recluso fedorento vindo de outro mundo. “Só de estar aqui assim já é um luxo, né?”

Subaru começou a sentir emoções estranhas que o deixaram meio entorpecido só de pensar nelas. Pouco depois, ele se levantou e começou a balançar sua espada de madeira novamente, tentando espantar aqueles sentimentos.

A última vez que Subaru tinha sentido algo parecido foi na época da escola primária. E mesmo depois de dez anos, ele ainda guardava aqueles sentimentos engarrafados dentro de si, sem jamais contá-los a ninguém.

Cada vez que pensava nessas emoções guardadas, seus golpes ficavam mais rápidos.

—Desapareçam! Vão se ferrar, malditos arrependimentos! Não importa se são 108, eu vou destruir todos vocês! Pode vir!

Subaru cortava seus arrependimentos invisíveis e soltava um comentário ousado a cada golpe.

Subaru não era o tipo de pessoa que vivia de arrependimentos. Estava em sua natureza tomar decisões sem olhar para trás. Esse era o verdadeiro Natsuki Subaru.

—Ahhh, esse garoto. Hee-hee-hee, eu nunca me canso de observá-lo.

—Sim, sim, parece que não está funcionando… Mas é verdade.

Os dois olharam para Subaru, que continuava a cortar seus inimigos invisíveis, e faziam tais comentários.

Emilia relaxou os lábios levemente enquanto observava suas costas. Em seu rosto, a raiva embaraçosa de antes já não estava mais presente. O motivo pelo qual parecia ter esquecido disso era justamente porque Subaru estava sendo Subaru. “Hã. O que está acontecendo com aquelas duas?”

Ao som da voz de Emilia, que parecia ter notado algo, Subaru parou sua batalha imaginária e olhou na direção da mansão. As criadas gêmeas, com seus cabelos rosa e azul claro distintos, vinham em sua direção. As duas fizeram reverências formais com calma.

—O mestre Roswaal, senhor desta mansão, retornou. Por favor, venham até a mansão.

Elas falaram em perfeita sincronia, sem cometer um único erro.

Essa combinação perfeita surpreendeu Subaru, mas o que o surpreendeu ainda mais foi a mudança no comportamento delas.

Diferente de antes, quando haviam brincado entre si, agora as duas garotas diante dele pareciam verdadeiras criadas de uma mansão. Em outras palavras, haviam mudado do modo “descontraído” para o modo “trabalho”.

—Entendo. Roswaal… Então é melhor irmos vê-lo.

—Sim, ele pediu que trouxessem o hóspede também, caso já estivesse acordado.

Puck encolheu-se e mergulhou nos cabelos prateados de Emilia. Ela ajeitou o cabelo, aceitando-o, e então se levantou com uma expressão um pouco mais calma no rosto.

Subaru, que fora incluído na conversa, enxugou o suor do rosto por estar incomodado com sua aparência. Logo depois, a criada de cabelos azuis se aproximou rapidamente, tirou um lenço do colo e ajeitou sua aparência para ele. “Desculpa.”

—Não, como criada, é meu dever, senhor.

—Não, como criada, é meu trabalho, senhor.

Mesmo tendo sido a criada de cabelos azuis quem fez isso, a de cabelos rosa também se intrometeu como se fosse algo natural. Subaru ficou aliviado por ver que o comportamento delas havia voltado ao que vira anteriormente, e então perguntou:

—Então, quem é Roswaal?

—O senhor desta mansão… Ah, acho que nunca cheguei a explicar.

Emilia levou a palma da mão à boca ao perceber sua falha. Em seguida, franziu a testa, se perguntando como deveria responder.

—Bem, sim. Roswaal é… Você vai entender quando conhecê-lo.”

—Você desistiu muito fácil! O quê, ele é genérico demais pra descrever?!

—Na verdade, é o completo oposto.

Depois dessa réplica em coro, Subaru ficou tão abalado que deixou cair sua espada de madeira.

A criada de cabelos azuis chutou a espada para o alto com o pé, pegou-a com as mãos e fez uma reverência solene antes de se juntar à sua irmã. A criada de cabelos rosa ao lado então fez um gesto apontando em direção à mansão.

—Não adianta tentar descrevê-lo com palavras. Você entenderá a personalidade do Mestre Roswaal quando o conhecer, senhor. Vai ficar tudo bem.

As criadas de cabelo rosa e azul se olharam e assentiram, e Emilia concordou com elas, embora com relutância. Enquanto Subaru ainda estava confuso, Emilia deu um leve tapinha em seu ombro e seguiu em direção à mansão.

—Tenho certeza de que vocês dois vão se dar bem, Subaru. Só que ele dá um pouco de dor de cabeça.

Subaru só conseguiu murmurar um “tá bom…” com um tom deprimido na voz em resposta.

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