Seu corpo foi levado pelo vento para fora do campo de batalha, e ela sentiu como se tivesse sido libertada do desespero no momento em que cruzou a entrada.
No fim, naquele mundo para o qual ela nem teve tempo de olhar para trás, a batalha ainda continuava.
O som seco do ar congelante, o som de aço estilhaçando gelo, o som de uma arma pesada cortando o ar, e de vez em quando, uns “Hyoeh” e “Fuah” enquanto alguém desviava fazendo barulhos estranhos.
A batalha ainda não tinha acabado.
Mesmo que Felt tivesse fugido, deixando tudo para trás.
“O que é que eu tô pensando? Não é sorte eu ter conseguido escapar?”
Se tivesse ficado lá, estaria morta, isso era óbvio.
Felt não tinha a menor chance contra uma mulher que derrubou o Rom com um único golpe. Era o mesmo com a elfa de cabelo prateado, provavelmente não conseguiria enfrentar Elsa agora que perdeu o apoio do seu espírito.
Quanto ao Subaru, era óbvio que ele era inútil.
Dava pra ver só de olhar que ele era um cara comum, sem nenhuma experiência de combate. Seus dedos delicados mostravam que ele nunca segurou uma arma, sua pele e cabelo sem marcas sugeriam que nunca tinha se ferido.
Ou seja, tinha tido uma vida protegida. Sua posição social provavelmente o impedia de sequer pensar em lutar.
Ele apareceu com aquele metia absurdamente caro, então esse pensamento fazia sentido.
Era só pensar que ele teve o que merecia. Ignorante do mundo, com um leve senso de cavalheirismo, acabou tentando mais do que podia. Era só rir da imprudência dele.
“Isso aí, continua correndo. Não posso mais ficar nessa cidade. Tem gente assustadora demais. Antes que me encontrem, antes que seja tarde demais, eu preciso, rápido…”
Mesmo dentro dos becos da favela, ela escolheu um caminho que só quem morava ali conhecia. Estreito e minúsculo, parecia uma trilha feita pra animais, mas era uma rota de fuga ideal.
Considerando sua agilidade e porte pequeno, achava difícil que alguém conseguisse capturá-la ali. Se quisesse priorizar sua vida, esse era o jeito ideal.
Afinal, Subaru, que provavelmente já estava morto, tentou pagar de herói ao deixar ela escapar, então se ela fugisse com sucesso, ele poderia descansar em paz. Isso era óbvio.
Era óbvio, mas…
“Alguém, não tem ninguém aí?!”
Mesmo que seu cérebro dissesse para escolher o caminho estreito, suas pernas a levaram até a rua principal da favela, que levava ao centro da cidade. Com uma expressão de pânico e sem fôlego, até sua visão estava desfocada.
Vendo uma cabana caindo aos pedaços, correu por sua parede e ficou em cima dela, cuspindo enquanto gritava.
Não era qualquer pessoa que ela precisava.
Ela precisava de alguém com força o suficiente para enfrentar aquela assassina Elsa.
Se fosse qualquer um, já teria visto várias figuras enquanto corria. Mas Felt não era nem um pouco querida por ali.
Ainda mais agora, que estava em apuros, Rom provavelmente era o único que a ajudaria.
Se deixasse o Rom daquele jeito, ele ia morrer.
Até o Subaru, que ajudou Felt a escapar, provavelmente ainda estava lutando pela vida.
Era uma sensação estranha. Sem entender o motivo, esfregava desesperadamente os olhos que estavam prestes a se encher de lágrimas.
Deixando o Rom de lado, qual era o problema de um cara que ela mal conhecia morrer? Parecia alguém mimado, falava um monte de besteira, e ser inconveniente era pouco pra descrever ele.
Mas quando as palavras da Elsa quase a fizeram chorar, foi ele quem ficou com raiva por ela, e agora estava se sacrificando para que ela pudesse fugir.
Ela não entendia o que estava sentindo. Mas justamente por sentir isso, o coração de Felt a impulsionava a correr.
Ela tinha reagido às ações dele. Por causa desse sentimento que não parava de crescer dentro dela, Felt continuou correndo, querendo gritar desesperadamente.
E então, depois de passar por várias e várias ruas…
“Por favor, me ajuda.”
“Entendido. Eu irei te ajudar.”
Ela encontrou um jovem como uma chama carmesim, e mudou o destino.
—
“Reinhard?”
“Isso mesmo, Subaru. Faz bastante tempo, não é? Desculpe o atraso.”
A figura alta virou a cabeça na direção de Subaru, que ainda estava no chão, o leve sorriso de Reinhard parecia pedir desculpas.
Mesmo tendo rasgado o teto e caído de uma altura de uns cinco metros, aquilo parecia não ter tido nenhum efeito nele, que simplesmente caminhava com naturalidade. Seus movimentos eram refinados até mesmo ao afastar a poeira, e Subaru sentiu que ele estava um pouco diferente de quando enfrentaram Tonchinkan, como se agora estivesse vendo um vislumbre da verdadeira natureza de Reinhard.
Reinhard olhou à frente, em guarda, para a bela mulher de roupas negras cuja hostilidade era direcionada a ele. Seus olhos azuis se estreitaram de repente, como se estivesse se lembrando de algo.
“Cabelos pretos e roupas negras. Uma lâmina curva, típica do norte. Com essas características, não há como errar. Você é a ‘Caçadora de Entranhas’, certo?”
“Que apelido horrível, meu Deus…”
“Foi dado a ela por conta do seu método de assassinato característico. É uma criminosa bem conhecida e perigosa, até mesmo na capital. Embora, digam também que seja só uma mercenária qualquer.”
Reinhard respondeu com sinceridade ao comentário de Subaru, mantendo seus olhos azuis fixos em Elsa. Seu olhar a fez se movimentar.
“Reinhard. Sim, o cavaleiro entre cavaleiros. Da linhagem dos Santos da Espada. Incrível… encontrar oponentes tão interessantes assim… acho que devo agradecer ao meu contratante.”
“Tenho várias perguntas pra te fazer. Recomendo que se entregue.”
“Você acha que um predador faminto resistiria a um belo bife sangrando?”
Ela lambeu os lábios com a língua vermelha, olhando para Reinhard com uma expressão extasiada.
Recebendo aquele olhar, ele coçou a bochecha, como se estivesse incomodado.
“Acho que não. Sem escolha então. Subaru, afaste-se um pouco. Se puder, leve o velho para um lugar seguro. Seria de grande ajuda se ficasse ao lado daquela pessoa depois disso.”
“Entendido… Ela é uma mulher monstruosa, então não baixe a guarda.”
“Felizmente, caçar monstros é a minha especialidade.”
Com essas palavras promissoras, Reinhard avançou, completamente calmo.
Ele sequer levou a mão à espada em sua cintura aproximou-se de Elsa de mãos vazias.
Sua compostura fez Subaru engolir em seco, mas o que aconteceu assim que a batalha começou o chocou ainda mais.
“Sh.”
Exalando com força, Elsa brandiu a faca em sua mão, mirando no pescoço dele.
Dessa vez ela não estava se segurando como tinha feito com Subaru o brilho prateado da lâmina cortou o próprio ar enquanto avançava para o pescoço esguio de Reinhard. Ele parecia completamente indefeso diante disso. Nem sequer tentou puxar a espada para bloquear, muito menos desviar.
Enquanto a lâmina se aproximava, Subaru viu uma cena passar por sua mente Reinhard sendo decapitado. Haveria um jato de sangue, e sua cabeça cairia depois, como em um mangá.
Era essa a cena que ele viu. Mas…
“Preferia não ser muito violento contra uma oponente mulher, mas…”
Disse Reinhard em um tom um pouco mais baixo. E então.
“Com licença.”
Com força suficiente para estilhaçar o chão e criar uma onda de choque, seu chute mandou Elsa voando.
A onda de choque alcançou até Subaru, que ficou sem palavras diante do vento.
Parecia um chute frontal normal, mas tinha tanto poder que o impacto fez o ar dentro do prédio tremer. Tendo recebido o golpe diretamente, o corpo de Elsa foi lançado como uma folha ao vento, até quicar contra a parede para amortecer o impacto e cair rolando no chão. Até sua expressão era de puro espanto.
“Uoououou… Sério mesmo? O que foi isso?”
Subaru já tinha usado o termo “fora dos padrões” muitas vezes até agora, mas naquele momento, percebeu que tinha usado aquilo da forma errada esse tempo todo.
Esse termo existia justamente para descrever o homem que estava diante dele.
Comparado a ele correr como o vento, balançar um porrete como se fosse um galho, instinto de batalha transcendental, e um poder mágico de quantidade absurda tudo isso parecia insignificante.
“Você é tão bom quanto dizem… Não, é ainda melhor.”
“Não sei se consigo estar à altura das suas expectativas.”
“Não vai usar a espada na sua cintura? Eu adoraria experimentar a nitidez lendária dela.”
Elsa apontou com ousadia para a espada de Reinhard, querendo enfrentar ele em sua melhor forma.
Mas Reinhard balançou a cabeça em resposta.
“Essa espada só pode ser desembainhada quando for necessário. O fato de ainda estar na bainha significa que este não é um desses momentos.”
“Pelo visto, estou sendo subestimada.”
“Também fico um pouco incomodado com essa avaliação. Portanto…”
Reinhard desviou o olhar de repente e observou o interior da casa de penhores. Então encontrou uma espada de duas mãos gasta entre os espólios espalhados pelo chão.
Ele chutou o cabo da espada para o alto e a pegou com facilidade enquanto ela girava. Então, a balançou levemente, como se estivesse testando o peso.
“Enfrentarei você com esta. Está insatisfeita?”
“De forma alguma. Aaah, maravilhoso. Simplesmente maravilhoso. Por favor, me entretenha!”
Enquanto Reinhard empunhava a espada, Elsa tomou a iniciativa girando o corpo para o lado.
Imediatamente depois, lançou várias facas durante o giro. Eram quatro ao todo, jogadas quase ao mesmo tempo. Ela claramente havia se contido ao mirar em Felt.
Essas lâminas lançadas em alturas diferentes não eram tão rápidas quanto os ataques de gelo da “não-Satella”, mas suas trajetórias variadas tornavam difícil desviar. Em outras palavras, seria preciso apará-las, mas…
“Claro que vou aproveitar essa brecha.”
O corpo de Elsa saltou como um brinquedo de corda. Ela girou como se usasse o teto como apoio e então disparou de volta ao chão, mirando em Reinhard.
Era um ataque em duas fases, mesmo que ele conseguisse desviar das facas, teria que lidar com o ataque seguinte de Elsa.
Haviam quatro ataques seguidos por outro, mas Reinhard apenas ergueu sua espada à frente.
“Desculpe, mas… projéteis não me atingem.”
Logo após ele murmurar isso, Subaru presenciou uma cena que desafiava as leis da física.
As facas que deveriam perfurá-lo desviaram de sua trajetória, passaram direto por ele e se cravaram inofensivamente na parede.
Ele não usou nenhuma magia especial, nem moveu a espada em uma velocidade impossível. Enfrentou o ataque de frente, aparentemente indefeso. Era um espetáculo incompreensível, algo absurdo.
“A Bênção Divina da Evasão de Projéteis! Fui agraciado com ela desde o nascimento, sabe… Por favor, não pense que é injusto.”
As facas falharam completamente em impedi-lo, e a troca seguinte virou um confronto direto.
O golpe de Elsa veio com toda a velocidade de seu salto, e Reinhard estava preparado para recebê-lo com um movimento de espada para cima.
Embora tenha sido uma troca instantânea, Subaru viu tudo como se fosse em câmera lenta.
Talvez porque os movimentos de Reinhard fossem incrivelmente refinados, cada ação sua parecia possuir uma habilidade divina quase mágica.
Era uma espada qualquer, achada num armazém de penhores, mas em suas mãos brilhava como uma arma lendária das lendas.
Sua técnica de espada parecia levar aquela arma ao limite do que era possível.
A lâmina de Reinhard atingiu em cheio a base do kukri de Elsa e mesmo sendo um choque entre aços, o poder de corte absurdo da espada arrancou facilmente a arma de sua mão.
Elsa girou no chão apoiando-se com as mãos, sem palavras, diante do destino da arma que empunhava.
Com a lâmina cortada, só restava o cabo.
“Agora que perdeu suas armas, recomendo que se renda.”
Reinhard a segurava em sua mão enquanto se virava, abaixando a espada.
Ele a lançou com um simples movimento de punho, e a lâmina se cravou na parede com um som agudo. Até Subaru ouviu Elsa engolir seco.
“Esse cara tá num outro nível. Nem consigo fazer piada com isso.”
Esse pensamento escapou de Subaru como se estivesse sendo espremido, e ele se afastou animadamente do campo de batalha.
Aproximou-se do corpo caído de Rom, de alguma forma, conseguiu arrastá-lo até perto da parede.
“Velho Rom. Ei, careca, escuta aqui, ainda tá vivo?”
“Uu… Quem é… careca…”
“Você, óbvio. Como se fosse outro. Meus dois únicos objetivos na vida são nunca ficar careca nem gordo. Do meu ponto de vista, você é o exemplo perfeito do que não fazer.”
Apesar de fraco, pelo menos conseguiu responder. Subaru bateu a mão na testa e suspirou de alívio.
Deixando de lado os ferimentos graves na cabeça, o velho provavelmente estava bem. Talvez sua memória ficasse um pouco pior, mas esse era um pequeno preço a pagar pela vida.
“Essa pessoa está bem?”
Enquanto Subaru relaxava, a “não-Satella” correu até ele perguntando isso.
Com seus longos cabelos prateados esvoaçando, ela analisou os ferimentos de Rom e então sussurrou: “vou ter que curar isso”, enquanto um brilho azul emanava de suas mãos.
“Ei, esse velho ajudou a roubar seu brasão, sabia?”
“Justamente por isso. Quando eu curá-lo, ele terá uma dívida comigo. Com certeza não mentirá para quem salvou sua vida. Isso também é por mim.”
Talvez ela precisasse dar desculpas tão longas para justificar suas ações.
Sorrindo com um pouco de ironia pela maneira indireta dela, Subaru voltou os olhos para a batalha.
Elsa estava de joelhos. Ele não via sua expressão, mas parecia que Reinhard já considerava que ela havia perdido a vontade de lutar. Com a mão da espada abaixada, ele se aproximou de Elsa sem muita cautela.
Provavelmente era confiança em sua superioridade, mas esse tipo de arrogância sempre levava a más consequências. Um alarme soou dentro de Subaru, e no instante antes de Elsa se mover como se fosse pular.
“Ela tem outra, Reinhard!”
A faca que ela tirou da cintura cortou um pouco da franja de Reinhard enquanto ele se inclinava para trás.
Com o ataque surpresa falhando, ela se virou para Subaru.
“Perspicaz da sua parte.”
“Tive a experiência em primeira mão, afinal!”
Ele mostrou o dedo do meio com um orgulho que mal contava como orgulho, mas Elsa pareceu achar que ele estava falando besteira e o ignorou completamente.
“Mas eu tenho mais do que apenas duas presas… Que tal começarmos de novo?”
“Vai se satisfazer se eu tirar todas as suas armas?”
“Se eu perder as presas, usarei as garras. Se perder as garras, usarei os dentes. Se perder os dentes, usarei os ossos. E se perder os ossos, usarei minha vida. É isso que significa ter sede de batalha.”
“Então terei que quebrar essa sua declaração.”
Puxando uma terceira faca da cintura, Elsa assumiu uma postura de duas lâminas e avançou novamente.
Lâmina contra lâmina, o choque de aço fez faíscas voarem. Com a força de um golpe, Elsa balançou a outra lâmina.
A lâmina curva visava o pescoço de Reinhard, mas sua perna longa subiu e acertou o braço dela, impedindo que o golpe o alcançasse. Elsa aproveitou o impulso para se afastar e saltar na parede, chegando até o teto. De lá, chutou o teto e foi para outra parede.
De forma digna do apelido de “mulher-aranha” que Subaru havia dado, seus movimentos desafiavam a gravidade e impediam Reinhard de assumir a ofensiva.
Ela atacava de qualquer direção e recuava imediatamente. Reinhard, por sua vez, permanecia parado, focado em interceptar cada golpe. No entanto, aquilo parecia não ter fim.
“Não me diga que nem o Reinhard consegue acabar com ela…”
A habilidade sobre-humana de Elsa estava em outro nível agora, diferente de quando empunhava apenas uma lâmina.
Era como um chefe de videogame entrando na segunda fase. Ela havia alcançado um novo patamar.
Mesmo Reinhard, com suas bênçãos divinas (embora Subaru não entendesse bem isso) e habilidade de combate suprema, havia ultrapassado o domínio humano.
Era realmente um embate entre Deuses. Mesmo assim, Reinhard ainda parecia superior, mas…
“… Ele está se contendo.”
A “não-Satella” murmurou enquanto curava Rom, como se respondesse às dúvidas de Subaru.
Ela olhou de lado para ele quando ele fez “Hã?” e mordeu os lábios, inquieta,
“Estou usando artes espirituais agora, então ele não pode lutar a sério. Pelo menos até eu terminar de curar este homem…”
“Qual a conexão?”
“Se ele realmente fosse lutar com tudo, toda a mana do ambiente voltaria para ele. Estou quase terminando aqui. Quando eu der o sinal, chame por ele.”
“C-certo.”
A explicação não foi muito clara, mas como ela estava contando com ele, Subaru assentiu, ainda confuso.
O brilho azul continuou tratando o golpe na cabeça de Rom e um corte que ainda sangrava levemente. Seus ferimentos e os vestígios de sangue foram sumindo, e Satella suspirou profundamente enquanto Subaru observava admirado.
Depois de limpar os restos do machucado com um pano, já não havia mais sinal do golpe que o havia derrubado. Quando Subaru arfava diante de sua habilidade, ela tocou o ombro dele.
“Por favor.”
“Deixa comigo. Reinhard! Não sei direito o que tá rolando, mas pode ir com tudo agora!”
Subaru anunciou a Reinhard a conclusão do tratamento de Rom.
Reinhard olhou brevemente para ele. Quando seus olhos se encontraram, ele assentiu levemente.
“O que vai me mostrar agora?”
“A esgrima da família Astrea”
Elsa perguntou isso no meio de um salto, e a resposta de Reinhard foi curta e severa.
Logo em seguida, Subaru sentiu o espaço dentro do depósito de penhores se distorcer.
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