Ascensão de uma Viciada em Livro... Cap. 96 — O que eles merecem

Fran olhou para mim e Gil, então lentamente começou a falar.

— É dever dos sacerdotes azuis e das donzelas azuis do santuário, distribuir dons divinos para aqueles abaixo deles, com esses dons divinos sendo comida, roupas e abrigo. Quando sacerdotes azuis e donzelas azuis do santuário entram no templo, eles dão a seus assistentes roupas e um quarto, de modo que eles possam viver com seu mestre.

— E como não tenho quarto no templo, Gil permaneceu no orfanato, apesar de se tornar meu assistente? — Perguntei e Fran assentiu, em troca.

— Além disso, em relação à comida, é costume que a comida seja feita para o mestre. As sobras, são dadas aos seus assistentes e aprendizes, então, o que sobra além disso é dado ao orfanato como um presente divino. É natural que os presentes dados aos assistentes, sejam maiores que os que estão no orfanato recebem.

Meu objetivo era evitar ser separada da minha família e colocada no orfanato, então, quando fui autorizada a ir para o templo de casa, me alegrei, sem nunca pensar em como meus assistentes sofreriam por eu quebrar os costumes.

— Você foi enviado de volta ao orfanato dos aposentos do Sumo Sacerdote devido a se tornar meu assistente, Fran? — Se sim, era ainda mais compreensível que ele tivesse se sentido como se estivesse sendo punido. Ele estava se esforçando para me ajudar, mas, por nada em troca. Pior que nada, até. Eu tinha a intenção de dar-lhe seu primeiro salário em breve, mas, talvez, eu precisasse falar com o Sumo Sacerdote sobre suas condições de vida primeiro.

— Não, meu quarto ainda está dentro dos aposentos do Sumo Sacerdote e imagino que Delia também não tenha sido movida. Estou ajudando o Sumo Sacerdote com sua papelada, enquanto você está ausente, então estou comendo lá também.

Isso me lembrou. O Sumo Sacerdote estava inundado de trabalho e havia mencionado que não tinha trabalhadores suficientes para ajudá-lo. Não havia chance de ele deixar Fran ficar sentado sem fazer nada enquanto eu estava ausente, habilidoso como ele era. Suspirei de alívio, feliz ao ouvir que Fran não havia caído em sofrimento por minha causa.

— Então, em suma, apenas Gil está sofrendo agora?

— Acredito que ele estava esperando que sua condição de vida melhorasse e agora está com raiva porque permaneceu inalterada. Os dons divinos são dados àqueles no orfanato, independentemente deles trabalharem. Mas é possível melhorar sua situação trabalhando como assistente. Sinto-me um pouco frustrado por ele pensar que receberia mais bênçãos divinas, apesar de não fazer corretamente seu trabalho como assistente, — disse Fran, que claramente sentia orgulho de seu trabalho, enquanto olhava para Gil.

— Fran, se você não está tendo nenhum problema, acho que vou manter as coisas com você como estão e, se em algum momento você começar a ter problemas, vou pensar em uma solução. O que acha?

— Se é isso que você deseja fazer, então que seja, — respondeu Fran com um aceno silencioso, após parar para pensar por um momento, provavelmente, comparando sua situação atual de vida com o que seria viver em meus aposentos. Quando pensei que isso sinalizava o fim da conversa, Gil começou a latir novamente.

— Fran isso, Fran aquilo e quanto a mim?! Eu sou seu assistente também!

— Isso é estranho. Lembro-me de você dizer que não me considera sua mestra. Por que eu lhe daria dons divinos quando não sou sua mestra?

O comportamento de Gil era difícil de entender, se ele realmente queria que eu melhorasse sua situação de vida.

— É isso que as donzelas azuis do santuário devem fazer! E de qualquer forma, se você não vai me dar comida ou um quarto, por que eu trabalharia para você? O que eu ganho com isso?

— Salário. — Eu considerava importante pagar aos meus assistentes um salário justo, assim como Benno e Mark estavam pagando Lutz. Naturalmente, o pagamento dependeria da qualidade e quantidade do seu trabalho. Como as coisas estavam, eu nunca pagaria Fran e Gil da mesma forma.

Gil piscou de surpresa várias vezes, depois murmurou.

— O que é um salário? — com a cabeça inclinada.

Lutz riu e basicamente repetiu o que Gil havia me dito.

— Você realmente não sabe disso? É apenas bom senso que você receba salários por trabalhar.

— N-Não, não é!

— Um salário é o pagamento pelo trabalho. Estarei pagando dinheiro para os assistentes que trabalham para mim.

— Dinheiro? Ah, sim, dinheiro. Hum. — Parecia que Gil não sabia o que era dinheiro. Seus olhos vacilaram, então, após fazer contato visual com Lutz, ele assentiu enquanto fingia saber o que era.

— Fran está trabalhando duro por mim, então estou mais que disposta a estender uma mão amiga em seu nome, mas não tenho intenção de me preocupar em negociar com o Sumo Sacerdote para ajudar um assistente que nem trabalha para mim. Isso vai tirar do meu tempo de leitura.

Meu tempo de leitura já estava limitado, devido a ter que ajudar o Sumo Sacerdote pela manhã e almoçar depois. Eu não queria desperdiçar mais nada.

— Agora, então, Fran. Poderia me levar ao Sumo Sacerdote? Devo ajudá-lo com sua papelada até o meio-dia.

— Como quiser. — Fran assumiu a liderança, com Lutz e eu, seguindo atrás e Gil ainda mais atrás.

— Ei, se eu fizer meu trabalho, as coisas realmente mudarão?

— Claro. Pago um salário adequado por um bom trabalho.

…

— Com licença, Sumo Sacerdote. A Irmã Myne chegou.

— Ah, aí está você. Como você está se sentindo? — O Sumo Sacerdote ergueu os olhos da mesa.

— Desculpe por te preocupar. Já estou bem. Parece que desmaiei devido à cerimônia de oferenda. A saúde de alguém é afetada pelo fato de o corpo estar ou não completamente cheio de mana?

— Você pode morrer se estiver completamente sem mana, mas nunca ouvi falar de ninguém ficando doente por não encher seu corpo com mana. Talvez este seja um traço exclusivo daqueles com a Consumação?

O Sumo Sacerdote baixou a caneta e fechou brevemente os olhos, procurando em suas memórias por uma resposta.

— É muito raro que crianças com a Consumação sejam descobertas. Em particular, aquelas com grandes quantidades de mana morrem incrivelmente jovens, por isso não foram bem estudados. Você está além de um caso raro. Pelo que sei, nem uma única criança plebeia, com tanta mana quanto você, sobreviveu para alcançar o batismo, se é que alguma nasceu. Eu gostaria de investigar isso em algum momento.

O Sumo Sacerdote olhou para mim com olhos semelhantes aos de um cientista louco, que acabara de descobrir um sujeito de teste perfeito, o que causou arrepios na minha espinha. Para escapar de seu olhar cheio de curiosidade, mudei rapidamente de assunto.

— Tenho outras perguntas. Há algum evento religioso onde apenas padres azuis são convocados para o Bairro dos Nobres? Se houver alguma roupa especial que eu precise preparar, saber agora seria o melhor.

— Há, ao longo do ano, mas não muitos para os quais você, como aprendiz, será chamada. Ainda assim, você vai querer preparar vestes azuis cerimoniais com antecedência. Falando nisso, onde estão suas vestes? — disse o Sumo Sacerdote, o que finalmente me fez perceber que ainda não havia colocado minhas vestes azuis.

— Disseram-me que é perigoso usá-los fora do templo, então eu estava planejando usá-las assim que chegasse aqui.

— Perigoso?

— Os criminosos podem pensar que sou filha de um nobre e me sequestrar. Um segundo, por favor. — Coloquei minhas mãos na cesta ao lado dos pés de Lutz e tirei as vestes azuis e a faixa.

— Myne? O que você?

— Colocando as vestes. — Puxei as vestes azuis sobre minha cabeça, como sempre, tomando cuidado para não enroscá-las no meu enfeite de cabelo. Quando minha cabeça saiu do topo, me vi olhando diretamente nos olhos de Fran. Ele começou a ajoelhar-se e parecia perturbado, já que suas mãos levantadas não tinham para onde ir.

— O que há de errado, Fran?

— Permita-me ajudá-la a se vestir.

— Hum, bem, então. Pode colocar minha faixa para mim? — Provavelmente era melhor não dizer a ele que eu poderia fazer isso sozinha. Levantei os braços e permiti que Fran amarrasse minha faixa, então fiz contato visual com o Sumo Sacerdote, que estava embalando sua cabeça.

— Myne, troque de roupa em seu próprio quarto. Isso foi sem vergonha. — O tópico mudou para quartos, em um ponto inesperado. Como eu estaria mudando todos os dias, eu esperava pedir emprestado um vestiário ou um armário, ou algo assim.

— Você vai me dar meus próprios aposentos?

— Não, eu falei errado. Convenci o Arcebispo a permitir que você se deslocasse de casa, dizendo-lhe que era melhor que lhe dar um quarto na Ala dos Nobres. Não haverá como voltar nessa decisão.

O único aqui que apoiaria algo tão conveniente quanto eu vindo de casa, era o Sumo Sacerdote. Parecia que ele estava se desdobrando por mim de várias maneiras, sem que eu percebesse.

— Hum, Sumo Sacerdote. Você tem algum lugar fora da Ala dos Nobres? — Isso questionado, parecia ser inesperado para ele. Ele franziu as sobrancelhas e estreitou os olhos, deixando claro que não conseguia entender minha proposta. Eu apressadamente elaborei para esclarecer suas suspeitas.

— Como você sabe, eu não sou uma nobre, apesar de receber vestes azuis. Portanto, não finjo querer um quarto no Bairro dos Nobres. Eu só gostaria de um quarto para trocar de roupa e guardar alguns pertences, um para o qual os visitantes possam ser direcionados. Você tem um armário ou algo assim que eu possa pegar emprestado?

— Você convidaria visitantes para um armário?! Você não tem noção de como isso seria rude? — O Sumo Sacerdote levantou a voz, com os olhos bem abertos. Isso definitivamente seria rude para os visitantes, mas não seria muito diferente da situação atual, na minha opinião.

— Perdoe minha imprudência, mas no momento eu nem tenho um armário. Lutz está sendo obrigado a esperar no portão por mim. Fazer um visitante esperar no portão não é rude, por si só?

— É melhor que guiar um visitante de um manto azul até um armário. Vou informar aos guardas para pelo menos levarem seus visitantes para uma sala de espera.

De acordo com o Sumo Sacerdote, como ele explicou enquanto esfregava as têmporas, os convidados de sacerdotes azuis e donzelas de santuários eram tratados de forma totalmente diferente dos plebeus, com razões desconhecidas para visitar. Ficou claro que o Sumo Sacerdote estava me considerando uma aprendiz de donzela azul do santuário na íntegra, não uma garota pobre em roupas ricas.

— Sumo Sacerdote, que tal dar à Irmã Myne os aposentos do diretor do orfanato? Eles estão longe da Ala dos Nobres e dado que uma donzela azul do santuário já os estava usando anos antes, não prejudicará a honra de um hóspede ser convidado para lá, — disse Arno, que enviou uma agitação através dos sacerdotes cinzentos presentes. O Sumo Sacerdote não parecia incomodado e assentiu após pensar um pouco.

— Muito bem. Darei à Myne os aposentos do diretor do orfanato. A partir de agora, você vai trocar de roupa e encontrar os visitantes lá. Assim que seu trabalho pela manhã terminar, Fran a guiará até lá.

— Este é um pedido extraordinariamente rude, mas posso ser levada aos aposentos primeiro? Lutz está aqui para ensinar Fran sobre como gerenciar minha saúde, então preciso de um lugar para eles conversarem.

— Os aposentos do diretor estão há muito tempo sem uso, então eles não estão bem conservados o suficiente para serem usados imediatamente. Você estará trabalhando aqui, portanto, eles podem conversar aqui também. Fran, use a mesa ali.

— Entendido. — Fran e Lutz se moveram para a mesa a qual o Sumo Sacerdote os dirigiu. Eu os vi ir e vi Gil segui-los, apesar de não ter nada para fazer lá.

— Sumo Sacerdote, eu gostaria ainda mais de ir aos aposentos, agora que sei que eles estão descuidados. Vou pedir ao Gil para limpá-los enquanto trabalho aqui.

— Quê? Eu? — Gil apontou para si mesmo e olhou ao redor da sala, pego de surpresa por de repente receber trabalho. Os outros sacerdotes na sala também me olharam com surpresa. Eu podia ouvi-los sussurrando. “Ela confiaria nele com o trabalho?”, disse um, e “Ouvi dizer que ele continua sendo enviado para a câmara de arrependimento por não limpar a capela” respondeu outro.

— Oh? Você não sabe como limpar, Gil?

— Todo mundo sabe como limpar!

— Perfeito. Então vou esperar para ver o quão habilidoso você é. Boa sorte.

Com meu incentivo, Gil saiu da sala, ao lado de um aprendiz de sacerdote cinza, que o Sumo Sacerdote havia dado uma chave.

A porta se fechou e o Sumo Sacerdote estreitou os olhos em minha direção.

— Myne, foi sábio confiar nele?

— Se eu não lhe der oportunidades de trabalhar, não poderei julgar seu valor de forma eficaz.

Quando o aprendiz voltou com a chave, Lutz estava falando com Fran sobre como gerenciar minha saúde e eu estava ajudando o Sumo Sacerdote com sua papelada. Meu trabalho hoje era repassar as contas de um livro-razão. Ele disse que seria fácil para mim, se eu tivesse experiência comercial. Matemática era minha especialidade, mas eu não queria que ele pensasse que eu sabia o suficiente para lidar com um livro-razão sozinha. Especialmente quando eu não sabia nada sobre o funcionamento interno do templo.

— A matemática será a mesma, mas há muitas coisas diferentes neste livro-razão do que estou acostumada. O que esta coluna de “vontade divina” representa? Parece que mais dinheiro está sendo gasto aqui, que em qualquer outro lugar.

As outras colunas de despesas foram intituladas: Oferendas aos deuses, flores para os deuses, água para os deuses e compaixão divina. Havia tantos termos religiosos estranhos, que eu não me sentia confiante passando por todo o livro-razão.

O Sumo Sacerdote olhou para mim sem expressão por um tempo, depois balançou a cabeça e apontou para uma parte do livro.

— Por hoje, você pode se concentrar em fazer os cálculos.

— Entendido. Lutz, pode me emprestar sua lousa? Esqueci de trazer a minha.

— Uh? Oh, sim, claro. Lutz vasculhou a cesta e tirou sua lousa. Peguei emprestado dele e fiz as contas na seção que o Sumo Sacerdote havia apontado. Ele olhou por cima do ombro com curiosidade, mas como não fez perguntas, continuei meu trabalho em silêncio.

— Hum, muito rápida. E precisa também — observou o Sumo Sacerdote, parecendo impressionado. Mas eu estava acostumada com esse tipo de coisa, já que eu estava passando por livros contábeis no portão por tanto tempo. Moagem através de matemática simples realmente me fez ansiar por uma boa calculadora eletrônica.

Enquanto eu despejava minha atenção total em fazer contas, o quarto sino eventualmente tocou, para significar meio-dia.

— Isso é tudo por hoje.

No momento em que o Sumo Sacerdote falou, os sacerdotes cinzentos na sala começaram a limpar seu trabalho.

— Myne, deixe a chave dos aposentos do diretor com Fran, para que você não a perca. Além disso, aqui está sua parte da doação que você trouxe.

O Sumo Sacerdote me entregou a chave dos aposentos do diretor, uma grande e seis pequenas pratas. Parecia estranho receber uma parte da minha própria doação, mas, como todas as doações eram distribuídas, em parte, a todos os sacerdotes azuis, foi-me dito para aceitá-la de qualquer maneira. E lembrou, mais uma vez, que as donzelas do santuário eram frequentemente agrupadas com sacerdotes, supostamente para salvar o esforço que seria gasto na distinção contínua das duas profissões.

— E, aliás, leve essas mercadorias com você para seus aposentos.

Segui seu olhar para ver os presentes de Benno alinhados na prateleira. Eles foram deixados lá intocados, talvez devido ao meu colapso. O pano de alta qualidade, a garrafa de Limxam e o maço de papel vegetal ainda estavam embrulhados em pano.

Fiz Lutz e Fran carregarem os presentes, então só segurei a chave do quarto, a caminho dos aposentos do diretor do orfanato. Fran explicou o significado dos meus novos aposentos no caminho para lá.

— O orfanato está dividido em dois edifícios de três andares em ambos os lados da capela principal. Um prédio é para meninos e outro para meninas. Os aposentos do diretor que você recebeu, estão localizados no prédio dos meninos.

— O quê? Estes cômodos não foram usadas pela última vez por uma donzela azul do santuário? Por que está localizado no prédio dos meninos? — perguntei, confusa.

Fran hesitou, os olhos vacilando, antes de finalmente sorrir.

— Isso não é algo que você precisa saber, Irmã Myne. — Ele, escondendo isso, só me deixou mais curiosa, mas a julgar por como seus lábios estavam fechados em uma linha apertada, havia pouca chance dele me dizer.

— O orfanato está no caminho do portão para o Bairro dos Nobres. É um bom lugar para você, Myne. Você pode se trocar assim que chegar aqui, — disse Lutz.

— Huhu.

— Irmã Myne, a entrada, para os aposentos do diretor, está no lado oposto do portão e na extremidade da frente do Bairro do Nobre. Tome cuidado para não entrar pelas portas que os órfãos usam. Há diferentes entradas para o orfanato em geral e para os aposentos do diretor. Peço que não use a errada. — O aviso de Fran me fez colocar uma mão ansiosa no meu peito. O Sumo Sacerdote me concedeu os aposentos sob o conselho de Arno, apesar de ter sido tão oposto a me dar um quarto. Estando localizado no prédio dos meninos, a entrada para os aposentos sendo separada da entrada do orfanato. Tudo apontava para que os cômodos tivessem uma história desagradável, por assim dizer.

— Por aqui, Irmã Myne.— A porta dos cômodos estava ligeiramente entreaberta, provavelmente, devido à limpeza do Gil. Fran abriu e lá estava Gil, esperando com o peito inchado de orgulho.

— Heheh, como está?

A porta se abriu para um amplo salão que também servia como uma sala de estar, com um conjunto de escadas no final. Metade da sala estava perfeitamente limpa, enquanto a outra metade parecia incompleta.

— Este lado da sala está realmente limpo, — eu disse enquanto entrava. Mas quando fui abrir a porta do lado direito da sala, Gil me parou, dizendo que ainda não havia limpado lá. Em vez disso, fui para a porta da esquerda, mas ele me parou novamente. Essas eram as únicas portas que eu podia ver no primeiro andar.

— Gil, o que diabos você limpou?

— Seu quarto, obviamente! Você acha que eu limparia os quartos de seus criados primeiro? Não acredito! Limpei todo o segundo andar e metade do corredor que leva às escadas, não continue tentando ir para as partes sujas. — Gil subiu as escadas com raiva. Parecia ter me priorizado ao limpar os cômodos. Talvez ele fosse mais doce do que eu pensava. Soltei um pequeno sorriso enquanto olhava para a escadaria brilhante e limpa, polida até brilhar.

Subi as escadas e acabei em um quarto claramente destinado à nobreza. Era incrivelmente grande e ainda tinha várias peças de mobília dentro dele. Havia uma mesa ornamentada com quatro cadeiras no centro da sala. Havia um armário com prateleiras nas proximidades e um baú impressionante, esculpido habilmente em madeira. O canto do quarto tinha uma cama grande, embora sem almofadas. A julgar pelo fato de que a mobília foi colocada de uma forma aproximadamente semelhante ao quarto do Sumo Sacerdote e que a mobília era cara e habilmente feita, era fácil dizer que o residente anterior da sala tinha sido uma filha nobre.

— Por que ninguém levou a mobília? Tudo parece bastante caro.

— Isso porque a proprietária anterior era quem ela era.

— A proprietária anterior sendo… Ah, não importa. Não vou perguntar. Serei meramente grata por usar a mobília para mim.

Eu não tinha intenção de desperdiçar dinheiro comprando móveis de reposição, então era melhor não fazer perguntas que eu não precisasse saber a resposta. Coloquei os presentes de Benno nas prateleiras limpas e minhas roupas no armário.

— Obrigada, Gil. O quarto está muito limpo.

— Hehe?! Hum, claro. Eu limpei, claro que está limpo.

Gil estava estufando o peito com orgulho novamente, mas sua expressão estava completamente envergonhada. Ele não faria contato visual comigo, mas estava sorrindo como se nunca tivesse sido elogiado em sua vida antes. Quando ele olhou para mim, seus olhos estavam praticamente implorando por mais elogios.

Era fácil dizer que ele não estava acostumado a ser elogiado por seus esforços. O fato dele ser um encrenqueiro, o suficiente para ser atribuído a mim por despeito, era provavelmente um indicador de que a maior parte de seu tempo era gasto levando sermões, não recebendo elogios. Felizmente, o princípio central da disciplina era elogiar muito alguém quando ele fazia algo certo.

— Gil, agache-se um pouco para que eu possa elogiá-lo mais.

— Quê? Assim? — Gil se ajoelhou. Lembrando que ele havia sido criado para instantaneamente fazer tais posturas em tempos de oração e adoração, estendi a mão para o cabelo loiro, sujo, de Gil, que agora estava mais baixo que minha própria cabeça. Ele seguiu minha mão com olhos duvidosos, não tendo ideia do que eu estava planejando fazer.

— Pronto, bom garoto. Você fez um bom trabalho.

Lutz sempre ficava envergonhado e me dizia para parar de tratá-lo como uma criança, quando eu dava um tapinha na cabeça dele, mas os olhos de Gil se arregalaram, então seu rosto se encolheu como se ele estivesse segurando as lágrimas. Ele imediatamente abaixou o rosto no chão, o que me fez puxar minha mão para trás reflexivamente, mas, ele sussurrou “Continue”, calmamente para mim.

— Está muito, muito limpo. Você fez um bom trabalho sozinho.

As orelhas de Gil ficaram vermelhas enquanto ele me deixou dar um tapinha em sua cabeça. Fui atingida pelo desejo de me agachar e olhar para o rosto dele, mas me segurei, pois podia imaginá-lo gritando comigo, com raiva, para não olhar.

Fiz uma nota mental firme, de que o que Gil merecia e precisava mais que os dons divinos, era louvor e gratidão.

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