Ascensão de uma Viciada em Livro... Cap. 102 — Conversa secreta com o Sumo Sacerdote

Eu tinha decidido salvar os órfãos, mas não havia muito que eu pudesse fazer no caminho para casa. Após conversar com Lutz e Fran, decidi fazer meu trabalho com cuidado, com o ponto-chave sendo “salvar vidas”. 

Eu não tinha certeza de quão bem os órfãos, famintos, poderiam lidar com a comida, então comecei fazendo sopa leve com pedaços de pão nela, que Lutz entregou a eles através da porta dos fundos. Fran disse que se ele entregasse presentes divinos na porta da frente, enquanto Gil entregasse a sopa, furtivamente, da porta dos fundos, poderíamos alimentar as crianças pequenas sem que ninguém notasse. 

— Gil é o mais preocupado com eles, então ele deve levar este trabalho muito a sério. 

— Vou dar algumas das minhas roupas ao Gil e dizer a ele para usá-las quando ele estiver fazendo trabalho sujo,— ofereceu Lutz. 

Isso era tudo que eu podia fazer hoje, mas me senti melhor sabendo que, no mínimo, significava que eles não morreriam de fome da noite para o dia. Mas, em contraste com o meu alívio, Fran olhou para mim com uma expressão dura. 

— Irmã Myne, por favor, tenha cuidado com Delia. É muito provável que o Arcebispo se oponha a salvar os órfãos. 

— E o Sumo Sacerdote não vai? — Pensei que o Sumo Sacerdote era bastante oposto a ele também, mas eu não tinha certeza do que Fran estava pensando. Seus olhos se abriram um pouco, de surpresa com a minha pergunta. 

— Vou discutir este assunto com o Sumo Sacerdote. Sei que ele está tão frustrado quanto você com o abandono do orfanato e o tratamento de padres e donzelas cinzentos do santuário. 

— O quê? Certamente não parecia assim para mim. 

Inclinei minha cabeça em confusão e Fran baixou os olhos lamentavelmente. 

— Você se lembra do que Delia disse? O Arcebispo tem autoridade máxima dentro do templo. Por essa razão, o Sumo Sacerdote esconde seus verdadeiros sentimentos e intenções por trás de uma máscara bem composta, para que não sejam detectados. Pode ser extremamente difícil de notar, mas ele está muito frustrado com o Arcebispo agora. 

— Eu não percebi isso tudo. 

Que tipo de detetive seria preciso para perceber, da nossa conversa anterior, que o Sumo Sacerdote estava frustrado com o Arcebispo? Fran poderia ler a mente do Sumo Sacerdote? Eu caí em pensamento, perplexa, e Lutz encolheu os ombros. 

— Parece que você tem que dizer ao Sumo Sacerdote que Myne não o está entendendo. 

— De fato. Irmã Myne precisará estudar a rotina, formas distorcidas e indiretas da nobreza. 

Os dois olharam para mim com o tipo de pena que um professor poderia olhar para um aluno fracassado. Ai. 

Nos dias seguintes, Fran e eu discutimos a melhor maneira de abordar o Sumo Sacerdote, enquanto Gil continuava a entregar a comida furtivamente. Como o Ateliê da Myne estaria envolvido, até envolvi Benno nisso, que se queixou por eu colocar minha cabeça em apuros novamente. Eu queria obter a permissão do Sumo Sacerdote o mais rápido possível, para que eu pudesse começar a trabalhar na melhoria do orfanato, mas Benno novamente gritou comigo por ser imprudente. 

— Não basta focar diretamente no seu objetivo assim! Pode ser irritante lidar com os nobres adequadamente, mas, preparar-se com antecedência e lançar as bases antes de conhecê-los é essencial! Realmente, você poderia dizer que o resultado de uma reunião é decidido antes dela começar. Nada de bom virá se você apenas correr para encontrá-lo sem um plano. 

— Mestre Benno está certo. Irmã Myne, você sempre age assim que toma uma decisão, mas quando se trata de discussões importantes, é normal comunicar seus pedidos e o que você sabe a eles, antes de organizar uma reunião. Ao discutir assuntos com nobres, não se deve ser impaciente. Demore o máximo de tempo possível para estabelecer as bases que garantirão um resultado o mais favorável possível para você. 

Fran me informou que me encontrar com o Sumo Sacerdote, logo após ver os órfãos e repetidamente pedir sua ajuda em uma base emocional, foi, na realidade, extremamente rude e uma violação flagrante das boas maneiras. As coisas não iriam bem para mim se eu não desse ao Sumo Sacerdote informações suficientes e tempo para se preparar. 

— Esta será uma boa oportunidade para você, Irmã Myne. Observe e aprenda a organizar uma reunião com um nobre e prepare-se para ela com antecedência. Isso será muito importante para você nos próximos anos. 

Como resultado de várias conversas sobre o assunto, decidi aceitar o cargo de diretora de orfanato e usar os fundos obtidos pelo Ateliê da Myne para melhorar o orfanato, com base na criação de uma filial lá. 

Primeiro, lavaríamos as crianças do pré-batismo e faríamos as crianças mais velhas limpar cada centímetro do orfanato. Uma vez feito isso, eles estabeleceriam a oficina no porão do prédio dos meninos e trariam as ferramentas para cozinhar e fazer papel. 

Eu tinha três grupos principais em mente para dividir o trabalho: um grupo de coleta na floresta, para corte de material para a fabricação de papel, um grupo de tarefas do orfanato e um grupo de trabalho no templo. Eles alternariam uma vez por mês e obteriam experiência em todas as formas de trabalho. Então, eu perguntaria para elas suas preferências individuais e as colocaria de acordo. Poderiam escolher seus próprios empregos à vontade. 

Eu precisaria listar as roupas e ferramentas que precisávamos, sem mencionar comprá-las através de Benno. Para conseguir os fundos para tudo, eu tinha Lutz e Ralph esculpindo cabides de madeira. Eram cabides que eu estava bem acostumada, com ombros arredondados. Expliquei a Benno que eles danificavam menos as roupas do que os cabides em forma de cruz que eu tinha visto antes e ele saltou sobre eles com olhos brilhantes. 

— Obrigado pelo negócio, como sempre. 

— Qual é o objetivo final da Filial do Orfanato do Ateliê da Myne? — perguntou Benno, avaliando-me. Se eu não pudesse dar uma resposta adequada, ele me chamaria de idiota de novo. Então eu disse a ele a resposta que eu já havia resolvido há muito tempo. 

— Ganhar fundos suficientes para pagar a comida do orfanato. Eu gostaria que eles fossem capazes de ganhar independentemente o dinheiro necessário para pagar a comida, quando apenas presentes divinos não são suficientes. 

— Comida? Isso é tudo? 

— O templo dá a eles tudo o que precisam, como roupas e abrigo, então estou bem, desde que ganhe lucro suficiente para cobrir sua comida. 

Lutz disse que eles poderiam apenas reunir comida na floresta, se não tivessem dinheiro, mas dado o tamanho do orfanato, não seria sustentável enviá-los para pegar a comida todos os dias. Não haveria comida suficiente no entorno da floresta para todos ali. Uma vez que soubéssemos se a oficina poderia ganhar dinheiro, eu poderia pagar temporariamente por sua comida, até que a oficina estivesse ganhando o suficiente para que eles pudessem cobri-la. 

Ao responder às perguntas de Benno, Lutz escreveu o preço do papel e o preço da comida para fazer algumas contas.  

— Parece que será surpreendentemente fácil cobrir apenas a comida. Mas se você vai pagar, Myne, por que se preocupar em ensiná-los a coletar? 

— Quero que aprendam a coletar para quando estiverem fazendo papel. Dessa forma, na pior das hipóteses, eles serão capazes de conseguir comida para si mesmos antes de morrer de fome. Sem o conhecimento certo, eles apenas pegarão cogumelos venenosos como eu costumava fazer. 

— Você com certeza colheu muitos cogumelos venenosos. 

Uma vez que tínhamos um objetivo claro, com todos os passos relevantes delineados, Fran discutiu furtivamente o assunto com o Sumo Sacerdote e, embora ainda não fosse público, ele aprovou que eu me tornasse a diretora do orfanato e estabelecesse uma filial do Ateliê da Myne no orfanato. Além disso, ele permitiu uma reunião para oficializar as coisas. 

Parece que tínhamos que escrever uma carta com vários dias de antecedência, ao solicitar formalmente uma reunião, então escrevi uma após aprender o formato adequado. Lidar com nobres é uma dor. 

Quando a carta de convite chegou do Sumo Sacerdote, as crianças no orfanato já haviam melhorado muito graças aos esforços de Gil. Gil disse que eles poderiam comer alimentos mais duros além de sua sopa agora e foram pouco a pouco ficando mais enérgicos. Eles estavam saudáveis o suficiente para sobreviverem ao banho, enquanto seus quartos cheios de lixo eram limpos. 

Quando o terceiro sino tocou sinalizando ser hora do nosso encontro, fui ao quarto do Sumo Sacerdote com Fran. Gil e Lutz estavam prontos em meus aposentos, preparados para começar a trabalhar a qualquer momento. 

— Muito obrigado por dedicar um tempo para se encontrar comigo. 

— Myne, mulheres nobres não falam assim. 

De acordo com o Sumo Sacerdote, as mulheres nobres diriam “Muitíssimo obrigada”. Houve um período na história em que era popular para as mulheres parecerem um pouco mais dramáticas e vários vestígios daquela época permaneceram até hoje. Eu tinha aprendido principalmente minha linguagem educada com a Companhia Gilberta e os guardas no portão, então eu provavelmente tinha mais exposição aos padrões de fala masculina que aos padrões de fala feminina. 

— Parece que você precisará de uma donzela cinza do santuário para instruí-la sobre o idioma também. Mas isso pode esperar. Temos assuntos mais importantes para discutir hoje. 

O Sumo Sacerdote havia limpado a sala antes de eu chegar, deixando apenas Arno. Comecei a caminhar em direção à sua mesa, mas, o Sumo Sacerdote de repente caminhou na direção oposta, em direção à sua cama. 

— Sumo Sacerdote?! — Arno soltou um grito de surpresa. Fran também parecia chocado. 

Eu só segui o Sumo Sacerdote, não tinha certeza do que estava acontecendo. Ele abriu as cortinas ao redor de sua cama, a alguma distância da moldura em si, e me acenou para frente. Inclinei a cabeça confusa e vi haver uma porta construída na parede ao lado da cama dele. 

— Vamos conversar aqui. 

O Sumo Sacerdote pressionou a mão na porta e, imediatamente, um círculo mágico azul cintilante surgiu, fazendo a pedra preciosa de um anel em seu dedo brilhar vermelho resplandecente. A luz vermelha do anel deu uma volta pelo círculo mágico e depois desapareceu. 

— Nem mesmo meus assistentes podem entrar nesta sala. Venha, Myne. 

A porta se abriu com um clique e o Sumo Sacerdote entrou sem Arno nem Fran. O quarto escuro era assustador o suficiente para que eu olhasse para Fran com preocupação. Ele deu um leve aceno de cabeça, me levando para dentro. 

— Co-com licença. — No momento em que entrei e a porta se fechou, uma janela apareceu na sala, outrora escura, e permitiu que um fluxo de luz brilhante entrasse. Foi muito repentino, pois as persianas haviam sido abertas muito rapidamente. 

— Quê?!— Enquanto eu cobria meus olhos e esperava que eles se ajustassem, eu podia ouvir o Sumo Sacerdote se movendo. Eu lentamente abri meus olhos e vi que a sala, outrora escura, era na verdade um estúdio, parecendo uma sala de laboratório da faculdade, até certo ponto. 

Havia todos os tipos de pergaminhos e papiros espalhados por uma mesa e prateleiras, sem mencionar uma pilha de vários livros. Uma das prateleiras tinha ferramentas que eu nunca tinha visto antes, alinhadas uma ao lado da outra, mas eu podia dizer que elas estavam relacionadas à ciência de alguma forma. O canto da sala parecia ser uma área de descanso, com um banco almofadado, mas havia documentos cobrindo ela também. A sala, ao contrário daquela mantida limpa por seus assistentes, era inteiramente responsabilidade dele. Eu estava no estúdio particular e pessoal do Sumo Sacerdote. 

— Esta sala é construída de tal forma, que apenas aqueles com mana acima de uma certa quantidade podem entrar. Acredito que você é a única outra pessoa no templo que é capaz de entrar nela. Não há lugar melhor para uma conversa particular. 

— Este é um quarto escondido muito legal. É como, exatamente, o que eu esperaria da magia. 

O Sumo Sacerdote olhou para mim enquanto limpava os documentos do banco. 

— Seus aposentos têm um quarto como este. 

— Eles têm? Eu não sabia disso. 

Eu nunca tinha separado o dossel da minha cama, especialmente porque a cama era apenas uma moldura sem colchão. Considerando quantas vezes desmaiei, provavelmente seria inteligente conseguir um colchão em algum momento. 

— Embora, como requer um registro de mana para usar, você não será capaz de entrar no momento. 

— Registro de mana? 

— Podemos discutir o processo outro dia. Vamos direto ao ponto. Sente-se. 

O Sumo Sacerdote interrompeu a conversa sobre esse assunto e apontou para o banco que ele acabara de limpar. Ele mesmo trouxe a cadeira ao lado da mesa para se sentar. Quando olhou para cima, ele não estava usando uma expressão em branco como a que Fran usava com frequência. Suas sobrancelhas estavam franzidas e sua boca estava curvada em uma carranca afiada. 

Ele vai me dar um sermão? Após passar dias sendo criticada por Fran, eu podia imaginar o que o Sumo Sacerdote iria dizer. Ele provavelmente me levou a esta sala para que pudesse me dar um sermão onde nenhum assistente pudesse ver. E como estávamos sozinhos, não pude pedir a ajuda de Fran. Eu estava por minha conta. 

— Hum, Sumo Sacerdote. Por que estamos conversando aqui nesta sala? 

— Porque Fran me avisou que você não entendia como os nobres se comunicam. — Ele olhou para mim. 

Em geral, ele tinha o rosto de uma pessoa um tanto fria e sem expressão, então vê-lo franzir as sobrancelhas em claro desagrado, era realmente muito assustador. Ao contrário de Benno soltando trovões, a raiva do Sumo Sacerdote era gelada e me fazia sentir como se o frio estivesse me congelando de baixo para cima. 

— E com certeza, naquele dia você falou de coisas importantes e imprudentes sem pensar primeiro. Nesse dia, um dos assistentes do Arcebispo estava no meu quarto a negócios. Você notou? 

— Eu não notei nada. 

— Suponho, então, que você não entendeu estar criticando e insultando o Arcebispo na presença de seu assistente, enquanto eu praticamente morria por dentro, agonizando com cada palavra que saía de sua boca. 

— Eu sinto muito.— Pensei estar ajudando o Sumo Sacerdote a entender o horror da situação, mas, na realidade, eu estava apenas criticando o método do Arcebispo para o Sumo Sacerdote, enquanto seus assistentes e basicamente todos lá haviam começado a suar frio. 

— No mínimo, você deve aprender os nomes e rostos de cada veste azul, além dos rostos de seus assistentes. Como pretende sobreviver quando não sabe nada dos seus inimigos? Você é muito descuidada. — A expressão exasperada do Sumo Sacerdote, parecia muito com a que Benno fazia. Parecia que eu estava destinada a ser ensinada e repreendida, não importava onde eu fosse. 

— O Sr. Benno muitas vezes me chama de idiota imprudente. 

— Agora que você mencionou, me lembro dele dizendo que você confia nos outros com muita facilidade e que nunca aprende, apesar de ter sido enganada. Concordo plenamente com a avaliação de Benno. Se quiser ficar com os nobres como uma donzela azul do santuário, precisará aprender os caminhos da nobreza. 

As repreensões do Sumo Sacerdote vieram de uma preocupação por mim e minha posição precária. Foi exatamente como Fran havia dito. Ele havia escondido suas intenções e sentimentos verdadeiros tão profundamente, que eu não os havia notado. Mas, na verdade, o Sumo Sacerdote estava me protegendo do Arcebispo. 

— Você parece desinteressada em captar sinais ocultos e com a intenção de declarar abertamente seus sentimentos sobre tudo, mas isso a matará na sociedade nobre. Considere-me desinteressado em morrer por sua ignorância. Como é impossível para mim, dizer se você está entendendo meus sinais, decidi que é melhor conversar com você aqui, quando não desejo que nossa conversa seja ouvida pelos outros. 

— Eu sinto muito, muito mesmo. 

Eu só entenderia o Sumo Sacerdote se ele expressasse seus pensamentos diretamente, então ele me levou ao único lugar onde poderia fazer isso. Foi inconveniente, mas uma grande ajuda para mim. 

— De qualquer forma. De acordo com Fran, você decidiu se tornar a diretora do orfanato. Tem certeza de que é isso que quer? Você disse antes que não assumiria essa responsabilidade. — O Sumo Sacerdote me deu um olhar firme, seus olhos penetrantes não deixando espaço para sigilo. 

Endireitei as costas. Minha decisão de salvar o orfanato já havia sido reforçada há muito tempo. Devolvi seu olhar de frente, na esperança de, pelo menos, transmitir o quão determinada eu estava. 

— Para ser honesta, ainda tenho medo de ter tanta responsabilidade. Mas qualquer coisa é melhor que deixá-los assim. Eu quero ajudá-los, se puder. 

— Eu vejo. Se você tem a resolução necessária, eu não tenho nenhum problema com isso. 

Ele aprovou meu pedido tão casualmente, que não pude deixar de olhar para ele, com choque escrito no rosto. 

— Sério? Você está bem com isso? 

— Eu não respondi com minha aprovação através de Fran? 

— Você fez, mas você está sendo tão diferente da última vez que conversamos, que eu só não sei o que dizer. 

— O que você esperava? Você não me entenderia se eu falasse indiretamente. 

— Oh. Sinto muito. 

Enquanto me desculpava mais uma vez, o Sumo Sacerdote foi e pegou vários pedaços de pergaminho. Após passar os olhos sobre eles, ele os mostrou para mim. 

— Fran explicou seu plano para mim em termos gerais, mas eu não entendi completamente. Parece que Fran também não entendeu muito bem. Ele disse que a discussão havia prosseguido com entendimentos silenciosos e frases peculiares, exclusivas para os comerciantes. Por favor, explique o que exatamente você pretende fazer após se tornar diretora do orfanato? 

— Farei com que o orfanato faça parte do Ateliê da Myne. Primeiro, vou trabalhar para melhorar a dieta das crianças que serão meus trabalhadores, fazê-los limpar o orfanato, que será a oficina, e, em seguida, trazer as ferramentas necessárias para que eles possam fazer o seu trabalho. Depois disso, pretendo ensiná-los a cozinhar por conta própria. Se eles se tornarem capazes de cozinhar sopa, eles serão capazes de fazer os dons divinos durarem mais tempo, em uma mudança que melhorará drasticamente sua situação alimentar. 

— Eu vejo. Qual é o significado por trás de você querer fazer de todos aqueles no orfanato seus assistentes? — perguntou o Sumo Sacerdote, olhando para mim. 

— Quero enviá-los para fora do templo, o que significa que eles precisam ser assistentes. 

— Isso não é necessário. Se fizesse isso, não teríamos assistentes prontos quando futuros vestes azuis chegassem e haveria atrito desnecessário. Como diretora do orfanato, você terá autoridade para enviar aprendizes para fora do templo, à vontade. 

— Entendido. — Se as crianças pudessem sair, eu não tinha razão para torná-las todas minhas assistentes. Balancei a cabeça em compreensão. 

— O que você fará quando as crianças estiverem bem alimentadas? 

— Farei com que façam papel vegetal. No passado, Lutz e eu fizemos isso sozinhos, então qualquer criança deve ser capaz de fazer isso, com instruções adequadas. 

— Papel vegetal, hum. 

O Sumo Sacerdote olhou para as pilhas de pergaminho em sua mesa. Isso me lembrou que ele havia gostado mais do papel vegetal dentre os presentes de Benno. 

— O papel será vendido através de canais adequados. O ateliê já assinou um contrato mágico, afirmando que venderemos nossos produtos através da Companhia Gilberta, então você não poderá levar o papel embora, mesmo que quisesse. 

— Uma boa decisão, condizente com um comerciante. Se o Arcebispo também for incapaz de roubar a operação, não tenho nenhum problema com isso. O que você pretende realizar vendendo papel? 

O Sumo Sacerdote avançou a conversa, seus olhos se estreitaram ligeiramente de decepção. 

— Quero que eles sejam capazes de comprar comida para si mesmos quando não tiverem o suficiente. Dessa forma, eu não terei que comprar a comida deles, e eles não correrão o risco de morrer de fome quando os padres azuis saírem. 

— Que motivo você tem para fazer isso? Você não trabalharia tão duro sem nenhum ganho pessoal, não é? 

O olhar do Sumo Sacerdote endureceu, deixando claro que essa era sua pergunta mais importante até agora. Retornei seu olhar sem vacilar. 

— Obviamente, para que eu possa desfrutar da minha leitura sem me sentir culpada. 

— Como assim? — Seus olhos se arregalaram em completa descrença. 

— É impossível para mim não me preocupar e me sentir mal quando há crianças morrendo de fome tão perto de mim. Posso esquecer brevemente enquanto me concentro na leitura, mas as memórias ressurgem quando termino e a culpa é insuportável. Isso só me faz sentir horrível. 

— Então, em suma, você se tornará a diretora do orfanato e abrirá uma filial de seu Ateliê aqui, simplesmente para remover um obstáculo à sua leitura? 

— Isso mesmo.— Dei um grande aceno de cabeça e o Sumo Sacerdote esfregou suas têmporas. 

— Você é mais tola do que eu pensava. 

— Eu ouço muito isso. 

— Chega disso. Quanto tempo você precisa? Quanto tempo o orfanato levará para se estabilizar depois que você assumir sua posição? 

— A maior parte do trabalho de preparação está concluída, então, dada a estação, deve levar apenas um mês até que tenhamos feito e vendido papel suficiente para comprar uma quantidade decente de comida. 

— Oh? Vejo que você se preparou bem antes, desta vez — murmurou o Sumo Sacerdote. 

Mostrei meu plano para Benno e Fran várias vezes, para ter certeza de que ficaria bem tanto da perspectiva de um comerciante quanto da perspectiva da nobreza, então era difícil imaginar que tivesse buracos consideráveis. Eles disseram que a parte menos confiável do plano era eu, que apagava tudo que recebia em minha mente. 

— Muito bem. Você tem minha permissão. 

— Obrigada. Fran disse que você entenderia se eu me comunicasse melhor. Sr. Benno também disse que você tem bons olhos, e que eu deveria falar com você quando estivesse preocupada com alguma coisa. Sumo Sacerdote, por que você é diferente dos outros sacerdotes? 

Perguntei, sabendo que era uma pergunta que me faria gritar se estivéssemos lá fora. E, como esperado, o Sumo Sacerdote suspirou e me disse para não perguntar esse tipo de coisa fora desta sala. 

— Eu não pretendo contar minha história, mas eu não fui criado dentro deste templo, assim como você não foi. Fui criado na sociedade nobre e entrei no templo devido a circunstâncias pessoais. É exatamente por isso que, apesar do meu desgosto pelo Arcebispo e seus métodos, ainda não é sábio ficar contra ele. Você também faria bem em evitar irritá-lo mais do que já fez. 

— Eu comandar o orfanato não vai deixá-lo com raiva? — Os órfãos, ganhando dinheiro por si mesmos, correria exatamente em oposição a como o Arcebispo estava administrando as coisas. Eu timidamente pedi confirmação e ele deu uma risada zombeteira. 

— É um pouco tarde para se preocupar com isso. Pretendo alegar que forcei o papel em você, mas não exagere. Você está tão não familiarizada com os caminhos da nossa cultura, que eu não consigo nem imaginar o que você pode fazer sozinha. Relate tudo o que fizer a mim primeiro. E ouça bem os conselhos de Fran. Entendido? 

Após enfatizar firmemente a importância de uma comunicação clara, o Sumo Sacerdote me tirou da sala e voltei para meus aposentos com Fran. Gil e Lutz nos receberam com os olhos cheios de esperança. 

— Como foi, Myne? 

— Ele ficou muito bravo comigo. Me disse para estudar mais a cultura nobre. Ele disse que eu era desmiolada, imprudente e todo tipo de coisas. 

— Isso significa que ele não vai deixar você ser a diretora do orfanato? 

Os rostos de Lutz e Gil ficaram nublados de preocupação. Balancei a cabeça apressadamente. 

— Não, ele deu sua permissão. Sou a diretora do orfanato agora. O Ateliê da Myne ficará bem. É só que, eu sinto que estou destinada a deixar as pessoas com raiva onde quer que eu vá. 

— Isso é apenas quem você é, Myne.— Lutz colocou a mão na minha cabeça, com uma risada. 

Havia mais uma coisa que eu tinha que fazer antes que eu pudesse começar a organizar o orfanato de verdade. Tinha que conversar com a Delia. Seu trabalho era vazar informações sobre mim para o Arcebispo e eu precisava impedir que isso acontecesse. Seria impossível para Delia não notar tudo o que estava acontecendo no orfanato, com Lutz e Benno chegando com frequência, os criados correndo por aí e assim por diante. Mas não queria que o Arcebispo interferisse antes do Ateliê se estabilizar. 

Delia disse querer que eu ajudasse os órfãos se pudessem ser ajudados, então ela provavelmente estava de acordo com meu plano. Não havia chance dela dizer que eles estariam melhor mortos, agora que eu tinha todos os preparativos feitos. 

Então, decidi me abrir com Delia e perguntar a ela diretamente. Ela se aproximou de mim o suficiente para mencionar estar se encontrando com os assistentes do Arcebispo, então, provavelmente, seria melhor ser sincera, em vez de esconder meu pedido em sinais e eufemismos. 

— Hum, Delia. Estou tentando salvar as crianças do pré-batismo. Não quero que o Arcebispo me atrapalhe a ajudá-los. Ajudaria muito se não contasse o que estamos fazendo. Você quer salvar as crianças também, não é? Posso pedir que faça isso por mim? 

Delia ficou em silêncio por um tempo, depois fechou os olhos com força e balançou a cabeça como se lembrasse de algo. 

— Eu não quero ir para o orfanato. Não quero me lembrar e não quero me envolver. 

— Sim, eu sei. Tudo o que você precisa fazer é ficar na cozinha e ficar de olho nos chefs. Finja que não sabe o que está acontecendo. Posso te pedir para fazer isso? 

Era importante sempre ter alguém cuidando dos chefs e gerenciando a comida, então, pelo menos, um dos meus assistentes tinha que ficar em meus aposentos o tempo todo. Se eu escolhesse Delia para ser essa assistente, ela não teria que ir para o orfanato. 

— Certamente, vou ficar quieta. Mas isso não é para o seu bem, Irmã Myne, é para as crianças. Não pense que me conquistou. 

Delia, enquanto olhava para longe de mim com uma carranca para esconder seu alívio, prometeu ficar quieta sobre o que estávamos fazendo. 

Soltei um suspiro aliviada e dei a Delia uma promessa também. 

— Obrigada, Delia. Vou salvá-los, não importa o que aconteça. 

— Eu não pedi para você fazer isso ou algo assim. Mas se você vai tentar, bem, nem pense em falhar. 

A atitude dela é dura, mas acho que posso interpretar isso como se ela tivesse fé em mim? 

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