Os olhos frios que olhavam na minha direção foram gradualmente recuperando o calor, mudando para a expressão habitual. E seu rosto também se transformou naquele amigável, que nunca deixa de sorrir.
“Hmm? Não ia ter reunião hoje?”
Carol perguntou, inclinando a cabeça de forma adorável. Se eu considerasse apenas este momento isolado, ela não parecia em nada diferente do normal. Mas, depois de ver o estado em que ela estava um segundo atrás, meu coração doeu.
Esforcei-me para agir normalmente enquanto abria a boca.
“A reunião já acabou. Já passou do meio-dia.”
“Hã?! Já é essa hora?! O tempo voa nos dias de folga~”
“É verdade. Hoje é o seu dia de folga. Então, ―― você não precisa se forçar. Pode agir naturalmente.”
Quando eu disse isso, Carol prendeu a respiração.
Até agora, eu tinha fingido não ver quando Carol tentava disfarçar as coisas. Eu mesmo, desde a luta contra o Oliver há meio ano, tenho perdido aos poucos a margem mental para cuidar dos outros.
Mas isso é apenas uma desculpa. Eu não posso dizer com arrogância que sou capaz de salvar a Carol, mas devo, pelo menos, ser capaz de ajudá-la a se sentir um pouco melhor quando ela parece estar sofrendo.
“P-para com isso, Mestre~. Eu estou sempre agindo naturalmente, sabia?”
Apesar de mostrar uma leve hesitação, como Carol disse, sua expressão, tom de voz e aura não diferiam em nada do habitual. Pelo visto, palavras superficiais não causarão nenhuma mudança.
“Entendo. Então foi um mal-entendido meu.”
“Isso mesmo. Poxa, não diga coisas estranhas do nada, Mestre.”
“Desculpe, desculpe. De qualquer forma, este é um lugar muito bom. É silencioso, apesar de não ser longe da cidade; perfeito para quando se quer fugir da agitação.”
Sentei-me ao lado da Carol e formulei minhas palavras enquanto colocava a cabeça para pensar desesperadamente.
“…O Mestre também vem muito aqui?”
“Não, esta é a segunda vez que venho.”
“Heeh. Ah, a primeira vez você veio com a Sophie, não foi?! Eu também conheci este lugar porque a Sophie me contou! Ela disse que era um ótimo lugar!”
“Sinto muito decepcionar, mas eu encontrei este lugar por conta própria.”
“Ué, a Sophie não teve nada a ver com isso?”
“Hmm… Ela não teve nada a ver com eu *encontrar* este lugar, mas não posso dizer que as lembranças que tenho daqui não têm relação com ela. Na época, eu estava com a cabeça cheia, pensando em várias coisas sobre o futuro, e cheguei aqui procurando um lugar onde o vento batesse no rosto.”
“Até o Mestre tem preocupações, né? Eu achava que você decidia tudo rapidamente sem hesitar.”
“Eu também tenho várias preocupações. Todo mundo tem, em maior ou menor grau. A Carol também, não é?”
“Eu…”
Quando tentei dar um leve passo à frente em relação à Carol, seus olhos vacilaram um pouco.
“…Carol, pode ser um assunto que você não queira tocar muito, mas hoje vou intervir.”
Talvez tendo percebido algo pela minha expressão, tive a sensação de ver medo por trás do sorriso da Carol.
Mesmo assim, decidi que hoje a enfrentaria de frente. Se eu continuasse com rodeios, no caso dela, ela continuaria a dissimular. Pode ser que, ao intervir, eu acabe machucando-a ainda mais. No fim, pode ser que seja apenas para a minha própria satisfação pessoal. Mas ainda acredito que este seja o meu dever como seu mestre.
Reafirmei meu propósito dentro de mim mesmo antes de falar.
“…Acho que você já percebeu, Carol, mas eu já ouvi sobre as coisas que aconteceram antes de você entrar para o ‘Coelho Prateado do Céu Noturno’. E também sei o tipo de tratamento que você recebia da Seita Ciclame.”
“――Tsk!”
“Eu não posso dizer da boca pra fora que entendo o estado mental em que você está agora, Carol. Porque acho que não é algo que caiba dentro do alcance da minha imaginação. Por isso, quero que você me conte. Você está sofrendo agora, ou realmente não sente nada sobre isso?”
“M-mas…”
O coração da Carol parecia estar balançado pelas minhas palavras, como se ela estivesse hesitando. Hesitar significa que há algo que ela deseja expressar, pelo menos um pouco.
“Eu gosto da pessoa chamada Caroline Inglot.”
“…Eh?”
“Desde o momento em que te conheci, percebi que você carregava algo. E também entendi que não queria que os outros se metessem muito nisso. Mas, deixe-me dizer. Carol, você é minha preciosa discípula e companheira. Por isso, não precisa ter medo. Eu vou te aceitar, não importa como você seja. Não precisa pensar em coisas difíceis. De vez em quando, desabafar sobre o que você quer fazer e o que está pensando vai te fazer sentir muito melhor, sabia?”
Peguei emprestadas as palavras dos membros da Primeira Unidade, aquelas que mais me alegraram quando entrei para o “Coelho Prateado do Céu Noturno”. Não são minhas palavras originais, mas como ressoaram profundamente no meu coração — eu que tinha medo de me envolver desnecessariamente com os outros —, acredito que alcançarão a Carol também.
“…É sério? Não importa o que eu pense, você vai continuar sendo o meu *Mestre*?”
Carol perguntou, direcionando-me um olhar hesitante. Senti que havia expectativa dentro de seus olhos.
“Claro. Eu te disse no dia em que me tornei o mestre de vocês, não disse? Aconteça o que acontecer, eu continuarei do lado da Carol. Isso é a única coisa que não vai mudar.”
Ao ouvir minha resposta, Carol baixou o rosto e murmurou baixinho um “…Sim”.
Após um silêncio que não foi curto,
“…………Minha mãe me disse quando ainda estava viva. ‘Sorria especialmente quando for difícil’. Ela disse: ‘Se você sorrir, chegará o dia em que se sentirá feliz’.”
Carol começou a falar sobre si mesma, como se estivesse sussurrando.
“…………Eu… tenho medo das pessoas.”
“Eu amo o Log, a Sophie, o Mestre, a Irmãzona Luu e todos do ‘Coelho Prateado do Céu Noturno’. Isso é verdade. Mas eu sei que, entre as pessoas, existem aquelas que não mudam a expressão por mais que a outra pessoa esteja sofrendo, ou que te batem só porque estão de mau humor.”
A Seita Ciclame, onde a Carol estava antigamente, é uma das maiores organizações criminosas do mundo. Os incidentes que eles causaram são incontáveis.
Para mim, esses incidentes não passavam de problemas alheios. Mas, há seis meses, e novamente há dois meses, acabei me tornando parte envolvida em incidentes causados pela Seita Ciclame num curto período de tempo.
A mandante de seis meses atrás, Philly Carpenter, era o tipo de pessoa que manipulava as memórias e percepções das pessoas para usá-las a seu favor. O indivíduo envolvido no incidente de dois meses atrás, Ozwell MacLeod, tentou matar facilmente um membro da família imperial, sem sequer pensar no caos global que se seguiria. E ele parece ter sido a pessoa que mais machucou a Carol entre eles.
Os únicos membros da Seita Ciclame que conheço são esses dois, mas só pelo fato de esses dois fazerem o que bem entendem, já dá para ver que a organização não é um agrupamento de pessoas decentes. Carol vivia em uma organização de escória assim. Eu não posso dizer isso em voz alta, mas acho que foi muita sorte ela ter uma personalidade perfeita para ser chamada de “uma boa menina”. Acredito que o fato de ela ter conseguido manter os valores do senso comum enquanto estava dentro da Seita Ciclame é uma prova de que sua força mental é consideravelmente alta.
“Quando eu estava *lá*… era difícil. Todos os dias eu pensava em morrer, e finalmente decidi me matar, e executei. Mas eu não consegui morrer. Porque foi nesse momento que a *maldição* da [Autocura] despertou.”
Maldição, hein. Para mim, as Habilidades Inatas são armas que me ajudam. Provavelmente a maioria dos portadores de habilidades pensa assim. Mas, para a Carol, sua habilidade era algo abominável.
“Como eu não podia mais morrer, a única coisa que me restava era *sorrir*… A única coisa que eu podia fazer era me agarrar às palavras da minha mãe. Então, quando eu sorria conscientemente, as coisas difíceis e a dor doíam menos do que antes. Além disso, quando eu produzia bons resultados de acordo com o que eles queriam, eles sorriam, e naqueles momentos, não havia coisas difíceis nem pessoas me batendo. Então, eu achei que as palavras da minha mãe fossem verdadeiras. Se eu sorrir, não vou sofrer, e se a outra pessoa sorrir, não haverá ninguém para fazer coisas horríveis comigo. Todo mundo fica feliz. ――Por isso eu sorrio. Para que todos possam continuar sorrindo.”
Meu coração dói.
Eu imaginava. Sabia que o passado da Carol não era fácil. Mas ouvir isso…
Na minha infância, tive meus pais e todos os companheiros da minha vila assassinados por bandidos. Mas eu tinha o Oliver, que estava na mesma situação que eu, então eu não estava sozinho. E depois que vim para Tutrail, o número de companheiros e aliados que nos apoiavam aumentou, o que em parte nos ajudou a seguir em frente.
Mas a Carol não tinha nenhum companheiro ou aliado nesse ambiente, sofrendo tratamentos desumanos por anos.
Como eu pensava, se não mandar *aqueles caras* pro inferno, minha raiva não vai passar. Não me importo se são eventos do passado ou se é minha raiva pessoal. Fizeram coisas absurdas e injustas com algo que é importante para mim. Eu jamais engolirei isso calado.
Renovei minha determinação de esmagar a Seita Ciclame, mas, agora, a prioridade é a Carol.
“…Obrigado por me contar, Carol. Sinto muito por te fazer lembrar de coisas difíceis.”
Eu disse isso enquanto afagava a cabeça da Carol.
“…Não está com nojo de mim?”
Parecendo confusa com a minha ação, Carol deixou a pergunta escapar.
“Nojo? Por quê?”
“O Mestre me disse uma vez, não disse? Que conseguir agir pensando nos outros era a minha virtude. Mas, na verdade, eu só estava agindo por mim mesma, sabe?”
“Ah, entendi o que quer dizer. Eu não acho isso nojento de forma alguma….Isto é apenas uma teoria minha, mas acredito que, em última análise, os humanos são criaturas que agem por si mesmos. Mesmo quando agem em benefício dos outros, acho que no fim estão esperando alguma recompensa. A pessoa que eu respeito dizia que a nossa sociedade é construída sobre relações recíprocas de benefícios. Eu concordo com essa opinião. Por isso, no final das contas, eu acredito que as pessoas que conseguem agir pelos outros são aquelas que, no fim, acabam ganhando mais.”
Explanei minha teoria em resposta à pergunta de Carol. Sei que é um argumento extremo e não acho que seja uma verdade absoluta. É apenas uma das minhas formas de pensar.
“…O Mestre também é assim?”
“Sim. Por exemplo, tornei-me o mestre de vocês e estou lhes ensinando o básico de ser explorador, mas isso não é totalmente e apenas por vocês. Se vocês crescerem e trouxerem bons resultados, a minha avaliação como quem os treinou também aumentará por arrasto. Quero deixar claro para que não haja mal-entendidos: eu realmente quero que vocês se tornem exploradores esplêndidos.”
“…Entendi. Então eu não sou a única.”
“Exato. A Carol não é estranha. É uma garota normal. Reencontrar seus irmãos fez com que você se lembrasse do passado e pensasse em várias coisas, mas, não importa o que digam, você hoje é Caroline Inglot do ‘Coelho Prateado do Céu Noturno’. Não há ninguém aqui que vá te machucar. Portanto, não há necessidade de se forçar a sorrir. Quando for difícil, você pode dizer que é difícil e pode depender dos seus companheiros. Log, Sophie e Luna não passarão a odiar você por causa disso. ――Não é verdade, vocês dois?”
Depois de transmitir o que queria à Carol, falei com o Log e a Sophie, que haviam me seguido e estavam escondidos atrás das árvores. Os dois saíram do esconderijo com expressões envergonhadas.
“Vocês dois…”
Quando Carol os viu, sua expressão mudou para uma de desconforto.
“A-ahaha… Como esperado, tentar enganar o Mestre foi uma ideia imprudente…”
“Carol, desculpe, por fazer algo como escutar a conversa às escondidas.”
“A-ah, bem, hum…”
Carol gaguejou, parecendo não saber o que dizer.
“Vocês também ouviram o que a Carol estava pensando, não é? Estão decepcionados com ela?”
“De jeito nenhum!!” “Claro que não!!”
Quando perguntei, os dois negaram com veemência. Em seguida, aproximaram-se de Carol e expressaram seus verdadeiros sentimentos.
“Carol, deve ter sido tão difícil para você. Sinto muito por termos feito você se preocupar o tempo todo. Posso não parecer tão confiável, mas eu quero continuar com a Carol a partir de agora! Esse sentimento nunca vai mudar!”
“Um dia eu… nós faremos a Carol sorrir do fundo do coração. Eu prometo que faremos os seus dias tão cheios de felicidade que você não terá nem tempo de lembrar do seu passado ruim!”
“Sim, sim… obrigada…”
Ouvindo as palavras da Sophie e do Log, Carol encheu os olhos de lágrimas. Percebi mais uma vez que o poder dos companheiros é realmente grandioso.
Vendo a expressão da Carol, julguei que, por enquanto, ela ficaria bem. Dei as costas para os três para voltar à sede do clã. A partir daqui, é o tempo deles. Seria rude da minha parte ficar por perto.
“Mestre, obrigada. Graças a você, falar sobre tantas coisas me fez sentir mais aliviada!”
Quando Carol me chamou de trás, me virei e vi a melhor expressão que ela teve nos últimos tempos. Sim, o sorriso realmente combina com a Carol.
◇
Ao descer a colina, Luna estava em pé em um local discreto.
“Você não vai se juntar a eles, Luna?”
“…Sim. Por hoje, vou me abster.”
Luna respondeu com um sorriso. Não parecia estar se forçando.
“Orun-san, obrigada por extrair os verdadeiros sentimentos da Carol. Você realmente é um mestre maravilhoso.”
“Não exagera. Não sou nada disso. No final das contas, estou agindo apenas pela minha satisfação pessoal.”
“A parte do ‘as pessoas, em última análise, agem por si mesmas’?”
“Sim. E, sendo só nós dois aqui, eu posso dizer: queria aliviar aquele aperto no coração dela, mesmo que só um pouco.”
“Com foco na conquista do 93o andar?”
“Isso também. Mas eu tive um pressentimento muito ruim. Senti que, se não a enfrentasse aqui e agora, *nunca mais*… haveria essa oportunidade. Bom, acho que isso não aconteceria de verdade.”
“…Independentemente do que o Orun-san estava pensando, o fato é que isso deu à Carol a chance de olhar para frente.”
“…Espero que sim. A Carol deve decidir por si mesma como vai lidar com o seu passado. Nosso papel agora é criar um ambiente onde ela possa pensar com calma e observá-la. Tenho que me esforçar para isso.”
“Sim, de fato. Eu também sou uma das pessoas que foram salvas pelo sorriso da Carol. Farei o meu melhor, por menor que seja o meu poder, para que ela possa viver com sorrisos verdadeiros.”
“Isso é muito reconfortante. Quero focar na conquista do 93o andar até o final deste ano. Posso deixar os discípulos nas suas mãos por um tempo?”
“Fufufu, não é preciso nem pedir, Orun-san. Aquelas crianças são meus companheiros preciosos. Por favor, concentre-se nas suas próprias obrigações.”
“…Obrigado, Luna.”
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