Re:Zero – Começando a Vida em Ou... Cap. 26 — Eu Não Posso Ser uma Noiva

Subaru sentiu seu coração palpitar involuntariamente com a visita repentina de Emilia. A roupa inesperadamente perfeita era uma surpresa agradável e refrescante, mas ainda mais agradável era a presença dela ali.

Simplesmente por ter sido tratado com tanta hostilidade após ser invocado em outro mundo, especialmente por aqueles que o fizeram passar pelo inferno no início, Subaru nutria sentimentos especiais por ela, a primeira a tratar ele com bondade incondicional.

“Parece que eu imprimi você em mim! Não quero me separar de você nem por um segundo, mamãe!”

“Uhh… Eu estava um pouquinho preocupada porque ouvi que a Beatrice aprontou com você enquanto você estava com pouco sangue… mas acho que foi em vão.”

“Ei, eu nunca tive problema pra acordar! E tô meio com medo de perguntar isso, mas…”

Diante do olhar confuso de Emilia, Subaru juntou os dedos indicadores e a encarou, nervoso. “Então, ééé… você se lembra de mim?”

“Seus trejeitos são tão esquisitos, essa é uma pergunta bem estranha. Acho difícil alguém esquecer uma pessoa que causa tanta impressão quanto você, Subaru.”

Os ombros de Subaru relaxaram aliviados ao ouvir Emilia sussurrar suavemente seu nome. O fato de ela chamá-lo pelo primeiro nome, sem honoríficos, o deixou completamente desprevenido e envergonhado, já que, em seu mundo original, ele quase nunca interagia com garotas. Suas orelhas ficaram completamente vermelhas de vergonha.

Deixando de lado esse comportamento um tanto infantil de Subaru, as gêmeas, ao perceberem a presença de Emilia, correram para perto dela. Posicionaram-se atrás dela e com apenas os rostos aparecendo de cada lado, encararam Subaru.

“Por favor, ouça, Lady Emilia. O hóspede humilhou minha irmã.”

“Por favor, ouça, Lady Emilia. O hóspede me manteve em cativeiro e violou a Rem.”

“Não é nada legal provocar ele demais… Não parece algo que o Subaru faria, mas não que ele sairia impune. Ram e Rem, vocês não acham que estão exagerando um pouco com um paciente doente?”

“Sim, Lady Emilia. Minha irmã está arrependida pelo que fez.”

“Sim, Lady Emilia. Tenho certeza de que a Rem vai refletir sobre isso.”

Ram e Rem, chamadas nominalmente, declararam seu arrependimento… sem a menor expressão de arrependimento. Talvez já acostumada com a atitude delas, Emilia olhou para Subaru sem parecer incomodada. “Então, como está se sentindo, Subaru? Sente algo estranho?”

“Eu achei que ia morrer, porque parecia que meu corpo inteiro estava pegando fogo antes de desmaiar,” ele respondeu “mas agora não sinto nada disso. Na verdade, sinto que dormi demais.”

“É. Já faz quase um dia desde que nos conhecemos, e você passou metade dele dormindo.”

“Isso não é verdade…” Relembrando os acontecimentos até aquele momento, Subaru ficou sem palavras ao tentar refutar.

O tempo que levou para passar por tudo o que viveu ontem parecia ter durado mais de 24 horas para ele, mas esse não era o caso para Emilia.

Do ponto de vista de Emilia, o encontro deles mal durou uma hora. E a quantidade de palavras trocadas entre os dois não era lá muita coisa também.

Para Subaru, ter essa conversa com ela era prioridade máxima, especialmente porque, dessa vez, não tinha tido a oportunidade de fazer isso antes.

“Dormir demais e ser preguiçoso são hábitos meus… e é super raro eu estar acordado de manhã.”

“Que tipo de vida você vivia…?”

“Então, é mais fácil jogar de noite porque não tem barulho nem distração. Pra ser sincero, pra um recluso, o melhor horário pra dormir é durante o dia.”

“Sabe… estou ficando cada vez mais decepcionada com você, Subaru.” Emilia expressou sua decepção com um suspiro fácil de entender,  mesmo que não compreendesse totalmente o que ele dizia, ela captava bem a essência.

Percebendo que o clima estava ficando estranho, Subaru rapidamente tentou mudar de assunto, falando sobre as roupas dela. “Aliás, você tá tão diferente hoje. O que tava fazendo?”

“Ah, não fala das roupas, por favor. Eu também não gosto delas. Se quer saber o que eu tava fazendo, estava indo fazer minha rotina matinal.” Emilia levou a mão à testa e falou com dificuldade, como se fosse embaraçoso explicar. Sua hesitação incomodou Subaru, mas ele não insistiu no assunto.

“Qual é sua rotina matinal?”

“Vou até o jardim da mansão e converso um pouco com os espíritos pela manhã. Isso faz parte do contrato que fiz com vários deles.”

“Uau, conversar com espíritos é muito legal! Eu não sei o que é um contrato, mas…”

A primeira coisa que veio à mente ao ouvir a palavra ‘espírito’ foi um certo gato cinzento de pelos curtos.

Nesta versão do mundo, ele ainda não tinha tido muito contato com o bichano, mas Subaru ainda se pegava ansioso pra vê-lo de novo. Principalmente pra ter sua dose diária de fofura e pelúcia.

Quase por reflexo, Subaru mexeu as mãos de um jeito estranho. Emilia, no entanto, já estava começando a aprender a ignorar as esquisitices dos gestos de Subaru.

“Bom, é ótimo que você esteja bem, mas tenta não fazer tanto barulho, tá? A maioria das pessoas ainda estão dormindo nessa hora. Embora… é meio cruel da minha parte pedir silêncio pra alguém que passou tanto tempo dormindo.”“Você tem razão. Ah, quando você fala ‘jardim’, quer dizer que é meio grande?”

“É mais um parque do que um jardim. Por quê?”

“Nada, só pensei… se não se importar, eu queria fazer uma coisinha num canto do jardim enquanto você conversa com os espíritos, Emilia-tan…”

“Contanto que você não faça muito barulho ou algo assim… Espera, o quê? O que você acabou de dizer?”

“Beleza, tô dentro. Vou com você.”

“Ei, o que você disse? Que tan é esse? De onde você tirou isso?”

Mesmo com Emilia perguntando freneticamente, Subaru desviou das perguntas. Com uma atitude azeda como resposta pelas provocações de antes, ele se virou para Ram e Rem. “Ei, irmãs empregadas. Vocês sabem onde estão minhas roupas? Não sei onde foram parar, mas essas aqui parecem roupas de hospital, acho que devem estar guardando as minhas por aqui.”

Não tinham comentado até então, mas a roupa atual de Subaru era semelhante a um samue fino, feito de um tecido marrom-avermelhado. O material era rígido demais para ser chamado de roupa hospitalar, mas era bem mais fresco do que parecia e permitia se movimentar com facilidade.

“Mas pra me mexer mesmo, não é tão confortável quanto meu agasalho. Então queria saber se dá pra achar ele por aí. Não sei se o sangue arruinou ou não…”

“Você sabe, irmã? É aquele trapo cinza sujo, por acaso?”

“Acho que sim, Rem. Talvez seja aquele pedaço de imundície cor de rato manchado de sangue.”

“Bastante ousadas, vocês duas… Sim, é esse trapo sujo mesmo. Se ainda der pra usar, podem trazer aqui?” pediu Subaru.

As gêmeas olharam para Emilia, como se buscassem aprovação. Quando ela respondeu com os olhos, indicando que não tinha escolha, elas assentiram e saíram do quarto tropeçando levemente.

“Você tem certeza de que está bem? Pelo que parece, o ferimento não foi superficial.”

“Tenho certeza, me sinto perfeitamente bem. E também não quero ficar parado, sabe? Dizem que, se você faltar um dia de treino, vai ter que treinar três dias seguidos pra compensar.”

Subaru endireitou a postura ao se lembrar de algo, arrumou o visual e então se virou para Emilia. Ela pareceu confusa com suas ações, mas ele fez uma reverência e disse: “Foi você quem curou meus ferimentos, certo? Obrigado pela ajuda. Pra ser sincero, ainda tenho medo de morrer. Eu só quero morrer uma vez.”

“Normalmente, as pessoas só morrem uma vez mesmo… Mas não, não fui eu.” Depois de dizer isso, Emilia balançou levemente a cabeça.

Então, olhou diretamente para Subaru com seriedade em seus olhos ametistas. Diante do brilho daquele olhar, Subaru ficou fascinado e paralisado, preso como se estivesse em transe.

“Quem devia agradecer sou eu, Subaru. Naquele momento, você arriscou a vida pra salvar uma pessoa que mal conhecia, certo? Tratar dos seus ferimentos foi apenas o mínimo que eu podia fazer.”

Com aquela expressão tão sincera no rosto ao agradecer por ter salvado sua vida, Subaru só conseguiu soltar um “Aah” involuntário.

Ele se odiava por não conseguir dar uma única resposta sincera. Parecia impossível encará-la de verdade sem estar brincando ou tentando enganar.

Pensou em como seria mais fácil se pudesse dizer que ela o salvou primeiro, com um simples: Não é verdade. Você que me salvou primeiro, Emilia-tan. Mesmo que apenas Subaru se lembrasse do que aconteceu naquele mundo.

“…Bom, já que nos ajudamos, que tal dizer que estamos quites?”

“Quites…?”

“Quer dizer que ninguém deve nada a ninguém! Então vamos ser amigos, maninha!”

Se ainda estivessem nos becos, poderiam ter feito uma bela dupla, lado a lado. Mas tudo que Subaru podia fazer agora era esconder a vergonha por trás de seu entusiasmo.

Emilia sorriu levemente diante do jeito fanfarrão de Subaru. “Não acho que preciso de um irmãozinho esquisito assim.”

“Esse comentário foi meio cruel, né?!”

Subaru ficou um pouco deprimido com a avaliação negativa de Emilia, mas sabia que ainda não tinha mostrado nenhuma confiabilidade, então teve que aceitar a crítica sem responder.

“Encontramos o que você pediu, senhor.”

“Aqui está, senhor.”

Enquanto Subaru ainda digeria a decepção do momento anterior, as gêmeas retornaram com seu agasalho recém-lavado. A de cabelos cor-de-rosa trazia a jaqueta, e a de cabelos azul-claros, a calça. Felizmente, tinham conseguido lavá-lo sem deixar vestígios de sangue.

Subaru ficou aliviado ao ver seu agasalho restaurado como novo. No entanto, as duas correram até ele e tentaram arrancar suas roupas o mais rápido possível.

“Ei, ei! Não, eu consigo me trocar sozinho! Mas… até que estou meio lisonjeado.”

“Ai, ai… ele sente mais prazer do que vergonha, irmã.”

“Ah, nossa… ele tá mais feliz do que humilhado. No fundo, ele deve ser um pervertido, Rem.”

“Caramba, a de cabelo rosa é a que tem a boca mais suja! Eu vou me vestir, é só me entregar isso!” Subaru rapidamente afastou as mãos agitadas das gêmeas e recuperou seu agasalho.

Ele já estava prestes a se trocar, quando de repente se deu conta de algo. “Falando nisso… foi você quem me trocou de roupa?”

“Fui eu. A Ram e a Rem estavam fora, e como eu já estava cuidando dos seus ferimentos, achei natural fazer isso também. Ah, e te limpei direitinho, viu?” disse Emilia, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Subaru deu uma espiadinha discreta por dentro da cueca e confirmou que até a roupa de baixo tinha sido trocada. Caiu de joelhos no chão e cobriu o rosto com as mãos. “Eu nunca mais vou poder me casar…”

“Se os gêneros estivessem invertidos, até faria sentido… Enfim, não temos muito tempo, então se for mesmo sair, vamos logo.” Como se fosse o homem da relação, Emilia deu um tapinha no ombro de Subaru, num gesto reconfortante. Como provavelmente não entendia o que ele queria dizer, Subaru decidiu enterrar aquelas palavras e levá-las com ele para o túmulo.

Subaru tinha sido despido, limpo e vestido novamente por uma bela garota que, certamente, viu seu corpo nu. Ele pensou que, de certo modo, isso era até bom. Podia até ser considerado uma espécie de recompensa. Decidiu pensar positivo. Pensamento positivo.

Enxugando gentilmente as lágrimas da própria alma com esses pensamentos otimistas, Subaru se levantou.

Ao pegar suas roupas e olhar ao redor, as mulheres no quarto, percebendo que ele queria se trocar, saíram rapidamente.

As gêmeas foram as primeiras a sair, e a última coisa que Subaru viu desaparecer pela porta foi o belo cabelo prateado de Emilia. Mas, antes de ela sumir de vista, seu perfil branco como a neve se virou de repente. “Não se preocupe. Vai ficar tudo bem.”

E então a porta se fechou com um “clack”.

Por ora, Subaru precisava trocar de roupa. Não sabia muito bem como funcionavam aquelas roupas no estilo samue, mas acabou descobrindo.

Depois, dobrou cuidadosamente o samue e o colocou sobre a cama. Em seguida, vestiu o agasalho que não usava havia algumas horas, se alongou com um “mmmmm”, e ficou pronto para partir.

“Certo…”

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