A academia era tão tranquila nos fins de semana e feriados que se tornava o lugar perfeito para relaxar. Como a maioria dos alunos ainda era jovem, eles aproveitavam esse tempo livre para passear pela capital com os amigos, e alguns até marcavam encontros. Tendo conhecido a vida escolar apenas em sua versão mais caótica — praticamente um inferno na terra —, eu não podia deixar de invejar os veteranos. Claro, sempre havia alguns casos problemáticos, mas, no geral, todos pareciam levar uma vida amorosa bem saudável.
Bocejei e me espreguicei enquanto caminhava por um dos corredores silenciosos, com Marie andando ao meu lado. Embora tivesse sido minha irmã na vida anterior, neste mundo ela começou como um verdadeiro agente do caos, chegando a levar Holfort à beira da destruição. Hoje, seu nome era Marie Fou Lafan, embora muitos a conhecessem como “a falsa Santa”.
Marie caminhava ao meu lado com seus passos curtos, quase deslizando para acompanhar meu ritmo. Desta vez, carregava várias sacolas cheias de presentes que havia comprado na capital, e o sorriso nos lábios deixava claro o quanto estava animada.
“Mal posso esperar pelo próximo chá com a Erica. Sério, queria fazer isso todos os dias, mas daria muita confusão… então só nos encontramos nos fins de semana.”
Uma “falsa Santa” passando tempo com a primeira princesa do reino era, por si só, uma receita para problemas. Além disso, havia um detalhe ainda mais complicado: Erica era filha de Marie em sua vida anterior — ou seja, minha sobrinha. Para Marie, reencontrar a própria filha depois da reencarnação era algo profundamente emocionante, o que explicava sua ansiedade pelos fins de semana. Não era à toa que ela vinha me acordar no quarto e me arrastava até a capital para comprar doces para a ocasião.
“Você sabe que o pessoal anda espalhando todo tipo de boato porque você aparece no meu quarto todo fim de semana de manhã, né? Já pensou em ter um pouco de consideração pelos problemas que isso me causa?”
“Não tenho escolha!” Marie rebateu, gesticulando. “Não posso me encontrar com a Erica sem você. Você é o duque aqui. E, além disso, só faço você ir comigo comprar as coisas porque você insiste em ser o anfitrião.”
Para ser sincero, organizar esses chás de fim de semana não me incomodava nem um pouco. Eu queria conversar com minha sobrinha, claro, mas havia outro motivo: eu adorava preparar chás. Não — era mais do que isso. Era praticamente minha razão de viver. Se eu já ia participar de qualquer forma, então fazia questão de ser o anfitrião.
“Isso é óbvio. Não dá para pedir que a Erica cuide disso. Ela pode ter sido minha sobrinha na vida passada, mas agora é uma princesa.”
Como integrante da família real de um dos países mais influentes do mundo, Erica estava presa a inúmeras expectativas.
“Aham…” Marie respondeu, com um olhar suspeito. “Vamos ser sinceros: você só quer brincar com o seu hobby.”
“Claro que isso faz parte. Não vou negar. Mas também me sentiria mal se a Erica tivesse que se dar ao trabalho. Ela é minha sobrinha.”
“E eu sou sua irmã, esqueceu?”
“Desculpa, mas, na minha lista de prioridades, ela está bem acima de você.”
“Qual é o problema dessa discriminação?!”
Dei de ombros.
“Considerando o seu comportamento, isso é bem justo. Aliás, eu poderia dizer o mesmo de você. Por que me arrastar para fora da cama nos fins de semana para fazer compras? Eu não sou seu irmão mais velho? Você não mudou nada.”
E isso não era exagero. Na nossa vida anterior, Marie fazia exatamente a mesma coisa: me tratava como um criado nos fins de semana e ainda vinha pedir dinheiro depois.
Enquanto Luxion flutuava sobre meu ombro direito, ouvindo a conversa, ele virou sua lente na direção de Marie.
“Se as palavras do meu mestre estiverem corretas, Marie, então parece que você não amadureceu em nada desde a reencarnação. Embora o crescimento físico pareça limitado no seu caso, acredito que seu desenvolvimento mental ainda seja possível. Já considerou adotar um comportamento mais adulto?”
A crítica direta deixou Marie completamente atônita — por alguns segundos, pelo menos. Logo depois, seu rosto ficou vermelho de raiva.
“O que você quer dizer com isso?! Quem disse que meu corpo não vai crescer mais?! Só espera e vê — eu vou florescer e virar uma mulher adulta perfeitamente sensual!”
“Não se trata de opinião. Minha avaliação é baseada em dados objetivos.”
“Que dados?! E quem você pensa que é pra dizer que eu não ajo como adulta? Pra sua informação, vivi muito mais do que meu irmão. Lá no fundo, ainda sou uma mulher adulta experiente e madura!”
Marie estufou o peito — completamente plano — como se aquilo fosse prova de sua maturidade.
“Engraçado…”, comentei. “A mesma pessoa que diz ser uma adulta madura é a mesma que enganou cinco caras e acabou se metendo em um desastre.”
“Isso é culpa sua, e você sabe!” ela gritou, sua voz ecoando pelo corredor vazio.
“Só porque você se adiantou.”
“Tá bom, eu fiz isso! Admito! Mas como isso justifica você derrotar cinco caras num duelo? Vamos falar a verdade: você só estava com inveja do Julius e dos outros por serem bonitos e quis descontar neles!”
Marie realmente me conhecia bem demais.
“Acertou. E daí?”, respondi.
Ela cerrou os punhos, rangendo os dentes.
Sim… definitivamente não havia amadurecido nada. Se alguma coisa, parecia até mais infantil do que antes. Não havia qualquer sinal da maturidade que ela dizia ter.
Luxion moveu sua lente de um lado para o outro.
“Mestre, devo lembrá-lo de que o senhor também carece de amadurecimento?”
Já tínhamos tido essa discussão antes. Diferente de Marie, eu não fazia questão de parecer adulto.
“No fundo, sou só um garoto puro. Nunca faria algo assim.”
“Pelo menos sua habilidade de inventar desculpas parece ter evoluído.”
“Prova disso é simples: adultos são ótimos em justificar as próprias ações.”
“Vejo que sua definição de maturidade é bastante conveniente.”
Sorri.
“Saber se adaptar é uma habilidade importante.”
Marie observava nossa troca, segurando suas sacolas e fazendo um leve beicinho.
“Vocês dois são iguais. Especialmente nesse jeito irritante de falar, cheio de sarcasmo.”
Nenhum de nós gostou dessa comparação.
“Eu e ele?” zombei. “Nem pensar. Sou muito mais gentil do que esse idiota.”
“Você realmente acredita que meu mestre se assemelha a mim? Talvez precise de um exame oftalmológico… ou de uma tomografia cerebral. Deseja que eu providencie?”
Marie soltou um longo suspiro.
“Tanto faz… esquece.”
Alguns anos atrás, os salões de chá da academia eram usados diariamente, já que os alunos convidavam as alunas para festas. No entanto, essa prática praticamente desapareceu, e o uso caiu drasticamente. Como consequência, a escola decidiu reduzir o número de salas disponíveis para esse fim.
Como apreciador de chá, achei isso uma pena — mas, ao mesmo tempo, passei a gostar do novo silêncio. No meu primeiro ano, tudo era muito mais barulhento.
Enquanto escolhia cuidadosamente as cadeiras que combinariam com o chá que eu prepararia, Marie e Erica já estavam sentadas, conversando animadamente. Marie falava sem parar, como uma criança empolgada, enquanto Erica ouvia com um sorriso calmo, reagindo com pequenos acenos — quase como uma mãe paciente.
“Sério? Aquela loja faliu?!”
“Sim. O dono disse que ia se aposentar.”
O assunto era a nossa vida anterior — o único ponto em comum entre elas. Eu não tinha como participar da conversa, mas não me importava. Só de ouvir já era agradável.
Talvez eu estivesse sorrindo sem perceber, porque Luxion comentou: “Seu estado mental parece mais estável. Acredito que esses chás de fim de semana se tornaram essenciais para o seu bem-estar.”
“Mesmo com todos esses boatos? Estão dizendo que eu fico correndo atrás da Erica e da Marie.”
A frequência das nossas reuniões só alimentava ainda mais os rumores.
Luxion, no entanto, parecia completamente indiferente.
“A opinião dos estudantes não me interessa.”
“Mas me interessa, sabia?”
“É uma questão de prioridades. Em vez de desperdiçar energia com a opinião da massa, deveria focar em si mesmo.”
“Você acabou de chamar todo mundo de ‘massa’?”
Ainda que sua forma de se referir aos outros fosse rude, era uma melhoria em relação ao passado. Antes, ele diria algo como: “Esses novos humanos deveriam simplesmente morrer.” Bons tempos… ou algo assim.
“De qualquer forma, você tem preocupações mais importantes. Não pode perder tempo com isso.”
“Tá, tá… já entendi.”
Quando terminei de preparar o chá e levei tudo até a mesa, me deparei com Marie gesticulando de forma exagerada enquanto falava, enquanto Erica apenas sorria e escutava com paciência. Sabendo que, em sua vida anterior, ela havia vivido mais de sessenta anos, fazia sentido que demonstrasse tanta maturidade. Comparada a ela, Marie parecia claramente a criança.
“Preparei um chá que combina perfeitamente com os doces que escolhemos — espera… quantos vocês já comeram?!”
Mais da metade dos doces havia desaparecido.
Marie desviou o olhar imediatamente, o que já era resposta suficiente.
“Você é uma verdadeira comilona, sabia?”
“Ah, não consigo evitar…”, respondeu ela, com um tom exageradamente doce.
Suspirei.
“Já pensou em agir de acordo com a sua idade? Pelo menos um pouco mais velha? Você é velha demais pra ficar sendo mimada assim.”
“A maioria dos homens adora mimar uma mulher, sabia?”
“Você virou uma desculpa bem distorcida de adulto. Que tal aprender com a Erica?”
Marie fez uma careta.
“Com licença?! Eu que criei ela, lembra?!”
“Se criou, foi um ótimo exemplo do que não fazer. Ainda bem que ela não puxou você.”
“Agora você me irritou de verdade, seu idiota!”
Enquanto trocávamos provocações, Erica, sentada entre nós, franziu a testa. Não demorou para que interviesse.
“Vamos nos acalmar… seria uma pena deixar o chá esfriar.”
Marie e eu bufamos ao mesmo tempo, desviando o olhar um do outro enquanto bebíamos em silêncio. Erica observou a cena, claramente preocupada — mas, em vez de suspirar, acabou soltando uma risada leve.

O que havia de tão engraçado naquilo? Eu simplesmente não entendi.
“Por que você está rindo?”
Erica imediatamente se endireitou e me encarou. Seu sorriso era tão radiante que quase ofuscava.
“É que acho divertido ver o quanto vocês se divertem brigando. A forma como vocês se tratam é exatamente como meus avós diziam que era.”
“Avós?” perguntei, até que a compreensão me atingiu. “Ah… mamãe e papai?”
Erica assentiu.
“Eles falavam muito de vocês. Sempre diziam que, se estivessem vivos, vocês dois provavelmente ainda brigariam mesmo depois de adultos.”
Mas que tipo de história eles estavam contando para ela?
“Não acredito que diriam algo assim. Eles podiam, pelo menos, mencionar que, ao contrário da sua mãe, eu era uma pessoa extremamente gentil. Não é assim que se fala dos mortos? Tentando exaltá-los?”
“Receio que simpatizo com seus antigos pais”, comentou Luxion. “Ter um filho como você certamente não deve ter sido fácil.”
“Ei, não fala como se eu fosse algum demônio indisciplinado. Quem dava dor de cabeça era a Marie, não eu.”
Todos olharam para Marie, que estava ocupada bebendo chá para empurrar os doces que havia devorado. Assim que terminou, ela franziu a testa.
“Eu era uma criança perfeitamente comportada na maior parte do tempo. Era você quem infernizava eles. Claro, no dia a dia você parecia tranquilo, mas de vez em quando virava um caos ambulante. Lembra?”
“Por favor. Eu era um anjo comparado a você.”
“Nunca! Nem de longe!”
Parecia que nunca chegaríamos a um consenso sobre nossas memórias do passado. Ainda assim, eu tinha certeza de que estava certo — Marie é que devia estar confundindo tudo. Decidi não insistir e apenas dei outro gole no chá.
“Deixando isso de lado… como foram as coisas com eles?”
Minha pergunta foi vaga, mas Erica entendeu imediatamente. Eu estava falando sobre a morte dos nossos pais.
Ela sorriu com tristeza, baixando o olhar.
“Eu estava com eles quando faleceram. Disseram que iriam para o outro lado dar uma bronca ‘naqueles dois idiotas’.”
“Aqueles dois idiotas”, hein…? Não havia dúvida de que estavam falando de mim e da Marie. Afinal, tínhamos feito a única coisa que nenhum filho deveria fazer: morrer antes dos pais. Ainda assim, não era como se eu tivesse escolhido isso.
Se tinham algo a nos dizer, imaginei que seria algo mais… reconfortante. Algo como nos reencontrarmos depois. Mas, pensando bem, reclamar era bem mais a cara deles.
“Que crueldade… dizer que vão nos dar uma bronca. Principalmente porque, se alguém merecia, era a Marie.”
Dei uma risada leve.
Marie torceu o nariz.
“Por que eu? Se eles fossem ficar bravos com alguém, seria com você. Ficar virando a noite jogando videogame só pra morrer caindo da escada… bem patético, não acha?”
“Foi você quem me empurrou aquele jogo!”, retruquei, apontando para ela.
Marie bufou.
“A culpa é sua por não se cuidar direito.”
“Sua…!”
Eu queria continuar, mas… ela não estava errada. Até eu sabia que tinha exagerado. Sem nada melhor para dizer, fiquei em silêncio, apenas tomando meu chá enquanto olhava para o teto.
Depois de um tempo, murmurei: “Ainda assim… que tipo de pais dizem que vão dar uma bronca em vez de dizer que querem nos ver de novo?”
Se, por algum milagre, eles também reencarnassem neste mundo… eu provavelmente morreria de rir.
Marie baixou o olhar.
“Eu não me importaria se eles estivessem bravos… nem se gritassem com a gente. Eu só queria poder vê-los de novo.”
Nós dois tínhamos causado muitos problemas para eles… e também deixado tudo nas costas da Erica.
“Obrigado por ter estado com eles”, disse. “Eu estava preocupado… já que nós dois falhamos com eles. Saber que você estava lá me tranquiliza muito.”
Era um peso que eu carregava havia muito tempo. E, naquele momento, senti meu coração finalmente mais leve.
“Você realmente estava preocupado?”, perguntou Luxion, surpreso. “Achei que tivesse esquecido seus pais.”
“Eu sou humano, sabe? Claro que me importei. Sempre quis saber o que aconteceu com eles depois que morri. Ainda mais depois que descobri que a Marie também morreu antes deles.”
Era difícil encarar o quanto tínhamos estragado tudo. Por isso, eu era grato à Erica.
“Obrigado… de verdade”, continuei. “Eu vou retribuir isso de alguma forma. Se tiver qualquer problema, é só dizer. Eu estarei do seu lado.”
Erica sorriu, um pouco sem jeito.
“Não precisa se preocupar com isso. Eles eram meus avós. Cuidaram de mim com tanto carinho… não precisa falar em retribuição, tio.”
Fiquei sem palavras. Cocei a cabeça, emocionado com a mulher incrível que ela havia se tornado.
“Mestre, é realmente difícil acreditar que você era biologicamente relacionado a Erica em sua vida anterior”, murmurou Luxion.
Marie estufou o peito — inexistente, diga-se de passagem.
“Ela é incrível, né? Meu orgulho e alegria.”
“Ah?”, respondeu Luxion. “Pelo que entendi, quem a criou foram seus pais. Logo, todo o mérito seria deles.”
“Bem… sim, mas mesmo assim!”
“Ou seja, todo o crédito pertence a eles.”
“Tá bom! Talvez sim! Mas eu posso me orgulhar um pouquinho, não posso? Ela é minha filha!”
“Infelizmente, atualmente ela é filha de outra pessoa. Que pena.”
“Você tem algum problema comigo?!” Marie retrucou.
Eu ri enquanto observava Luxion provocando-a. No canto da visão, porém, percebi Erica sorrindo de forma um tanto desamparada.
Quando Angie retornou ao dormitório feminino após sua visita à residência dos Redgrave, Livia imediatamente foi ao seu encontro. Ao notar a mancha de tinta no dedo mindinho direito dela, Angie percebeu que havia interrompido seus estudos.
“Desculpa”, disse, com um sorriso fraco. “Acho que te interrompi.”
Livia sorriu de volta.
“Você nunca interrompe. Este também é o seu quarto. Bem-vinda de volta, Angie.”
“Obrigada.”
O sorriso de Livia trouxe algum conforto, mas durou pouco. Logo, sua expressão se tornou mais séria — provavelmente já imaginando como havia sido a conversa na casa dos Redgrave.
“E então… como foi?”
O sorriso de Angie desapareceu.
“Meu irmão me repreendeu. Disse que eu não estou correspondendo às expectativas.”
“Meu Deus…”
“E parece que nem meu pai nem meu irmão estão satisfeitos com a atenção que Leon tem dado à princesa Erica.”
Ao ouvir isso, a expressão de Livia endureceu. Ambas sabiam dos encontros semanais de Leon com a princesa, e, embora não houvesse nada romântico nisso, as aparências eram péssimas. Os alunos já cochichavam que Leon pretendia abandonar Angie.
“Eu vou falar com o Sr. Leon.”
“Lívia?” Angie reagiu, surpresa.
“Esses chás semanais com Sua Alteza são estranhos. Por que ele continua com isso nessa situação?”
A irritação de Livia era evidente.
“Está tudo bem”, insistiu Angie. “Deixe ele fazer o que quiser.”
“Mas—” “Ele deve ter os próprios motivos. Além disso, já falei com ele sobre isso várias vezes… e ele simplesmente ignorou.”
Ela sorriu de forma amarga.
Livia baixou o olhar.
“Como posso ficar quieta vendo você sofrer assim?”
Ela sabia que Angie estava tentando proteger Leon da influência dos Redgrave, mas não tinha certeza se ele sequer percebia isso. O mais frustrante era ver o país inteiro girando ao redor dele, enquanto ele permanecia completamente alheio.
“Você é realmente gentil…”, disse Angie, envolvendo Livia em um abraço.
As duas encostaram as testas, e Livia passou os braços pela cintura dela.
“Isso não é difícil para você?”
“Acho que sim…”, respondeu Angie, com tristeza. “Nesse ritmo… posso acabar sendo rejeitada. E, quando isso acontecer, vou me tornar apenas mais uma garota comum. Todo o valor que eu tinha vai desaparecer… e eu vou perder o Leon.”
Foi graças a Angie que Leon chegou ao posto de duque, mas agora ele já possuía poder suficiente para manter sua posição sozinho. Se ela o deixasse, sua vida não mudaria.
Angie apertou Livia com mais força, a respiração falhando.
“Lívia… eu vou ser abandonada de novo?”
“Não! Claro que não! Eu nunca permitiria isso!”
“Mas, do jeito que as coisas estão… eu vou perder tudo.”
Se fosse expulsa da própria casa, toda a sua influência desapareceria. E, sem isso, ela acreditava que não teria mais valor algum.
“Eu odeio isso…”, sussurrou. “Eu não quero ser descartada de novo.”
Sua mente voltou ao dia em que Julius rompeu o noivado.
E, incapaz de conter as emoções, Angie se agarrou a Livia, chorando como uma criança.
***
Em uma das salas do palácio, um casal discutia de forma acalorada — não um casal qualquer, mas o rei Roland Rapha Holfort e a rainha Mylene Rapha Holfort. Ao redor deles, móveis estavam tombados e espalhados, deixando o ambiente em completo caos. A intensidade da discussão havia transformado a cena em uma verdadeira tempestade.
“Chega dessa tolice!” Mylene gritou para o marido. “Quantas vezes preciso explicar que este é o melhor caminho?!”
Roland se recusava a aceitar aquilo.
“Como isso pode ser o ‘melhor caminho’?!” retrucou. “Já tínhamos decidido casar a Erica com um dos filhos do marquês Frazer — foi você quem insistiu nisso! E agora quer desfazer o acordo para entregá-la àquele pirralho insuportável? Como espera que eu aceite calado enquanto tenta mandar nossa querida Erica para aquele canalha inútil?!”
Consumido pela fúria, Roland perdeu completamente o controle e chutou uma mesa — apenas para acertar a própria canela. Ele se curvou na hora, gemendo de dor.
“Aaaai…!”
Mylene apenas o observou com frieza.
“Então me diga: além de casar Erica com Le—” ela interrompeu a si mesma por um instante, corrigindo, “—com o duque Bartfort, que outra solução você tem para manter este reino funcionando?”
“Se eu tivesse uma alternativa, não estaríamos discutindo isso!”
“Então, se não tem sugestões melhores, fique em silêncio.”
A origem da disputa era simples: Mylene havia decidido casar Erica com Leon. Originalmente, a princesa estava prometida a um dos filhos do marquês Frazer, cuja família controlava um território fronteiriço com o Reino Sagrado de Rachel.
O Reino Unido de Lepart, terra natal de Mylene, também fazia fronteira com Rachel e mantinha uma longa guerra contra eles. Quando Lepart firmou uma aliança com Holfort, solicitou que Mylene fortalecesse esse vínculo. Para proteger seu país de origem, ela ofereceu a própria filha em casamento à família Frazer, esperando garantir apoio militar em momentos críticos.
Esse era o plano… até Leon ascender ao título de duque por mérito próprio e, de quebra, resolver a mais recente crise do reino com uma eficiência impressionante. Agora, Mylene já não precisava mais da Casa Frazer para sustentar Lepart — ela queria garantir o apoio de alguém muito mais poderoso.
Anular o noivado solicitado pela própria família real seria uma humilhação completa para os Frazer. Ainda assim, plenamente consciente das consequências, Mylene estava disposta a seguir em frente. Roland, por outro lado, se opunha com todas as forças.
“Já é difícil aceitar que minha adorável Erica vai se casar… mas com aquele pirralho? Eu preferia mil vezes entregá-la a um Frazer qualquer!”
“Você pretende ver este reino ruir por causa de um ressentimento mesquinho?”
Mylene estava completamente certa — e Roland sabia disso. Ainda assim, não conseguia aceitar.
“Estou te dizendo: ela só vai sofrer ao lado daquele idiota!”
“Esse é o dever de quem nasce na família real.”
“Você é algum tipo de demônio? Estamos falando da sua própria filha!”
“Justamente por ser minha filha é que rezo por sua felicidade, independentemente de com quem ela se case. O fato de ser o duque Bartfort é irrelevante.”
A expressão de Mylene permaneceu firme — quase ilegível. Ainda assim, por um breve instante, sua máscara vacilou, revelando uma sombra de amargura.
Roland percebeu e se agarrou a isso.
“Então por que você mesma não se casa com ele?”
“Não seja ridículo. De qualquer forma, levarei essa proposta adiante. Não posso permitir que os Redgrave monopolizem esse poder.”
Para Mylene, a Casa Redgrave já era uma inimiga da coroa — e Roland, nesse ponto, concordava. Ainda assim…
“Angelica não vai aceitar isso em silêncio. Se você levar esse plano adiante, será a segunda vez que a família real ignora os sentimentos dela.”
As palavras atingiram Mylene. Ela conhecia Angie desde criança. Por um instante, baixou o olhar, o rosto marcado por um leve pesar — mas, ao erguer a cabeça novamente, toda emoção havia desaparecido.
“O destino deste país está acima dos sentimentos de qualquer indivíduo.”
“Mentira. Você hesitou agora há pouco. Você gosta daquela garota.”
Houve um breve silêncio antes da resposta.
“Mesmo que isso seja verdade… nada muda minha decisão.”
Considerando a discussão encerrada, Mylene virou as costas e deixou a sala.
Roland permaneceu ali, largado no chão, soltando um suspiro pesado.
“Aquele pirralho ainda mal saiu das fraldas, mas somehow consegue encantar todas as mulheres… que tipo de escória é essa?”
Uma crítica hipócrita, vindo de alguém tão infiel quanto ele — mas Roland não parecia disposto a refletir sobre si mesmo.
Sua expressão logo se tornou séria.
“Se a proposta da Mylene for aprovada, provavelmente será o melhor que já aconteceu a este reino em muito tempo. Os aristocratas vão surtar, sem dúvida… mas ainda assim…”
Ele cerrou os punhos.
“…eu não consigo aceitar a ideia de minha Erica se casar com aquele desgraçado.”
Quando decidiu deserdar Julius, Roland aceitou aquilo como consequência das próprias ações do filho. Com Erica, no entanto, era completamente diferente.
Ele a amava profundamente.
“Aaaah!” Roland gritou, debatendo-se novamente no chão. “Não suporto a ideia de ver minha filha se casar!”
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