Aos poucos, conforme mais pessoas se viravam para Jason com curiosidade, a atitude da multidão começou a mudar quando uma ou duas pessoas perceberam quem ele era. Uma jovem de cabelo loiro curto e rosto bonito soltou um arquejo ao se lembrar de tê-lo visto na TV alguns dias antes e sussurrou para o companheiro enquanto batia repetidas vezes no braço dele.
— Amor! É ele! É ele! O super-humano que despertou como rank A!
— Sério?
— Ei, aquele é Jason Marc, não é? Foi ele que eu vi na TV outro dia!
— Ouvi dizer que ele ainda não entrou em nenhuma guilda. Vamos falar com ele!
— Ei, vamos falar com ele! Podemos pegá-lo antes dos outros!
Algumas pessoas começaram a se mover na direção de Jason quando o reconheceram, mas ele estreitou os olhos num gesto nada receptivo, e todos pararam imediatamente.
Jason não se importava que falassem mal dele, mas não estava disposto a aguentar aquele assédio todo.
— Senhor Jason Marc?
Jason se virou e viu uma mulher chamando por ele a uma distância respeitável. Ela era bonita, com cabelos loiros presos em um coque impecável e um conjunto de saia e blazer que abraçava seu corpo de forma modesta e atraente. O rosto dela lembrava Fiona demais, e Jason soube imediatamente que aquela devia ser a irmã dela, Juliet.
Juliet permanecia a certa distância porque sentira a pressão que Jason havia liberado poucos segundos antes. Sabia que seria perigoso se aproximar de um super-humano enquanto ele estivesse tão tenso.
No caminho até ali, Juliet estivera nervosa e cética ao mesmo tempo. O nervosismo não vinha apenas do fato de estar prestes a se encontrar com alguém de quem o mundo inteiro falava. Vinha também do que Jason lhe dissera no dia anterior a respeito da quantidade de cristais que estava disposto a vender.
A verdade era que a empresa Tenet não ia tão bem quanto todos imaginavam.
A Tenet lidava com todo tipo de negócio voltado a super-humanos. Arranjava agentes para super-humanos, produzia e vendia artefatos, armaduras e Cristais Mágicos voltados para esse mercado.
Mas, recentemente, a ascensão rápida do setor comercial do SMD havia pressionado os comerciantes independentes. O SMD detinha um grande monopólio sobre os negócios super-humanos porque também era responsável pelo registro dos próprios super-humanos. Por isso, a maioria deles ia até lá para vender e comprar qualquer artefato ou Cristal Mágico de que precisasse.
Isso impedia empresas independentes como a Tenet de conseguirem muitos negócios.
Juliet ligara para Jason no dia anterior por causa do choque que sentira ao ver a qualidade do Cristal Mágico que Fiona lhe entregara. O cristal havia sido removido perfeitamente, sem nenhuma deformação. Isso significava que quem quer que o tivesse extraído provavelmente era um profissional com muita experiência em remover cristais.
Então, quando Fiona lhe contou que fora Jason Marc, o super-humano recém-desperto, quem o entregara, Juliet ficou cética em relação a tudo.
Será que ele realmente seria capaz de retirar um cristal com tanta precisão sendo um super-humano novato?
Mas Juliet estava desesperada. Receberam o relatório trimestral de lucros na semana anterior, e ela viu que a empresa havia caído cinco por cento em comparação ao trimestre anterior. Naquele ritmo, não levaria nem cinco anos para que fossem obrigados a fechar as portas ou vender a empresa para um conglomerado maior por causa da falência. Já havia conversas entre os membros do conselho sobre procurar empresas dispostas a comprá-los.
Foi esse desespero que a levou a ligar para Jason e perguntar sobre os cristais. E foi apenas sua experiência em manter o autocontrole mesmo nas situações mais críticas que impediu Juliet de perder completamente a compostura ao ouvir quantos cristais Jason queria vender.
Trezentos.
Aquilo era mais cristal do que recebiam de todos os super-humanos contratados atualmente em um mês. Era insano.
Assim que o ouviu dizer aquilo, Juliet pensou imediatamente que ele estava mentindo, mas a confiança com que falou a fez parar para pensar. E se ele estivesse dizendo a verdade e realmente tivesse tantos cristais? Faria algum mal encontrá-lo e ver com os próprios olhos?
Foi assim que Juliet chegou àquela cena, nervosa e cética. Esperava que Jason não estivesse mentindo, mas ficaria arrasada se fosse o caso. Aquela era realmente a última chance da empresa de se reerguer. Se falhassem ali, estaria tudo acabado.
Juliet olhou para Jason à distância e não conseguiu impedir o leve rubor que surgiu em sua bochecha quando seus olhos se encontraram. A aparência rude e confiante dele a lembrava aqueles membros de gangues de motociclistas que às vezes via na TV quando era adolescente. Aquela persona de bad boy sempre a atraíra, e, quando vinha junto de um rosto bonito como o dele, ela não conseguia evitar o interesse que sentia.
Mas Juliet balançou a cabeça e voltou a se concentrar. Estava ali a negócios. Não havia espaço para erros.
Jason reduziu a pressão que emitia ao vê-la e sorriu para a mulher mais baixa quando ela finalmente caminhou até ele. As pessoas que se aproximavam pararam ao perceber que Jason estava esperando alguém, embora algumas ainda permanecessem por perto, debatendo se deveriam abordá-lo.
Juliet estendeu a mão para cumprimentá-lo.
— É um prazer conhecê-lo, senhor Jason. Minha irmã me contou muito sobre você.
Jason aceitou a mão menor e sorriu.
— O prazer é meu.
As bochechas de Juliet ganharam outro leve rubor quando ela viu o sorriso dele, e sua mente traidora a obrigou a reconhecer o quanto ele ficava bonito ao sorrir. Juliet pigarreou rapidamente e se virou para o elevador, pedindo que Jason a acompanhasse. O restaurante ficava no último andar, e eles poderiam comer antes de falar de negócios.
Subiram, e, quando chegaram ao último andar, o mordomo parado na entrada do restaurante lançou um olhar curioso para Jason. As roupas dele eram anormais demais para um restaurante tão sofisticado, e o mordomo teria dito algo sobre isso se não tivesse reconhecido Jason da TV como o super-humano recém-desperto. Era inteligente o bastante para não irritar alguém capaz de derrubar o prédio inteiro se ficasse bravo.
O interior do restaurante era silencioso e discreto, com uma melodia baixa de jazz tocando em um sistema de som ambiente que tornava o espaço relaxante. Jason e Juliet foram conduzidos a uma mesa lateral, próxima a uma janela que dava vista para o grande rio que cortava o centro de Riverdale. Juliet sorriu para Jason antes de falar:
— Suponho que devamos comer algo antes de qualquer coisa. Recomendo a sopa de lagosta. O restaurante tem um dos melhores chefs do ramo na cozinha, um chef Michelin três estrelas. Por favor, fique à vontade.
Jason balançou a cabeça. Não estava interessado em comer, já que iria embora assim que terminassem a conversa. Juliet franziu levemente a testa quando ele recusou, então ergueu a mão e pediu ao garçom que se aproximara para esperar alguns minutos. O garçom se curvou respeitosamente e os deixou a sós.
Jason então falou:
— Não vamos conversar por muito tempo. Tenha em mente que esta conversa vai seguir um de dois caminhos.
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