O Sistema do Necromante Mais For... Cap. 104 — Alpha, a Assassina

O povo de Kari era conhecido como os karianos, criaturas humanoides pacíficas, de olhos fendidos, pele vermelha e longas caudas. Os karianos eram a raça dominante no mundo de Kari e, assim como os humanos na Terra, haviam se estabelecido em vários pontos do mundo para criar vilas e cidades.

Aquela cidade, com mortos espalhados pelo chão, fora criada por uma pequena tribo de karianos que decidiu adotar a agricultura como principal fonte de renda. Eles colhiam e vendiam plantações para as cidades ao redor para sobreviver. Mas, infelizmente para eles, havia um kariano que decidiu que eram um obstáculo e resolveu que queria vê-los desaparecer.

Esse kariano era um dos Barões daquela região e, antes de matar todos os habitantes da cidade, conversara com eles e mandara que entregassem suas terras, pois queria usá-las para construir uma estrada. O Barão kariano obviamente mentia, e os bem-informados sabiam que ele só queria colocar as mãos na terra fértil que os agricultores haviam tomado para si, usando a desculpa da estrada para arrancá-la deles.

Mas os agricultores se recusaram a abrir mão da terra, não importava o quanto o Barão tentasse fazê-los partir. Os agricultores karianos resistiram sem descanso e recusaram qualquer pagamento que o Barão tentasse oferecer, até que, por fim, o Barão percebeu que não havia nada que pudesse fazer contra eles. Não podia atacá-los pessoalmente, pois isso violaria a lei. Se um Barão atacasse uma pequena vila, enfrentaria retaliação do judiciário.

Então, em vez de manchar as próprias mãos com sangue, ele estendeu seu alcance pela Expansão Primordial e chamou um grupo famoso pelo sigilo: os Fantasmas.

Os Fantasmas eram um grupo de assassinos, celebridades não declaradas entre aqueles que usavam seus serviços. Eram compostos por cinquenta membros, todos rank B ou superior, e cada integrante possuía a habilidade única de viajar por qualquer forma de sombra. Essa única habilidade permitia aos Fantasmas executar missões de resgate e assassinato que normalmente seriam impossíveis para qualquer outra pessoa.

Podiam se infiltrar em uma cidade e matar todos os habitantes em uma única noite antes de desaparecer nas sombras como se nunca tivessem estado ali. Quando a manhã chegasse, a única coisa que alguém encontraria seria o fedor de sangue e cadáveres. E, naquela noite, naquela pequena vila de agricultores karianos, a trupe dos Fantasmas atacou mais uma vez.

Uma única mulher estava de pé sobre o telhado de uma casa, olhando para a multidão de corpos com olhos amarelos fendidos e sem emoção. A luz da lua brilhava atrás dela, lançando uma longa sombra negra pelo telhado e pelo chão. A mulher usava uma roupa preta colada ao corpo, que a cobria da cabeça aos pés e destacava sua figura esguia. Uma máscara cobria a parte inferior de seu rosto, e seus longos cabelos negros fluíam ao vento junto do cheiro de sangue. Dois chifres curtos se curvavam para cima a partir de sua testa, dando-lhe uma aparência demoníaca e perigosa. Havia um sai preso a cada lado de seu quadril, a arma principal dos Fantasmas, e uma espada curta repousava em suas costas.

Aquela mulher era Alpha, a líder dos Fantasmas.

Alpha vinha de um mundo de demônios menores conhecidos como Raksha, existente a mais de quinhentos Saltos Dimensionais de distância. O povo de seu mundo já fora conquistador e tentara assumir o controle de todos os mundos próximos. Mas, depois que fizeram inimigos do povo de Avaran, seu mundo foi destruído e seu exército completamente aniquilado. Alpha era uma das pessoas na linha de frente que viu a destruição absoluta de que seus inimigos eram capazes, e decidiu naquele momento que não havia nada que pudessem fazer contra os avarianos.

Alpha conseguiu garantir uma saída daquele mundo vendendo informações aos inimigos. Entregou todas as rotas de fuga e bunkers seguros onde seus antigos aliados se escondiam em troca de muitos Cristais Mágicos. Então pegou o máximo de tesouros e artefatos que conseguiu carregar e escapou por uma Fenda Dimensional. Depois de ter certeza de que ninguém vinha atrás dela, usou os artefatos e Cristais Mágicos para criar aquele grupo de assassinos.

Alpha observava enquanto os outros membros dos Fantasmas faziam o saque rotineiro das casas e corpos para recuperar qualquer coisa valiosa. Ficou irritada ao descobrir que aquela cidade de agricultores karianos era formada por não usuários de magia. Isso significava que não havia Cristais Mágicos para recuperar depois de matá-los, então a única forma de lucrar com seus cadáveres era levar qualquer item de valor.

Alpha não precisava de fato vigiar seus homens, pois tinha certeza de que nenhum deles ousaria roubá-la, mas sabia que precisava ser meticulosa.

Seus olhos desceram até uma garotinha kariana que havia sido empalada por uma espada. Os olhos da menina ainda estavam abertos, e sangue verde vazava de seus lábios enquanto jazia morta, mas Alpha não sentiu nada no coração. Vivera anos de derramamento de sangue como membro da raça Raksha. Matara dezenas de milhares de inocentes como ex-soldado e vira centenas de milhares de seu próprio povo morrer, então não se importava nem um pouco com o sangue inocente derramado ali.

Alpha fora quem treinara todos os outros membros dos Fantasmas e, embora fossem de raças e mundos diferentes, todos possuíam a mesma habilidade de viajar pelas sombras. A origem dessa habilidade única continuava sendo um mistério para todos, exceto os membros dos Fantasmas, e ninguém jamais descobriria como a obtiveram se Alpha tivesse algo a dizer sobre isso.

Desde que Alpha começou o grupo, transformou os Fantasmas de uma gangue desconhecida de ladrões sem rumo em uma organização impiedosa de assassinos que vendiam lealdade ao maior lance. Não importava se recebiam ordem para matar um político ou uma criança. Não importava se deveriam apagar uma cidade inteira da existência ou incendiar uma escola. Os Fantasmas faziam tudo que lhes era pedido, desde que o contratante estivesse disposto a pagar o valor certo. E naquela noite não foi diferente.

O chão ao lado de Alpha se elevou levemente antes que uma figura emergisse lentamente das sombras para ficar atrás dela. Alpha não se deu ao trabalho de se virar para encarar o homem, mantendo os olhos nos outros membros abaixo. Ele também vestia o mesmo tipo de roupa que ela. O traje preto cobria seu corpo do pescoço aos pés, e uma máscara negra cobria a parte inferior do rosto. Nos quadris, havia dois sais encharcados de sangue. Seus olhos verdes examinaram os arredores por um segundo antes de finalmente se voltarem para a líder e falarem em um tom curto e seco.

— Verificamos as casas. Nenhum sinal de vida.

Alpha não disse nada em resposta, mas o homem soube que ela o ouvira e aceitara o relatório. Permaneceram em silêncio por alguns segundos calmos antes que Alpha falasse.

— Há uma nova missão.

Não era uma pergunta, mas o homem reconheceu que Alpha pedia que lhe contasse sobre a nova missão que haviam recebido. Agora que tinham terminado de eliminar os agricultores karianos, já era hora de iniciar o próximo trabalho. O homem falou em voz monótona.

— A missão veio dos draconatos de Radagan. É uma missão de busca.

A testa de Alpha se franziu levemente.

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