Aprendiz de Mago Cap. 257 — Equilíbrio

A noite não foi tranquila. Angor não conseguia dormir bem, pois era constantemente perturbado por gritos e barulhos de coisas sendo quebradas.

Na manhã seguinte, Angor levantou-se da cama com os olhos ainda sonolentos. Planejava dormir mais um pouco, mas foi impedido pelos gritos descontrolados do vizinho ao lado — a criança Servo Fantasma.

Toby estava piando alto em sua mesinha de cabeceira. Qualquer outra pessoa aqui acharia o pássaro terrivelmente incômodo, embora Angor soubesse que Toby estava apenas cantando a Cidade do Céu de uma maneira muito ruim, devido à falta de senso musical.

Angor ajudou Toby a vestir um traje de pescador e alisou suas penas. “Há muitos bruxos participando da feira, então não se afaste desta vez. Fique no quintal de Prome, certo?”

Toby assentiu.

Angor passou algum tempo se lavando e depois foi para o quarto de Dave. Ele ainda sentia a ilusão que havia criado no dia anterior, e a criança Servo Fantasma ainda gritava.

“Bom dia, Angor.” Dave apareceu, também bocejando bastante.

“Bom dia”, respondeu Angor, com um tom um tanto cansado, apesar de ter se esforçado para se animar no banheiro.

Dave inclinou a cabeça em direção ao quarto do garoto. “Levei meia hora para descobrir como sair. E só porque você já tinha me contado sobre como enganar minhas direções. Tive que fechar os olhos e imaginar o quarto para encontrar a porta no teto, dentro da ilusão.”

“Ou você pode simplesmente dar um soco na parede para sair. Minha ilusão é bem pequena. Podemos consertar a parede para o Mestre Prome depois.”

“… É mesmo! Como eu não pensei nisso? E eu queimei meus neurônios só para redesenhar o quarto na minha mente…”

Angor apontou para o quarto de onde ainda vinha o grito da criança. “Então, você descobriu alguma coisa com ele?”

Dave bufou: “Eu devia tê-lo matado ontem. O desgraçado me enganou.”

“Como assim?”

“Ele não é uma criança. Escuta só a voz dele. Parece voz de uma criança para você?” Dave parecia bastante agitado. “Ele acordou no meio da noite e não parou de gritar desde então. Tentei fazer perguntas a ele do lado de fora da porta, e, nossa, a boca dele fechou como um tumulo. Ele acabou me contando alguma coisa, provavelmente porque não aguentou mais a sua ilusão.”

Eles conversaram enquanto desciam as escadas. “Ele parece uma criança de oito anos, né? Não! Ele tem 18. Disse algo sobre o crescimento dele ter parado quando ele tinha sete anos, quando a habilidade dele despertou. Ele não me disse o nome dele, nem o motivo de ter começado a roubar. Mas mencionou alguém que precisa encontrar.”

Dave deu um soco no ar. “Um idiota adulto de 18 anos! Eu realmente deveria…”

Eles foram para a cozinha e Angor começou a preparar a refeição enquanto Dave ainda amaldiçoava o Servo Fantasma.

Angor cortou uma panqueca e pegou um pouco de leite, meio distraído com a tarefa. Ele estava pensando nas palavras de Dave.

Então o Servo Fantasma que parecia uma criança — não, jovem Servo Fantasma — não havia crescido naquele corpo desde os sete anos.

Angor se lembrou de que Sunders havia mencionado algo sobre como “nem todos com poderes especiais são favorecidos por este mundo.”

Angor começou a entender as palavras de Sunders agora. Rio Gotejante tinha o hábito de dormir muito, e agora este Servo Fantasma estava preso a um corpo de criança para sempre… Esta poderia ser a regra básica do mundo bruxo — troca equivalente. Algo desconhecido lá fora sempre mantinha essa regra. Se alguém ganhava algo, tinha que perder algo em troca. E às vezes isso não era opcional.

O Servo Fantasma provavelmente não teve escolha quando ganhou a habilidade de “Transferência para o Vazio” em troca de seu crescimento futuro.

Pelo menos Angor não aceitaria uma troca dessas. O crescimento corporal era necessário, pois trazia muitas novas formas de desenvolvimento para a vida de alguém. Era a evolução.

Apesar de sua idade real, o Servo Fantasma ainda parecia uma criança, tanto no corpo quanto na mente.

Para Angor, ganhar uma habilidade natural ao custo do crescimento corporal era um péssimo negócio. Um Peter Pan poderia ganhar a simpatia dos mortais, mas seu talento não o ajudaria a sobreviver no brutal mundo bruxo. Além disso, aquele era o Soberano da Meia-Noite, o lar de criminosos impiedosos.

Angor e Dave terminaram a refeição e deixaram o assunto do Servo Fantasma para trás. Eles ainda tinham seus próprios assuntos a tratar.

Angor iria procurar materiais lá fora, enquanto Dave foi ao porão organizar as coisas para serem levadas de volta à Caverna Bruta.

Mais uma vez, Angor pegou Toby e o colocou no bolso do peito, numa posição confortável. Toby não recusaria a chance de relaxar no calor do seu Jovem Mestre.

Na entrada da base, Angor viu Prome retornando com uma expressão frustrada.

Prome não voltou na noite passada. Sua expressão sugeria que sua busca fora em vão.

Angor foi cumprimentar Prome, que confirmou sua suspeita.

“Verifiquei todas as lojas de alquimia em Poço do Crepúsculo, além de vários encontros privados. Nada. Há armas para combate corpo a corpo, mas não para longo alcance. E nenhuma das armas brancas satisfará meu amigo.”

Prome suspirou, impotente. “Parece que terei que recorrer ao Leilão do Crepúsculo… embora não espere nada de lá.”

“Tenha fé, senhor, encontraremos algo”, disse Angor, tentando confortá-lo.

Ele ia desenhar o [Prelúdio para a Eliminação] de qualquer maneira, pensou Angor.

“Espero que sim.” Prome forçou um sorriso amargo. “Então, você vai comprar materiais? Quer que eu vá com você? Algumas lojas de alquimia ficam escondidas, então você precisa de alguém para te guiar. Elas sempre vendem coisas melhores.”

Angor olhou para a expressão cansada de Prome e balançou a cabeça. “Só preciso de materiais baratos, como Flores do Eco. Além disso, preciso juntar dinheiro para ir ao leilão hoje à noite.”

“Entendo. Então te levo até essas lojas amanhã.”, disse Prome com um sorriso. “Você pode contratar mortais em Soberano da Meia-Noite se tiver muita coisa para carregar.”

“Mortais também podem entrar no Poço do Crepúsculo?”

“Sim, se estiverem acompanhados por um mago. Quando o trabalho deles termina, eles esquecerão quase tudo o que aconteceu aqui, como se fosse um sonho.”

“Nossa. A magia nunca deixa de me surpreender.”

Angor se despediu de Prome e seguiu por outro caminho.

Prome observou as costas de Angor com um olhar significativo até que o garoto desapareceu de vista….

Casas nobres se reuniam perto do centro de Soberano da Meia-Noite.

Dentro de uma luxuosa mansão próxima ao palácio, um jovem entrou com a cabeça erguida, orgulhoso. Um mordomo idoso o conduziu a um escritório da família.

“Por que está aqui? Já encontrou Hobbiton?” perguntou um Servo Fantasma de meia-idade dentro do escritório. Este homem compartilhava um olhar semelhante ao do jovem que acabara de entrar.

“Pai, senti o cheiro dele em um beco estreito, mas um mago o levou embora.” O jovem baixou a cabeça ao falar com o pai.

“Um mago? Conte-me mais.”

O jovem descreveu o que viu na cena.

“Foi um feitiço chamado Gelo. E quem o lançou ainda é um mero aprendiz. Não pode se encontrar magos de verdade com frequência.”

“Mas aprendizes ainda são pessoas que não podemos ofender.”, comentou o jovem.

“A Senhora Lótus quer Hobbiton. Se não conseguirmos levar Hobbiton para ela, um mago de verdade lançará sua fúria sobre nós e queimará toda a família até o chão.” O servo de meia-idade suspirou.

Eles estavam numa situação delicada, tendo que ofender o menor dos dois males.

A desgraça de ser um Servos Fantasma.

“Continue procurando por Hobbiton. A Senhora Lótus chegará em meio mês. Eu lhe contarei sobre a situação até lá. Vamos torcer para que ela possa nos perdoar, considerando todos os tributos que oferecemos antes.”

Angor seguiu o caminho que percorreu ontem e entrou novamente em Soberano da Meia-Noite.

Segundo Prome, ele podia comprar mão de obra de quem quisesse, fossem crianças, mulheres ou idosos, contanto que pagasse o suficiente.

Ele não viu ninguém perto da entrada secreta. Apenas ouviu o barulho da multidão se aglomerando do outro lado da muralha.

O Teatro Encantado.

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