Aprendiz de Mago Cap. 256 — Poço do Crepúsculo

“Deve ser por isso que ele conseguiu se esquivar dos nossos ataques. Ele nasceu com uma habilidade que funciona como o Deslocamento do Vazio.”, disse Prome, sentindo um pouco de inveja. “Que dom… Se ele conseguir se tornar um Mago, essa habilidade significa um feitiço formal extra. Um Feitiço Acelerado, aliás, que ele aprendeu sem custo algum.”

Angor rapidamente pensou em outra pessoa que possuía uma “habilidade natural”: Rio Gotejante.

A mulher sabia como alterar as propriedades da água por natureza. A habilidade era tão poderosa quanto a que o ladrão acabara de mostrar a eles. Talvez até mais útil. Além disso, Rio Gotejante já era um talento entre os magos. O que ela poderia alcançar no futuro era imprevisível.

“Vamos embora. Ainda bem que recuperamos nosso dinheiro, senão eu o despedaçaria. Não me importo se ele é criança, velho ou está grávido.”, zombou Dave. Ele sentiu vontade de dar vários tapas fortes no garoto ao pensar em como quase perdeu todos os seus preciosos bens.

Prome ponderou por um instante e pegou o corpo congelado do garoto.

“O senhor vai levá-lo embora, Mestre?”, perguntou Dave, intrigado.

Prome assentiu. “Um Servo Fantasma é um escravo nato para Magos. Se ele vai continuar sendo um ladrão, é melhor vir comigo. Posso dá-lo de presente para outro Mago ou ficar com ele. De qualquer forma, ele terá uma vida melhor.”

Na verdade, Prome estava pensando em fazer experimentos com o garoto para aprender algo sobre aquela habilidade natural. No mínimo, ele poderia extrair a Linhagem Sanguínea da criança e ganhar uma boa fortuna com isso.

Ele nunca contaria isso a ninguém, porém. Prome ainda queria causar uma boa impressão em Angor.

E Angor confiava plenamente nas palavras de Prome. Angor achava estranho, mas logo se convenceu de que ser escravo de alguém ainda era melhor do que roubar. O ladrão ainda era jovem e tinha muito tempo para se redimir.

Prome pegou o Servo Fantasma nos braços. Então, eles continuaram caminhando em direção ao Poço do Crepúsculo.

Pouco depois de eles terem partido, outro Servo Fantasma, vestido com trajes elegantes, apareceu acompanhado de um grupo de capangas.

O líder deles farejou o ar. “Aquele pirralho estava aqui agora mesmo… Ele não pode ter ido longe-acho!” De repente, espirrou. “Por que está tão frio aqui?”

Um dos capangas se pronunciou: “Por favor, verifique embaixo de você, Mestre.”

O Servo Fantasma estava com a cabeça erguida, em um gesto arrogante, sem sequer olhar para o chão.

“Droga, por que este lugar está congelado? Espera… então um Mago esteve aqui! Droga, será que o Mago levou aquele pirralho embora?”

Ele ordenou rapidamente que seus homens olhassem ao redor. Só restava uma pessoa com ele, aquela que o lembrava de olhar para o chão.

Estalo!

O nobre Servo Fantasma deu um tapa no rosto de seu seguidor.

“Você quis dizer que eu estava cego agora mesmo?”

“Eu… eu não fiz isso, Mestre.”, disse o capanga em voz baixa, enquanto colocava a mão no rosto.

“Humph!” O nobre se afastou. “Vou deixar passar desta vez. Zombe de mim de novo e você estará morto!”

“Mas para onde o senhor vai, Mestre?”

“Vou informar meu pai. É sobre o acordo com a Lady Lotus. Não quero que nada dê errado.” A voz do nobre fantasma já ecoava longe.

“Mas, Mestre!” O lacaio chamou novamente.

“O que é desta vez? Ainda não terminou?”

O lacaio engoliu em seco e, por algum motivo, não conseguiu se expressar.

O nobre resmungou novamente e se virou para sair. Contudo, deu apenas alguns passos antes de tropeçar e cair de cara no chão.

“Quero lembrá-lo de verificar o chão novamente… o senhor está caminhando em direção ao gelo.”

“Chegamos.”, disse Prome, apontando para uma parede branca à sua frente.

Eles estavam agora no final de uma rua estreita. Havia entulho empilhado ali perto, quase alcançando a passarela. Uma parede branca bloqueava o caminho, atrás da qual se erguia um enorme prédio de aço em formato quadrado.

“É o Poço do Crepúsculo?” Angor olhou para o outro lado da parede.

Dave balançou a cabeça. “A parede é a nossa entrada. A maioria dos mercados bruxos não fica à luz do dia. Geralmente ficam em dimensões especiais. Acho que é só um teatro do outro lado da parede.”

“O Teatro Encantado. É… um lugar lindo.”, acrescentou Prome com um sorriso misterioso.

Teatro Encantado? Angor olhou novamente para o edifício gigante.

“Digamos que eles organizam espetáculos bem, como dizer… assim, ‘bonitos’. Acho que vocês dois estão na idade certa agora, então podem dar uma olhada no lugar quando tiverem tempo. Por enquanto, vamos ao Poço do Crepúsculo. Preciso muito encontrar aquela arma anti-mortos-vivos.”, disse Prome enquanto caminhava até a parede e explicava a Angor. “Use seus sensores espirituais para tocar a parede e você verá a entrada.”

Prome avançou e desapareceu na parede.

“Acho que há uma ilusão ali…” Angor ponderou e seguiu Dave.

Angor atravessou a parede e se viu em uma rua movimentada.

As pessoas ali se vestiam com estilos diferentes, embora houvesse algo em comum: todas exibiam ondulações de mana tênues ao seu redor como um aviso para potenciais infratores. As lojas ao longo da rua eram todas lojas de artigos mágicos. Angor viu uma barraca vendendo plantas mágicas à sua esquerda, com uma placa que ele não conseguiu ler. À direita, havia outra loja cuja porta estava coberta por uma cortina preta. O nome da loja era “Mercado Curioso”. Em frente, havia um cruzamento de três vias, onde ficava outro prédio chamado “Suco da Dama”. Uma pequena placa indicava que a loja era administrada pela filial de uma organização chamada “A Casa do Prazer”.

Cada loja tinha uma matriz mágica brilhando ao redor para evitar olhares curiosos do lado de fora e também para atrair clientes interessados.

Conforme avançavam, Angor percebeu que todo o lugar compartilhava um estilo semelhante ao da Soberania da Meia-Noite — as ruas eram estreitas e congestionadas, de modo que a visibilidade era limitada. Apenas a fumaça ocasional de comidas sugeria a presença de restaurantes por perto.

De vez em quando, eles se deparavam com um poço que emitia uma tênue luz vermelha, da cor do crepúsculo. Prome contou a Angor que os poços eram nós ramificados de uma grande matriz mágica em Poço do Crepúsculo, usada para monitorar o mercado. Vários clãs de magos administravam Poço do Crepúsculo e eram responsáveis por manter a ordem no local.

Prome os conduziu até uma construção cuja porta exibia o emblema de uma árvore gigante.

“Esta é uma base operacional da Caverna Bruta. Podemos encontrar quartos aqui de graça com nossos cartões de osso. Quartos comuns, claro. Se você pagar, pode alugar um pequeno complexo protegido por barreiras mágicas.”, explicou Prome a Angor, sorrindo. “Eu aluguei um desses aqui, já que preciso vir com frequência para buscar mercadorias. Ficaremos apenas alguns dias. Você pode vir comigo para não precisar procurar outro quarto.”

Angor ponderou e concordou. Não tinha motivos para recusar a hospitalidade de Prome.

Prome sorriu ainda mais. “Perfeito. Fiz algumas anotações sobre alquimia esses dias. Podemos trocar informações úteis sobre o que aprendemos.”

Angor aceitou de bom grado. Prome não parecia interessado em encantamento, enquanto Angor pretendia estudar síntese no futuro. Aqui, “trocar ideias” significava basicamente aprender algo com Prome, e Angor não desperdiçaria uma oportunidade tão valiosa.

Angor já sabia por que Prome agia de forma tão amigável com ele. Não se importava, porém. Considerava uma troca puramente benéfica melhor do que uma comunicação emocional. Além disso, Prome havia salvado sua vida uma vez, e ele pretendia se lembrar disso, mesmo que Prome tivesse seus motivos pessoais.

O complexo de Prome não era grande. Era uma área privada de tamanho semelhante à mansão de Angor. Havia também um grande porão que Prome usava como depósito. No entanto, ali só havia materiais menos importantes. Prome já havia enviado os mais valiosos de volta para a Caverna Bruta.

“Suspiro… Espero ter espaço suficiente para recuperar essas coisas rapidamente, em vez de ficar indo e vindo.”, disse Prome. “Se você encontrar algo que precise, fique à vontade para pegar, assim terei menos com o que me preocupar.”

“Com prazer.”, disse Angor com um sorriso.

“Ótimo. Leve o máximo que puder carregar. Tudo, se conseguir.” Prome acenou com o braço, agindo como se fosse rico.

“Não preciso de itens caros. Algumas Flores Eco já servem.”

Uma Flor Eco era um material bem barato, e Angor não se sentiria envergonhado se pegasse algo assim de graça.

“Flor Eco? Eu… receio não ter nenhuma aqui.” Prome ficou um pouco sem graça. “Não dá para fazer muita coisa com elas, e elas só gravam em uma certa faixa de frequência. Não dá para criar armas sonoras com elas. O uso mais comum de uma Flor Eco é para transmissores.”

“Entendo. Acho que vou dar uma olhada nas outras lojas mais tarde.”, respondeu Angor.

Com a acomodação resolvida, Prome apressou-se para procurar sua arma. Angor também planejava dar uma olhada ao redor. Mas então, percebeu que já era tarde e que só tinha dormido um pouco na aeronave, então decidiu deitar a cabeça por enquanto.

Angor e Dave dividiam dois quartos no segundo andar. Ao voltar para o seu quarto, Angor viu Dave cuidando da criança, o Servo Fantasma.

“Oh, vejo que você é bem sensível por dentro.”, Angor se encostou na porta de Dave e brincou.

Dave fez uma careta triste. ” Eu não queria isso! O mestre me pediu para fazer isso, para que a criança não morra de frio. “

“Dê a ele algo para se manter aquecido e deixe-o. Você realmente precisa ficar ao lado dele o tempo todo?”

“Por causa daquela habilidade estranha dele. Estou preocupado que ele possa escapar assim que tiver uma chance.” Dave estava realmente frustrado. Seria uma piada se um aprendiz de mago deixasse um garoto mortal escapar.

“Entendo. Aqui, eu te ajudo.”, disse Angor, entrando na sala e habilmente criando uma ilusão simples.

O cenário na sala começou a girar.

Dave observava Angor, ainda bastante chocado com a ilusão. Parecia que ele estava fazendo uma parada de mãos na sala.

“Isso é uma ilusão simples? Não sinto pressão na cabeça, senão cairia nessa fácil.”, exclamou Dave.

“Enganar meu senso de direção? Uma ilusão básica? Não foi isso que li nos livros.”

Angor esfregou a cabeça com os dedos e deu uma risadinha. “Adquiri muitas ideias novas recentemente, então sei como fazer coisas interessantes funcionarem.”

Em seguida, Angor se aproximou de Dave para ajudá-lo a escapar da ilusão. No entanto, Dave recusou.

“Espere, vou tentar sair sozinho. Quer dizer, Ilusão Melodiosa é só um Feitiço de Nível 0!” Dave pareceu não se convencer.

“Como quiser.”, Angor bocejou. “Vou para a cama agora. Com essa viajem cansei bastante hoje.”

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