“E pensar que se rebaixaria tanto assim, a ponto de até machucar um aluno, só porque não consegue aceitar sua derrota…”
“Hmph.”
Ainda sob a pressão dominadora de Donna, Gilbert ainda se manteve firme. Não importa o que fizesse, contanto que não matasse o Kevin, ele ficaria bem… e não estava errado. Ao olhar na direção onde os professores estavam agrupados, Gilbert sabia que todos teriam interferido se tivesse passado do limite.
E vendo que não fizeram nada, só significava uma coisa… ele ainda estava de boa. Abrindo um sorriso grande, Gilbert pensou cheio de si.
‘Eles não ousariam fazer nada comigo!’
Ao ver o sorriso presunçoso no rosto dele, Donna, enfurecida, gritou.
“Me responda!”
Olhando para a mulher, o loiro respondeu em voz alta com um sorriso de lado no rosto.
“E o que exatamente devo explicar? Apenas deixei minhas emoções tomarem conta de mim e acabei passando dos limites…”
Virando-se na direção da audiência, Gilbert se curvou e se desculpou. Enquanto falava, sua voz tremeu algumas vezes fazendo parecer que estava dando o seu melhor para controlar suas emoções.
“Sinto muito por terem m-me visto em tal estado. Quando v-vi o Kevin, acabei me lembrando de um amigo do passado e perdi o controle das e- emoções… Si-Sinto muito.”
Assim que ele terminou de falar, alguns segundos de silêncio se passaram. Em seguida, uma onda de aplausos e gritos de apoio tomou conta da arena.
“Nós entendemos!”
“É… foi apenas um erro.”
“Não é como se o Kevin tivesse morrido ou algo assim!”
Sentado na arquibancada, balancei minha cabeça em negação. Embora parecesse que a audiência estivesse dando apoio para Gilbert, na realidade, essas pessoas ou eram da sua facção ou pessoas que queriam algum tipo de favor deles.
E também existiam aqueles que odiavam Kevin pelo seu talento… No fim, ninguém realmente se importava com o que acontecesse com o garoto.
“Não me faça rir!”
Ainda no ar, o grito raivoso de Donna estremeceu o lugar todo. Apontado para o professor, a aura roxa em volta dela se intensificou ainda mais enquanto o espaço ao redor de Gilbert parecia congelar.
“Khh…”
“Como você pode agir de forma tão descarada?”
Donna pronta para usar uma das suas habilidades no homem, começou a juntar mana em seus olhos, porém, antes que pudesse usá-la, vários professores correram até ao lado dela.
“Donna, já chega!”
“Professora Donna, por favor, acalme-se.”
“Por favor, não faça isso, Professora Donna.”
Encarando os professores diante dela com desgosto, a aura roxa em sua volta não diminuiu nem um pouco. Pelo contrário, só aumentou ainda mais.
Enquanto suas roupas esvoaçavam no ar, Donna lançou um olhar para todos com seus brilhantes olhos cor de ametista antes de dizer.
“Ótimo! Ótimo! Ótimo! Foi a esse ponto que a nossa escola chegou? Apenas interferem quando Gilbert está em perigo, mas não fizeram nada quando ele saiu do controle e atacou o Kevin daquele jeito?”
Sob a pressão esmagadora de Donna, os professores fizeram seu melhor para aguentarem a pressão enquanto tentavam acalmá-la.
“Sim, nós vimos o que aconteceu, mas, Professora Donna, por favor, olhe à sua volta… por favor, peço para que se acalme, assim poderemos discutir sobre isso em um lugar mais privado.”
Apontando para a audiência, um dos professores tentou acalmá-la.
“O quê?”
Franzindo o cenho, Donna olhou ao redor… e foi aí que se deu conta.
Todos que assistiam estavam encarando com vários tipos de expressões em seus rostos… Admiração, medo e choque. Todo tipo de emoção podia se ver presente nas expressões de seus alunos. E na arquibancada alguns dos alunos até suavam profundamente enquanto respiravam ofegante devido a energia mágica que ela estava emanando de si mesma.
“Huuuu…”
Respirando fundo para se acalmar, Donna suprimiu seu poder e lançou um olhar afiado para Gilbert.
“Só porque estou parando por aqui não significa que irei deixar isso passar em branco…”
Quando sentiram a pressão desaparecer, alguns dos professores não puderam segurar o respiro de alívio enquanto a agradeceram.
“Obrigado, Donna.”
“Obrigada.”
“Hmph.”
Com um bufo, Donna lançou um último olhar para o loiro antes de descer lentamente e caminhar até Kevin, que naquele momento estava sendo atendido por algumas enfermeiras.
“Acho que o show acabou…”
Observando a Donna indo na direção de Kevin, levantei do banco e me preparei para ir embora.
A luta foi exatamente como tinha escrito.
Não foi uma luta ruim em geral, mas também não foi muito emocionante.
Não precisava ser um Einstein para descobrir o motivo de Gilbert ter perdido.
O motivo de ter pedido foi simplesmente porque ele estava tão concentrado em humilhar o Kevin que acabou baixando a guarda.
Como Kevin usou o [Overdrive] bem no momento que o loiro estava distraído, Gilbert foi pego de surpresa e não conseguiu se defender, resultando na sua derrota. Típico cenário, na minha opinião.
“Bom…”
Olhando de relance para Kevin, que no momento estava em cima de uma maca e sendo tratado por várias enfermeiras, seguia a multidão para fora da arena.
‘Espero vê-lo em breve, Kevin…’
***
Um sol vermelho eclipsado pairava sobre uma terra tomada pelas chamas.
-Rumble!
Os arredores estavam um absoluto caos enquanto as chamas engoliam tudo que viam pela frente.
O que antes era apenas outro dia normal em uma pequena vila, não muito longe da Cidade Ashton, acabou se transformando em uma cena de inferno.
Criaturas gigantescas com asas enormes e sorrisos diabólicos pairavam no ar enquanto assistiam com prazer os humanos serem queimados debaixo de si. A cena embaixo era a personificação do desespero.
Correndo entre as ruas quebradas e chamas ardentes, um casal carregava uma pequena criança no colo enquanto olhava para todos os lados na esperança de não chamarem a atenção de ninguém.
“Huff… Huff… Querida, rápido, por aqui.”
Virando à esquerda em um prédio, o homem que carregava uma criança de cinco anos rapidamente falou para a esposa o seguir.
Logo depois, avistando uma pequena casa à distância, o casal foi até ela correndo.
-Clank!
Usando o pé, o homem chutou a porta de madeira que dava entrada para a pequena casa e, sem demora, foi se esconder.
Colocando a criança no chão, o homem colocou um dedo sobre os lábios do menino e o olhou com uma expressão séria.
“Huff… Huff… eu quero que você não faça nenhum barulho.”
“P-pai, o que está aconte-“
“Shhhh, por favor… quero que você fique aqui em silêncio, consegue fazer isso pro pai?”
Com lágrimas escorrendo pelo rosto, a mulher cobriu a boca da criança de cinco anos e disse de forma calma.
“Por favor, não faça nenhum barulho.”
Quando a criança viu o quão sério seus pais estavam pedindo, ele apenas concordou com um gesto de cabeça enquanto se aconchegava no calor do abraço da mãe. E assim, pelos próximos cinco minutos, um silêncio absoluto tomou conta do local.
No entanto, não ficou assim por muito tempo.
-Booom!
Uma explosão que ocorreu perto da casa de onde estavam se escondendo pegou os três de surpresa. E as janelas da casa quebraram como resultado da explosão.
“Abaixem-se!”
O homem cobriu a mulher e a criança com o corpo, agachando ainda mais.
“Khhhh…Ahhhhhh”
Alguns segundos após a explosão tudo que restou foi um zumbido incessante nos ouvidos de todos. Debatendo-se de dor, as costas do homem agora estavam tingidas de vermelho, enquanto sangue e estilhaços de vidro cobriam suas costas.
“Que-Querido.”
Ao perceber a situação, a esposa começou a tremer e ergueu as mãos até a boca. Tentando dar o seu melhor para não fazer nenhum barulho, ela acariciou gentilmente as bochechas encharcadas de sangue do marido.
“Está tudo b-“
Assim quando o homem estava prestes a confortar sua esposa, começou a ouvir sons de passos vindo em sua direção. Com os olhos arregalados e ignorando a dor nas costas, sem hesitação, empurrou sua esposa para longe e gritou.
“Rápido, corram! Eu vou segurar ele!”
“Não! Johnathan!”
Com uma expressão de aflição no rosto, a esposa tentou protestar, mas o marido a empurrou para longe sem hesitar.
“Depressa! Vão!”
Depois de hesitar por um segundo, a mulher começou a correr com a criança em seus braços sem olhar para trás, saindo da casa.
“Kukuku, olha o que temos aqui…”
Assim que os dois saíram, um jovem homem de cabelos loiros apareceu do outro lado da porta.
Encarando o jovem homem, Johnathan, que estava com uma aura vermelha escura ao seu redor, gritou.
“Morra, seu desgraçado!”
…..
-Clank!
Entrando em outra casa, a mulher começou a procurar em volta por algo, até que finalmente achou um pequeno alçapão.
“Isso.”
Ao abrir o alçapão, ela logo se assustou ao perceber que o espaço só era grande o suficiente para caber uma criança.
Contudo, ao invés de desespero, uma expressão de alívio tomou conta do rosto dela.
Com um olhar de determinação, ela colocou a criança dentro do pequeno compartimento.
“Fique aqui…”
Apesar da criança tentar protestar, porque não queria se afastar do calor da mãe, ela negou com a cabeça e colocou um dedo sobre os lábios do filho, dizendo de forma carinhosa.
“Não saia daqui, está bem? Não importa o que escute, não faça nenhum barulho… por favor. Mesmo se não conseguir ver a gente, por favor, não faça nenhum barulho… a mamãe vai buscar o papai, combinado?”
“Mas mã-“
A criança olhou para a mãe e tentou dizer alguma coisa. Antes que pudesse falar, porém, ela cobriu sua boca com a mão, balançou a cabeça e implorou.
“Por favor, escuta a mamãe.”
Com lágrimas escorrendo pelas bochechas, a criança finalmente assentiu com a cabeça. Embora não entendesse o que estava acontecendo, ele permaneceu quieto o tempo todo. Ele quis chorar tantas vezes… mas, ao lembrar da angústia estampada no rosto dos pais enquanto corriam pelas ruas, soube que precisava conter as lágrimas com todas as forças.
Abrindo um sorriso para o garotinho, a mulher acariciou delicadamente sua bochecha antes de se despedir dele pela última vez com todo o amor do seu coração.
“Obrigada… mamãe e papai amam muito você, lembre-se disso.”
-Clank!
Assim que a porta foi fechada, a visão do garoto se escureceu. Poucos minutos depois do alçapão ser fechado, explosões abafadas começaram a ecoar não muito longe do esconderijo onde ele estava.
Aquilo continuou por alguns minutos antes de parar. Pouco depois, um silêncio mortal passou a dominar os arredores.
Agachando no chão, o garotinho cobriu ambas as orelhas com as mãos enquanto lágrimas escorriam pelo seu rosto.
“Mãe-p-pai, por favor, cadê vocês…”
“Ahhhhhhh… Huff… Huff… Hufff.”
Kevin acordou em um pulo puxando o ar desesperadamente enquanto segurava com força a camiseta branca que vestia. Sentindo algo molhado debaixo de si, Kevin viu que o lençol da cama estava todo encharcado de suor.
“Que merda…”
Cobrindo os olhos, Kevin viu passar pela sua cabeça as memórias do tempo que havia perdido tudo que tinha.
O dia que havia perdido seus pais…
Naquele dia, ele só conseguiu assistir seus pais sacrificando suas vidas por ele… E por mais que tivesse a sensação de que eles nunca mais voltariam… ele ainda esperou. Com cinco anos de idade naquele tempo, ele esperou por horas dentro daquele espaço escuro. Esperou desesperadamente pelos seus pais voltarem para buscá-lo… No entanto, infelizmente, quem achou ele não foi os seus pais.
Aquele sentimento…
Aquele sentimento que pensou que nunca mais sentiria novamente, ressurgiu no momento que viu o punho de Gilbert vir em sua direção. Ele não pôde fazer absolutamente nada. Se não tivesse sido pela intervenção, ele estaria seriamente ferido agora.
“Eu.. preciso ficar mais forte!”
Com o desejo de ficar mais forte revigorado, Kevin fechou os punhos com força. Aquele momento de fraqueza que sentiu ao enfrentar Gilbert naquela hora… ele não queria se sentir daquela forma nunca mais!
E enquanto fazia seu melhor para acalmar seus nervos, acabou-se lembrando de uma conversa que teve há alguns dias.
‘Eu não disse a você que queria lhe fazer uma proposta?’
Lembrando-se daquelas palavras, Kevin expirou fundo.
“Huuuu…”
Depois de um tempo, cerrando os dentes com força, Kevin chegou a uma conclusão: “Não quero mais sentir isso… nunca mais!”
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