Normalmente, Jason jamais permitiria que alguém além de sua família e Gina o tocasse daquele jeito, mas abria uma exceção para a diretora por causa da história que os dois compartilhavam.
Jason conheceu a senhorita Harold quando trabalhava meio período como mecânico no lado oeste da cidade. Naquele dia, o carro dela havia quebrado no meio de uma estrada deserta, e Jason a encontrou chorando. Ele estava entregando um carro para um dos clientes da oficina, mas não conseguiu simplesmente deixá-la ali e parou para ajudar.
Pelo que ela explicou, tinha uma reunião em trinta minutos, e o celular estava sem sinal, então não conseguia chamar ninguém para buscá-la. Jason tentou ligar para alguém também, mas percebeu que também estava sem sinal. A oficina mais próxima ficava a quase uma hora de distância, então não havia nenhuma chance de levar o carro até lá e consertá-lo a tempo. Jason verificou o motor para ver se podia resolver o problema, mas percebeu que a junta havia queimado. Teria de substituí-la para o carro voltar a funcionar direito, e ele não tinha ferramentas para isso.
A senhorita Harold já começava a lacrimejar de novo quando percebeu que ele não podia fazer nada. A reunião era muito importante para ela, pois decidiria se receberia uma promoção. Chegar atrasada seria o mesmo que dizer que não era adequada para o cargo.
Depois de ouvir a história, Jason decidiu que não a abandonaria. Ele estava entregando um carro, mas tinha certeza de que o dono não se importaria se o veículo chegasse um pouco mais tarde. Jason mandou a senhorita Harold entrar no carro e a levou por mais de metade da cidade como um louco para fazê-la chegar a tempo. A senhorita Harold se segurou com todas as forças e temeu pela própria vida durante boa parte do trajeto, mas as piadas secas de Jason e seus xingamentos contra os outros motoristas nunca deixaram de fazê-la rir.
Jason conseguiu levá-la à entrevista por muito pouco. Depois, pediu a chave dela para chamar um guincho para o carro. A senhorita Harold normalmente ficaria desconfiada de entregar a chave a um desconhecido completo, mas, depois do que ele fizera por ela, não conseguiu deixar de confiar nele. Eles trocaram números, ela lhe entregou a chave e entrou para a entrevista.
Felizmente, a entrevista correu bem. Quando terminou, a senhorita Harold ficou surpresa ao encontrar Jason esperando por ela do lado de fora do prédio com o carro. Ele havia conseguido consertá-lo tão rápido e devolvê-lo imediatamente? Aquilo era incrível.
A senhorita Harold não conseguiu se impedir de dar em Jason o abraço mais apertado que já dera em alguém na vida. Naquele momento, chegou a sentir vontade de beijá-lo. Agradeceu inúmeras vezes, e Jason disse que estava tudo bem. Ele lhe entregou as chaves e se preparou para ir embora, mas ela o impediu de imediato e disse que precisava pagar pelo que ele havia feito. Jason tentou dispensar, dizendo que trocar a junta era simples e não era nada demais, mas ela foi irredutível. Não o deixaria ir embora a menos que aceitasse alguma forma de retribuição.
Foi assim que Jason e a senhorita Harold acabaram jantando juntos em outra ocasião. Eles se tornaram amigos rapidamente, e a senhorita Harold passou a se sentir cada vez mais atraída por ele.
Mas tudo isso terminou no instante em que descobriu a idade de Jason. Ele tinha apenas dezesseis anos e também era aluno da escola dela.
A senhorita Harold ficou chocada além das palavras. Era impossível aceitar aquilo à primeira vista, porque Jason não parecia ter a idade que tinha. Ele aparentava pelo menos vinte anos. Mas, quando viu o documento de identidade e os registros no escritório da escola, percebeu que quase havia se apaixonado por um estudante do ensino médio.
A senhorita Harold sabia que Jason a via apenas como amiga, mas também sabia que qualquer envolvimento além disso seria errado e perigoso. Se alguém sequer desconfiasse do que ela sentia, sua vida inteira poderia desmoronar.
Depois de descobrir a idade dele, a senhorita Harold colocou certa distância entre os dois e garantiu que ninguém na escola soubesse que eram próximos. Mas, quando soube que Jason havia sido arrastado para o Portal Vermelho, o medo em seu coração quase a matou. Ela achou que nunca mais o veria, e aquele foi o primeiro dia em anos em que rezou tanto. Só começou a se acalmar quando recebeu a notícia de que ele havia sobrevivido.
A senhorita Harold apertou o abraço ao redor de Jason antes de falar em voz baixa.
— Eu achei que você tinha morrido, Jason.
Jason soltou outra risada baixa enquanto dava tapinhas nas costas dela.
— Não se preocupe comigo. Eu não morreria para um mero Portal Vermelho.
A senhorita Harold não conseguiu deixar de rir junto com ele ao ouvir aquilo. Jason sabia que não era o melhor lidando com mulheres, mas, felizmente, tinha prática suficiente por cuidar de Gina todos aqueles anos. Sabia que a senhorita Harold ficaria bem depois de colocar as emoções para fora.
Quando ela pareceu se recompor, finalmente se afastou e o observou com um sorriso gentil.
— Pensei em ligar antes, mas imaginei que você estaria ocupado com o SMD e com as guildas tentando recrutá-lo. Nem achei que voltaria para a escola. Eu… fico feliz que esteja bem.
Jason assentiu e agradeceu. Era bom saber que uma amiga havia se preocupado com ele. Ele murmurou baixo enquanto um curto silêncio se estendia entre os dois. A senhorita Harold ainda o segurava pelos ombros, e ele precisou falar alguns segundos depois.
— Ferdinand disse que a senhora queria me dizer alguma coisa…?
— Ah…! Ah, claro, desculpe! Por favor, sente-se.
A senhorita Harold pareceu despertar de um transe quando Jason falou. Rapidamente lhe indicou uma cadeira e voltou para o próprio lado da mesa. Balançou a cabeça para si mesma, respirou fundo e soltou um suspiro para se acalmar. Precisava se controlar. Por um instante, estivera a um passo de fazer algo impulsivo.
A senhorita Harold se recompôs e finalmente assumiu por completo sua postura de diretora.
— Fico feliz que tenha vindo me ver com tão pouco aviso, senhor Jason. Eu estava preocupada que não o visse de novo dentro destes muros, mas fico feliz que tenha decidido concluir o ano. Eu não gostaria de perder um aluno tão brilhante.
Jason teve de se esforçar para manter a expressão séria quando a diretora começou a falar com ele daquele jeito tão formal. A senhorita Harold já havia dito a Jason que precisavam manter uma separação clara entre a amizade pessoal e a relação profissional. Isso significava que ela não falaria com ele como amiga enquanto estivesse lidando com assuntos da escola. Jason respeitava essa decisão e tratou de não interromper o ritmo dela enquanto estivesse no “modo diretora”.
A senhorita Harold sorriu, inclinando-se para a frente com as mãos unidas, e Jason devolveu o sorriso com calma. Ela sabia tudo sobre a situação da família de Jason e o quanto ele precisava de dinheiro em casa. Era por isso que trabalhava como mecânico anos atrás, e também por isso ela não o obrigou a parar de trabalhar quando descobriu que ele ainda era estudante. Portanto, não ficaria surpresa se ele abandonasse a escola e entrasse em uma guilda para começar a ganhar dinheiro assim que se tornasse super-humano. Ficaria decepcionada, mas não o condenaria por isso.
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