Tradutor: FlorestNerd
Por muito tempo.
Mas repleto de prazer.
Ela sentiu como se tivesse retornado ao campo de batalha de 400 anos atrás. Mas, desta vez, não precisava se preocupar com a dor do fracasso nem ver seus amigos morrerem em seus braços. Estava livre do pesado fardo da responsabilidade.
O melhor de tudo era que tanto ela quanto o demônio podiam sentir dor. A dor tornava a luta real.
“Mulher… Tenho que dizer que você fez um bom trabalho”, disse Kabradhabi enquanto jogava o braço decepado de Zooey no chão. “Embora você seja um inseto, é muito mais forte do que a maioria da sua espécie. Eu realmente não escolhi a pessoa errada. Seu desempenho me agrada!”
“Verdade?” Zooey respondeu vagamente, antes de cuspir um pedaço de carne da boca. “Infelizmente, sua carne tem um gosto nojento.”
Era o quinto dia desde que a batalha começou… ou o sétimo? Era difícil estimar a passagem do tempo sem o sol, a lua e as estrelas, então ela só podia fazer uma estimativa com base nas reações naturais de seu corpo.
O tempo ali parecia seguir um ciclo. Por exemplo, a sede e a fome desapareciam repentinamente quando se tornavam intensas e depois reiniciavam. Era sensato considerar esse ciclo como um dia. Caso contrário, seria impossível para duas pessoas lutarem durante anos. Elas perderiam as forças e seriam incapazes de se mover em poucos dias.
Ela sentiu uma dor aguda no braço onde havia sido decepado.
Era, obviamente, uma batalha injusta. O demônio podia criar uma espada longa com seu poder mágico, enquanto ela só tinha os braços, as pernas e os dentes.
Mas Zooey não se importava se era justo ou não.
Porque a vitória ou a derrota não eram importantes.
No antigo campo de batalha, ela precisava matar o inimigo e proteger a si mesma, mas não aqui. Ali, os membros decepados se regeneravam. Não importava o quão gravemente fosse ferida, ela não perderia a consciência. Sem a morte, a dor se tornava eterna.
Não era necessário usar uma espada para causar dor.
Ela percebeu que era a primeira vez que o demônio tomava a iniciativa de diminuir o ritmo e conversar.
“Mas sua persistência não faz sentido”, disse o Demônio Sênior, enquanto pressionava o próprio ombro ferido. A ferida sangrenta cicatrizou rapidamente. “Ataques como esse não são nada para mim. Se você pretende me morder, temo que ficará desapontada. Vou arrancar seus dentes um por um e depois fazer você engoli-los. Prepare-se para isso!”
“Mas você ainda sente a dor, não sente?” Zooey ofegou enquanto observava seu braço se regenerar. “A propósito, eu gostaria de perguntar mais uma coisa. Essa dor lhe parece familiar?”
“Mulher, o que você quer dizer?”
‘Tenho que ter paciência. Não posso deixar que ele veja meu entusiasmo, pois isso reduzirá a diversão…’
Apesar disso, ela ainda não conseguiu conter o riso.
“Quando você estava meio morto, devia sentir isso todos os dias…” Ela apontou para a própria omoplata. “Ser esfaqueado aqui e ter a carne cortada. Pelo quanto seu corpo tremia, você não devia estar se sentindo muito bem. Ah, e esqueci de avisar: quem cuidou de você durante todo o caminho fui eu.”
“Inseto!” Kabradhabi ficou furioso e ergueu a espada, rosnando: “Eu vou te esmagar!”
O décimo sexto dia… ou talvez mais.
O chão escuro estava coberto de sangue, principalmente marrom-avermelhado, com algumas manchas azul-escuras.
Além disso, membros decepados, órgãos internos e, claro, dentes estavam espalhados por toda parte. Embora as partes perdidas se regenerassem em pouco tempo, o sangue e os pedaços espalhados não desapareciam. Naquele ambiente, eles escorregavam repetidamente. Mas, graças a isso, Zooey conseguiu duas armas: um dos próprios ossos da coxa e metade da coluna vertebral do demônio.
O primeiro era como um martelo curto, e o segundo podia ser usado como uma espada. Contanto que não atingissem diretamente a espada mágica do demônio, eram bastante úteis.
Quatrocentos anos foram tempo suficiente para torná-la especialista em todos os tipos de armas. E seu lugar favorito para atacar continuava sendo o ombro.
Às vezes, a dor não estava relacionada ao tamanho da ferida.
“Se estiver cansado, pode fazer uma pausa agora”, disse Zooey, pendurando a coluna na cintura enquanto movia os pulsos dormentes. “Afinal, você ainda precisa me torturar por muito tempo. É melhor descansar o quanto precisar.”
“…”
Pela primeira vez, o demônio não respondeu.
Seu peito arfava enquanto respirava profundamente, e seus olhos escarlates encaravam a Extraordinária. O desprezo inicial havia desaparecido de seu rosto humano.
Sua vantagem física permanecia inalterada. As várias habilidades de um Demônio Sênior garantiam sua posição superior naquela luta. Zooey precisava pagar várias vezes mais caro por cada ataque desferido. Sempre que cometia um erro, sofria por muito tempo. Não era incomum terminar com os dedos quebrados ou o abdômen dilacerado.
Mesmo assim, a atmosfera da batalha havia mudado gradualmente.
Zooey pareceu não notar o silêncio dele.
“Deixe-me perguntar… Este espaço foi criado por você?”
O demônio provavelmente precisava descansar por mais um momento.
“Este é um fluxo de consciência, uma combinação de poder mágico e alma. Não precisa ser criado por ninguém. É difícil para um inseto como você entender. Quase ninguém tem a chance de entrar no fluxo da consciência.”
“Eu já vi um muito maior, tão completo quanto um mundo real”, ela o interrompeu. “Havia árvores, céu e terra. Não era como aqui. Aqui não há nada.”
“Bobagem, mulher!” O demônio rugiu. “Você não faz ideia de quanto poder mágico é necessário para construir entidades no fluxo da consciência, muito menos um mundo completo! Só a Fonte da Magia pode fazer isso!”
“É a Fonte da Magia de novo… É como o domínio das divindades, uma ilusão. Ninguém esteve lá, mas todos falam como se tivessem visto.”
“Isso está gravado na herança. Mas você não saberia nada sobre isso!”
“Então pode elaborar melhor e apresentar algumas evidências para me convencer?”
“Você acha que eu sou um idiota?” Kabradhabi enfureceu-se. “Como poderia eu, lorde Kabradhabi, cair em uma técnica tão desajeitada…”
Antes que terminasse a frase, uma “lança” atravessou sua cabeça.
A lança branca era a coluna vertebral que Zooey havia arremessado.
“Já que você não quer dizer nada, então o descanso acabou. Quando decidir falar sobre isso, poderemos descansar de novo.”
Ela empunhou o osso da coxa e correu em direção ao demônio cambaleante.
Dezenas de dias depois.
“Por quê?”, perguntou Kabradhabi, que havia perdido completamente seu ímpeto inicial.
Ele mantinha a Espada Mágica diante do peito, olhando para Zooey como se ela fosse um monstro.
“Por que você não tem medo da dor?”
“A guerra de 400 anos atrás me acostumou a ela, enquanto hibernar por 400 anos me fez esquecê-la. Se você recuperasse algo que sempre o acompanhou, teria medo disso?” Zooey ergueu os lábios em um leve sorriso. Naquele momento, ela não precisava mais esconder seus sentimentos. “Na verdade, tenho que agradecer. Você compensou aquilo que o rei Roland não pode me proporcionar.”
“Você é maluca!”
“Isso é apenas um breve instante comparado a centenas de anos. Agora é a sua vez de me agradar.”
Quando Zooey mais uma vez enfiou os dedos no peito do demônio, a visão à sua frente de repente se distorceu. O sangue, a carne e as partes dos corpos se transformaram em nada, e uma forte sensação de tontura a dominou.
Quando abriu os olhos novamente, viu a cúpula do salão da Terceira Área Fronteiriça.
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