Um silêncio estranho caiu sobre a quadra, com o único som audível sendo o da bola quicando contra a superfície da quadra.
No centro dessa estranha atmosfera, eu forcei minha consciência fundo, bem fundo para dentro de mim.
Eu posso fazer isso… Eu posso fazer isso… Eu posso acreditar em mim mesmo. Não, eu acredito em mim mesmo.
Afinal, não haviam razões para eu perder aqui.
Eu era um homem que havia sobrevivido a essa sem sentido, triste e dolorosa vida escolar por minha própria conta, que tinha vivido essa agonizante e miserável “juventude” por minha própria conta. Não havia nenhuma razão para que eu perdesse para pessoas que precisavam de uma multidão a cada passo que davam em seu caminho.
A hora do almoço acabaria logo.
Esse normalmente seria o momento em que eu estaria acabando de comer meu almoço ao lado da enfermaria, em frente a quadra.
A memória de falar com Yuigahama ali e de papear com Totsuka pela primeira vez, também ali, passaram pela minha mente.
Eu forcei meus ouvidos.
Eu não escutava a voz desdenhosa de Miura. Eu não escutava a torcida vinda do público…
Mas eu escutava aquele som… Aquele som que eu, e provavelmente apenas eu, havia escutado por um ano inteiro.
Naquele momento, eu fiz o service.
Foi um fácil, fraco e leve serviço, o qual voou para o alto no céu.
Eu vi Miura correr alegremente para a bola. Eu vi Hayama rapidamente segui-la. Eu vi o público olhando com desapontamento. Eu peguei um vislumbre de Totsuka levemente olhando para o chão. Eu gastei um olhar em vão olhando Zaimokuza apertar os punhos. Eu fiz contato visual com Yuigahama quando ela começou a rezar. E então, meus olhos encontraram o sorriso triunfante de Yukinoshita.
Meu service seguia uma trajetória instável, incerta.
「Hyahhh!!」
Miura soltou um grito igual ao de uma cobra e chegou ao local em que a bola iria cair.
Nesse exato momento, uma rajada de vento soprou.
Miura, você provavelmente não sabe…
… sobre essa brisa marítima especial que aparece perto do fim do horário de almoço, apenas na Escola Soubu e em seus arredores.
A bola foi completamente abalada e varrida por esse vento. Ela fugiu de Miura e bateu na borda da quadra, mas Hayama já estava correndo para a bola.
Hayama, você provavelmente não sabe…
… que esse vento não sopra apenas uma vez.
Eu era o único que sabia disso. Eu, que por um ano inteiro havia sentado sozinho, sem falar com ninguém, apenas passando meu tempo em silêncio… E esse vento era o único que sabia sobre esse tranquilo tempo que eu havia passado sozinho.
E assim, essa era a milagrosa bola curva que eu, e apenas eu, poderia lançar.
A segunda rajada de vento varreu a bola ao mesmo tempo que a jogava para trás.
Assim, a bola caiu no chão, no mesmo canto da quadra, e rolou para longe.
As bocas de todos estavam caladas, seus ouvidos estavam esticados e seus olhos arregalados.
「Ah, agora eu me lembro de algo que ouvi… Existe uma habilidade que permite ao usuário controlar o vento como bem quiser: “Sucessor do Vento, Eulen Sylpheed!”.」
Zaimokuza parecia ser o único a não entender a atmosfera e gritava bem alto. Não dê nomes aleatórios a esse movimento, caramba… Você está estragando completamente o clima.
「Im-impossível.」
Miura parecia completamente chocada. Seus murmúrios pareceram ter ligado o público. Eles começaram timidamente, mas logo suas vozes tímidas se transformaram em exclamações de “Eulen Sylpheed!”, “Eulen Sylpheed!”. Deus, por favor, não permita que isso pegue…
「Nós falhamos… Essa com certeza foi uma bola curva milagrosa.」
Hayama me olhou e deu um sorriso brilhante. Ele estava sorrindo como se nós fossemos amigos há anos… Enquanto eu encarava aquele sorriso diretamente, eu segurei a bola com mais força e fiquei ali, sem fazer nada.
Eu realmente não sabia como responder em situações como essa.
Então, ao invés disso, eu apenas iniciei uma conversa inútil.
「Hayama. Você jogou Baseball quando era mais novo?」
「Oh, sim. Eu joguei várias vezes… Então o que foi?」
Hayama parecia confuso com a pergunta que eu havia feito subitamente, mas ele ainda me respondeu diretamente. Ele realmente devia ser uma boa pessoa…
「Com quantas pessoas você jogava?」
「Hum…? Se você não tiver todos os dezoito jogadores, então você não pode jogar Baseball.」
「Sim, isso é o que eu pensava… Mas, sabe, eu jogava sozinho o tempo todo.」
「Hum? O que quer dizer?」
Hayama me devolveu a pergunta, mas não acho que ele entenderia mesmo se eu dissesse a ele.
Eu não queria dizer apenas Baseball de um homem só.
Você é uma pessoa que, honestamente, conheça a dor de andar de bicicleta sozinho, feito um idiota, durante os verões quentes e suados e nos invernos devastadoramente frios? Todas aquelas coisas das quais você reclamou com os seus amigos, “está muito quente, está muito frio, isso é terrível”, eu passei por mim mesmo.
Como se você pudesse saber… Como se você pudesse entender o medo de não perguntar a ninguém sobre o conteúdo de um teste que se aproxima e, ao invés disso, ter que estudar sozinho, e então, enfrentar as consequências diretamente depois. Você poderia ir ainda mais além, checando as respostas uns com os outros, comparando os resultados dos testes, chamando uns aos outros de idiotas ou de gênios ou escapando da realidade, enquanto eu encarava a realidade de frente.
O que você acha disso? Eu não pareço ser o mais forte?
Tomado por aquelas emoções, eu me preparei para dar o service.
Inclinei uma perna para frente e tencionei a outra, posicionando meu corpo em um arco totalmente desenhado. Então, eu lancei a bola para o ar. Segurei firme minha raquete com as duas mãos e a descansei na parte de trás do meu pescoço.
O céu azul, a primavera que se despedia e o verão que se aproximava… Eu iria pegar todas essas coisas e as enviaria para o inferno.
Com toda a minha força, quando a bola caiu na minha direção, eu a rebati no meio do ar com um movimento ascendente.
A bola fez um *crack!* quanto tocou diretamente na parte quadriculada de minha raquete e voou pelo ar, sendo engolida pelo céu azul.
A bola seguiu se afastando e se afastando. Em certo ponto, a bola parecia uma partícula ainda menor que um grão de arroz.
「Is-isso é… O espírito da destruição que se ergue até os céus, ‘Meteor Strike’!」
Zaimokuza inclinou-se e gritou alto. Novamente, por que diabos você está nomeando minhas rebatidas?
「“Meteor Strike…”」
As outras pessoas da plateia também começaram a sussurrar isso. Sério, por que vocês estão concordando com ele?!
Isso não era realmente grande coisa… Era apenas um jogo de rebatidas e capturas. Deixe-me explicar: Quando eu era criança, eu não tinha amigos e, então, eu inventei um novo esporte, o Baseball-de-um-homem-só. Eu mesmo iria arremessar a bola, rebate-la e capturá-la por mim mesmo. Quando eu tentei elaborar um meio de fazer o jogo durar o maior tempo possível, eu percebi que o super rebate-e-captura era a melhor forma de prolongar o jogo.
Se eu pegasse a bola, então o rebatedor estaria fora e se eu perdesse a bola a princípio, mas a capturasse em um salto, então era um ponto. Se eu rebatesse a bola para muito longe, eu contaria isso como um home run. O único ponto fraco desse jogo era quando eu decidia torcer por um dos lados (ou o rebatedor ou o catcher), então o jogo passaria a ser completamente unilateral. Para jogar esse jogo, era importante ser completamente objetivo, como se eu estivesse jogando pedra, papel e tesoura comigo mesmo. Meninos e meninas, por favor não aprendam comigo. Joguem Baseball com os seus amigos.
Mas este era o símbolo do meu isolamento e também era minha arma mais poderosa. Era uma bola forte, que iria cair na parte vazia da quadra e esmagar completamente esses dois tolos que glorificavam a juventude.
「O-o que diabos é isso?」
Miura olhou para o céu, perplexa. Hayama também olhou para o céu brilhante, mas a expressão dele logo se transformou em pânico quando ele gritou.
「Yumiko! Volte!」
Hayama gritou para Miura, que agora estava parada, sem fazer nada, com o olhar de choque ainda em seu rosto. Como esperado, Hayama notou o que estava acontecendo… Mas já era tarde.
A bola de Tênis continuou subindo, mas gradualmente perdeu velocidade devido a influência da gravidade, até que as duas forças ficaram em equilíbrio e ela parou.
E então, quando o equilíbrio foi quebrado, a energia potencial da bola transformou-se em energia cinética. A bola começou uma queda livre. Com o impacto, a energia explodiu.
Depois de sua longa, longa viagem através do céu, a bola ricocheteou, fazendo uma nuvem de poeira subir e, mais uma vez, voltou para o ar.
Miura perseguiu a bola através da nuvem de poeira com passos incertos, tentando rebate-la. A bola voou sem firmeza na direção da cerca de arame no fundo da quadra.
— Oh merda… Miura estava indo direto na direção da cerca.
「Ugh!」
Hayama largou sua raquete e correu na direção de Miura.
Será que conseguiria!? Será que ele não conseguiria!?
Os dois desapareceram por um instante dentro da nuvem de poeira.
Houve um momento de profundo silêncio.
Escutei o barulho de alguém engolindo… Na verdade, pode ter sido eu mesmo.
E então, a nuvem de poeira desapareceu e os dois voltaram a ser vistos.
As costas de Hayama haviam colidido com a cerca. Ele estava abraçando Miura para protegê-la. O rosto de Miura estava vermelho enquanto ela agarrava com firmeza a camisa de Hayama.
No momento seguinte, o público explodiu em uma salva de palmas estrondosa. Era uma aclamação unânime.
Hayama estava confortavelmente acariciando a cabeça de Miura, cujo rosto ficava cada vez mais vermelho.
Ainda gritando, o público cercou Hayama e Miura.
「Vai, HA・YA・TO!! Vai, HA・YA・TO!!」
No lugar de uma fanfarra de celebração, o sino tocou, sinalizando o fim do horário de almoço. É sério, realmente parecia como se estivéssemos indo da cena do beijo direto para os créditos finais.
No fim, todos estavam envolvidos por um certo sentimento de realização e de exaustão, como se tivesse acabado de assistir a um filme épico ou acabado de ler uma soberba comédia romântica juvenil.
E assim, com gritos de “Hip hip hurra!”, os estudantes ergueram os dois e desapareceram dentro do prédio escolar.
FIM.
Que merda.
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