Livro dos Mortos Cap. 71 — Partida

Tyron jogou a última pilha na carroça, mas gemeu e esfregou as costas. Sua constituição podia tê-lo fortalecido além do que era humanamente possível, mas sua força permanecia lamentavelmente baixa.

— É por isso que você usa os esqueletos para fazer o trabalho pesado — avisou Dove de cima de um dos postes que se erguiam do canto traseiro da carroça. — Você é um Mago, é indigno de levantar coisas. Temos lacaios e aliados com foco em força para o trabalho braçal.

— Ainda estou esperando minha magika recarregar completamente — Tyron fez uma careta.

As consequências de usar o cristal arcano em excesso eram desagradáveis, e a redução na reposição de energia era a menor delas. Temporariamente, seu corpo estava efetivamente intolerante à magika, o que não era nada bom, considerando que constantemente possuía um reservatório cheio dessa substância dentro do seu corpo. Contanto que fizesse seu melhor para queimar a energia e reduzir a taxa de consumo, os sintomas seriam minimizados.

Se tivesse ficado inconsciente, como da primeira vez, incapaz de se livrar deliberadamente da energia, teria corrido o risco de morte de novo. Ele tinha que agradecer a Munhilde por tê-lo tirado da situação desta vez.

Havia passado pelo pior e agora estava pronto para se recuperar, por isso estava tentando reduzir a quantidade de movimentos que seus lacaios precisavam fazer.

— Então é só isso? — perguntou Dove.

— Isso mesmo — Tyron limpou a poeira das mãos —, estamos prontos para partir a qualquer momento.

— É melhor você ir se despedir então. Parece que vieram dizer adeus a você.

Tyron se virou para ver as mulheres e crianças se reunindo do lado de fora das casas. Ele gemeu, já que não se sentia confortável com aquilo, mas Elsbeth e Munhilde também estavam ali.

Ao ver que não haveria como evitar a situação, ele caminhou de volta para o pátio e ficou parado estranhamente por um instante, incerto se deveria ser o primeiro a falar.

No entanto, foi Annette quem quebrou o silêncio.

— Nós queremos agradecê-lo — disse ela —, se não fosse por sua ajuda… provavelmente estaríamos todos mortos.

O Necromante deu de ombros, nervoso.

— Isso, ah… sem problemas — disse ele. — E ainda não acabou. Vocês precisam ser… uh… cuidadosas — concluiu sem jeito.

— Nós sabemos — assentiu uma viúva de meia-idade. — Vamos ficar de guarda. Aqueles bastardos não vão levar nada além de flechadas se voltarem aqui.

Ele não duvidava. Então, virou-se para sair, mas hesitou.

— Quando os Exterminadores chegarem aqui… — ele começou a falar.

— Não diremos nada — ela o assegurou, com o rosto determinado. — Depois de tudo o que você fez por nós, não vamos denunciá-lo.

Ele ficou tocado com o sentimento, mas não queria que essas pessoas morressem em seu lugar.

—… Tenham cuidado — disse ele —, se forem pegos mentindo, vocês estarão mortas. Eles podem… uh… sentir a magika usada aqui, então vocês não ganharão nada por tentar me esconder.

Um pouco de incerteza surgiu no olhar dela, e ele tentou sorrir, para deixá-la saber que estava tudo bem, mas parecia mais uma careta. Então, aproximou-se de Elsbeth.

— Foi bom te ver de novo, “Beth” — disse ele. — Estou feliz que as coisas… tenham dado certo para você.

A garota loira exibiu um sorriso de tristeza.

— Espero que tudo dê certo para você também — disse ela, dando um passo à frente para abraçá-lo.

Ele deu um leve tapinha nas costas dela com um braço.

— Você é uma raridade — disse Munhilde quando Elsbeth o soltou. — Um Mago ilegal em fuga. Você conseguiu ganhar níveis sem receber a marca.

Eles não gostam disso. Eles vão atrás de você com ainda mais força.

— De quem… especificamente você está falando? Os Exterminadores?

— Eles também — Munhilde fez uma careta. — Você precisa de ajuda se quer sobreviver. Chame os três quando estiver pronto, eles cuidarão de você.

‘Aposto que irão’, resmungou ele, internamente.

Ele não confiava em si mesmo para não dizer algo de que se arrependeria à Sacerdotisa, ele não tinha vontade de antagoniza-la ou seus patronos, então simplesmente assentiu e se virou. Caminhou de volta para a carroça e não se virou ao subir na parte de trás, enquanto seus lacaios restantes assumiam o fardo e começavam a levá-lo de volta ao leste.

Ele tinha feito algo bom ali, ajudando pessoas que não estavam em posição de se ajudarem. Ele desejava que não tivesse sido forçado a matar pessoas, mas não se arrependia disso.

— Bem, no fim, tudo deu muito errado — comentou Dove de seu poleiro — embora você provavelmente tenha o que precisa. Pronto para deixar de ser um pedaço de merda?

— Então você acha que eu alcancei? — perguntou Tyron. — Que eu alcancei meus objetivos?

— Acho que depois de trazer ao mundo a próxima rodada de ossudinhos, você terá feito o suficiente. Mais do que suficiente.

Tyron olhou para as pilhas de ossos que havia colocado na carroça. Elas ainda estavam “cozinhando”, por assim dizer, pois ainda não estavam totalmente saturadas com magika de Morte. Ele esperava ficar e terminar seu trabalho na fazenda, mas não tinha tempo. Depois de falar com Elsbeth na noite passada, ele imediatamente começou a fazer os preparativos para sair.

Seu desejo de ficar apenas havia se fortalecido depois de passar um tempo com ela, e ele reconhecia e temia esse impulso. No entanto, não perderia a chance de agarrar o destino para perseguir sua antiga paixão. Elsbeth tinha seu próprio caminho e estava o trilhando bem. Ele teria que fazer o mesmo.

— Acho que vou trabalhar em algumas coisas enquanto viajamos — disse ele. — Em alguns dias, podemos parar, criar os lacaios e checar meu Status.

— Isso deve nos dar espaço suficiente — resmungou Dove —, contanto que cheguemos longe o suficiente nas colinas, não devemos ter problemas com os Exterminadores e marechais. Eles não ligam para nada além de um certo ponto. Você queria voltar para aquela vila de antes?

— Não. Precisamos ir para um lugar novo — disse Tyron —, não estou satisfeito que aquele lugar seja remoto o suficiente.

— Caralho. Mais remoto que aquilo?

O Necromante segurou com força a bolsa amarrada em sua cintura.

— Precisamos ficar muito longe de qualquer pessoa com sentidos para detectar o que estamos fazendo.

— Conseguiu alguns rituais que quer conjurar?

— Talvez.

—

Em outro lugar

Rufus limpou o sangue de sua espada na grama antes de inspecionar seu gume. Ele precisaria limpá-la de forma adequada quando voltasse ao acampamento, mas era importante não deixar líquidos secarem no metal. Satisfeito, guardou a arma na bainha.

Ao seu redor, várias outras pessoas da academia faziam o mesmo, cuidando dos seus equipamentos, procurando por núcleos e retirando flechas dos cadáveres.

— Você conseguiu algumas mortes, Rufus? — uma voz o chamou de trás.

Laurel caminhou até ele por entre as árvores, com os olhos procurando por alvos. Ela era outra pessoa quando estava na natureza, onde todos os sinais de seu comportamento lânguido habitual eram substituídos por uma eficiência fria e deliberada.

— Três — disse ele. — E você?

— Cinco — respondeu ela, com um brilho satisfeito nos olhos. — A experiência provavelmente não é grande, mas vai ajudar a acelerar meu crescimento.

Ele assentiu.

— Para ser honesto, eu esperava que houvesse mais deles — disse ele, apontando com a mão para os corpos das criaturas das fendas que estavam na área. — Para nossa primeira aventura contra os monstros, isso foi um pouco decepcionante.

Laurel zombou.

— Você realmente acha que eles iriam nos mandar para algum lugar difícil? Para lutar contra criaturas perigosas? Eu não ficaria surpresa se alguns pratas já tivessem explorado esta área e estivéssemos eliminando as sobras. Mesmo assim, devemos ser gratos.

Ela caminhou até uma das criaturas que jazia morta no chão e pisou em seu corpo antes de retirar uma flecha do corpo. Inspecionou a cabeça da flecha com atenção antes de limpá-la e armazená-la em sua aljava.

— Normalmente, não teríamos essa oportunidade antes de avançar nossa Classe, ficando presos na academia por um ano. Essa pequena viagem vai encurtar nosso treinamento em meses.

Rufus fez tilintar a bolsa em sua cintura.

— E ganhar um pouco de dinheiro no processo — sorriu.

Laurel o olhou com o mesmo olhar ponderado. Essa viagem tinha sido boa para Rufus, ele estava ficando carente e emotivo, o que não era normal para ele. Ele esteve tanto tempo focado em seu objetivo, que talvez finalmente estar caminhando em direção a ele o tivesse desviado do caminho. Agora que ele estava de volta ao caminho certo, seus olhos queimavam com uma nova confiança.

— Você acredita no que eles disseram? Sobre Tyron? — perguntou ela.

Qualquer satisfação desapareceu do rosto dele com a menção desse nome e ele se aproximou pisando com força.

— Mantenha sua voz baixa! — rosnou ele. — Quer que os outros saibam que temos alguma relação com ele?

— Não seria ilegal se fizéssemos isso — disse ela, levantando uma das sobrancelhas. — Além disso, não há ninguém por perto, o que você saberia se estivesse prestando atenção.

Ele olhou ao redor.

— Você está certa, desculpe. Eu acredito nisso? Não. Você o conhece tão bem quanto eu. Ele pode até estar à frente em magika, ter aprendido uma coisa ou outra sozinho, mas causar uma ruptura? Sem chance.

— Então acha que estão mentindo para nós?

— O que eu acho é que não me importo se eles estão mentindo para nós. Nós sabemos como ele se parece, como ele fala e age, e nenhum desses outros aspirantes sabe. Temos a vantagem quando se trata de caçar aquela recompensa.

— Você acha que Magnin e Beory te assassinariam na cama por ter matado ele? — questionou Laurel. — Você viu o que eles fizeram na fazenda do Prefeito.

— Acredito quando disseram que a família dele aceitou isso? Não, isso é completamente besteira, mas acredito que os Steelarms saem por aí matando Exterminadores de quem não gostam? Também não. Além disso, não há garantia de que eles descobrirão que fomos nós. Eu não me importaria de dividir um pouco de ouro com outra pessoa e colocar a conquista no nome dela.

— Rufus, isso é quase inteligente.

— Obrigado — resmungou ele. — O que você acha? E sem conversa fiada. Quero algo concreto de você para variar.

Ela pensou com cuidado enquanto continuava a observar os arredores.

— Há mais acontecendo do que sabemos. Tyron é um usuário de magika muito capaz, e acredito que ele possa ter aprendido algo perigoso o suficiente para desestabilizar a fenda, mas isso seria muito improvável — admitiu ela. — Mas estou começando a pensar igual a você. Quem se importa com o resto? Tyron Despertou ao mesmo tempo que nós, ele ainda não pode ser muito forte. Não importa quem o encontrar, ele não conseguirá resistir por muito tempo, e alguém vai receber a recompensa. Não me importo se for eu. Embora eu não queira que muitas pessoas saibam que fui eu quem o fez.

Rufus sorriu, mas Laurel balançou a cabeça, alertando-o.

— As chances de conseguirmos encontrá-lo são quase nulas. Mantenha isso em mente. Estamos atravessando o meio do nada, indo daqui até as montanhas. Não é como se pudéssemos nos mover por conta própria. Estamos aqui pelas criaturas das fendas.

— Eu sei disso — ele a tranquilizou —, só quero chegar a um entendimento caso o impossível aconteça.

— Reúnam-se em cinco! Movam-se, lesmas! — um rugido soou à distância.

— Melhor continuarmos nos movendo então. Nos vemos à noite? — disse Rufus.

— Até sairmos da natureza, minha tenda é apenas para dormir — Laurel o rejeitou.

Ele deu de ombros. Então tentaria a sorte com outra pessoa.

…

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