Aprendiz de Mago Cap. 206 — Despertar

Quando Angor ainda era criança, Jon costumava levá-lo para a floresta nos arredores da Cidade Grue.

Naquela época, Angor ainda não sabia quem Jon realmente era. Ele só sabia que Jon era um Botânico habilidoso que frequentemente lhe contava todo tipo de conhecimento sobre diversas plantas. Ele seguia Jon e ouvia suas explicações sobre cada flor ou grama que encontravam.

Um dia, Jon levou Angor a uma área aberta onde crescia um gramado.

Havia flores brancas e fofas crescendo ali. Quando Angor se aproximou, percebeu que nunca tinha visto nada parecido. A haste robusta e alta sustentava uma bola redonda feita de penugem semelhante à seda. De longe, pareciam adoráveis rabos de coelho esvoaçando no ar.

“Dentes-de-leão. Eles nascem para esperar a chegada do vento. Quando o vento chega, suas sementes o seguem e viajam para algum lugar muito, muito distante”, explicou Jon ao jovem Angor.

Isso foi há quase dez anos.

Angor já havia esquecido todos os outros detalhes. Contudo, ele ainda se lembrava de quando soprou um dente-de-leão por brincadeira, e os “pequenos paraquedas” partiram em direção ao horizonte.

O vento veio, fazendo todas as árvores na floresta balançarem, distorcendo o cabelo do Angor e as roupas do Jon.

Ao vento, os dentes-de-leão dançavam como se estivessem saudando seu amigo há muito esperado.

As flores brancas foram levadas pelo vento, prontas para um novo lar, distante.

Angor ficou profundamente surpreso ao observar o movimento das flores de dente-de-leão. Era como quando contemplara um céu estrelado pela primeira vez.

“Esta é a perfeita colaboração entre o céu e a terra,” disse Jon.

Desde então, Angor nunca se esqueceu do que viu naquele dia.

E foi por isso que os flocos verdes voando diante de seus olhos o fizeram lembrar da sua infância.

Angor não tinha ideia de onde estava. Deitou-se na grama macia e observou o pólen verde cobrir o céu. O aroma fresco da natureza acalmou sua mente.

Os flocos verdes eram como sementes de dente-de-leão dançando em uma brisa suave.

Ele não conseguia pensar em nada além da lembrança dos dentes-de-leão. Com um sorriso bobo no rosto, ele observou e acompanhava.

Um botão de flor verde gigante apareceu de repente no céu, interrompendo a paz.

Angor se perguntou o que era aquilo.

Em seguida, todos os flocos verdes se espalharam pela grama e pelo ar. Tudo se transformou em pequenos pontos brilhantes que logo foram absorvidos pelo botão.

Angor deitou-se no chão agora vazio e olhou para o céu limpo. Ele sentiu algo saindo de seu corpo.

O botão verde no céu começou a desabrochar.

Isso lembrou Angor de algo que vira antes, algo sobre uma flor semelhante, e também sobre alguém parado no meio dela. Angor vasculhou sua memória, tentando se lembrar de quem era… quando a figura em sua mente também ergueu a cabeça e o encarou com um sorriso sinistro.

Metade dela era terrível, e seu rosto inchado estava coberto por parasitas semelhantes a vermes.

Um suor frio imediatamente cobriu as costas do Angor.

Quando a memória retornou, a flor no céu havia desabrochado completamente, revelando a mesma pessoa lá dentro.

Angor recuou com medo.

A mulher no ar ergueu lentamente a cabeça…

“Pare!!”

“Pare!!” Angor saltou da cama.

Ele estava ofegante, e seus olhos estavam arregalados de horror.

A luz do sol entrou pela janela e o cegou por um instante. Angor ergueu a mão para bloquear a luz.

Percebeu que estava sentado em uma cama gigante.

Ele estava sonhando?

Devia ser. Então… a Rainha Parasita não apareceria de novo, certo?

Angor não sabia a resposta. Não tinha certeza se a Rainha Parasita havia morrido.

“Onde estou…” Angor balançou a cabeça para clarear a mente. Colocou a mão no colchão e notou que era muito macio. Sentiu o cheiro refrescante de madeira recém-cortada.

Sua própria cama na villa era desconfortavelmente dura. Ele finalmente percebeu que não conseguia reconhecer aquele lugar.

Olhou para baixo e viu-se sem camisa. Uma calça branca e macia cobria suas pernas e pés. Era um pouco grande demais para ele.

Então olhou ao redor do quarto elegantemente decorado e da longa e requintada cortina que cobria o chão… O quarto lhe parecia familiar.

Onde estou? E por que estou aqui? Eu estava na Arena da Torre do Céu. Eu… pedi para o Toby matar a Rainha Parasita. O que aconteceu depois? Havia pessoas que queriam me matar. O Dave veio ajudar. Mas eu perdi o controle…

Angor tentou lembrar o que viu antes de perder a consciência, mas só conseguiu ganhar mais perguntas.

Ele sabia que fora Dave quem o salvara, mas aquele quarto não parecia ser o do Dave.

De repente, alguém bateu na porta.

Angor permaneceu em silêncio. Sem saber o que estava acontecendo, não ousou responder.

Quando tudo se acalmou novamente, e Angor pensou que quem quer que tivesse batido à porta já tivesse ido embora, a porta se abriu.

Um homem completamente coberto por um manto e usando uma máscara estranha entrou.

“Oh? O senhor está acordado, Senhor Padt? Pensei que ainda estivesse dormindo, então vim trocar suas roupas.”

Era o mordomo Goode.

“Mordomo Goode, por que… por que estou aqui? Esta é a Ilha Fantasma?” Angor reconheceu que a decoração era do mesmo estilo da Mansão do Sunders.

“Senhor Padt, o Mestre o trouxe aqui ao meio-dia de anteontem. O senhor estava ferido e o Mestre já o tratou”, disse Goode enquanto colocava uma pilha de roupas na mesa de cabeceira. “Estas são as roupas do Mestre de quando ele era jovem. Será que combinam com o senhor?”

Não foi Dave, mas o professor que me salvou?

Angor estava perplexo agora.

Angor examinou as roupas e reconheceu rapidamente o estilo do Sunders. Havia um terno preto de cavalheiro com detalhes internos brancos, além de uma gravata borboleta cor de vinho.

“Hum, Mordomo Goode, onde está meu Manto de Mago?” Angor achou constrangedor usar as roupas de seu professor.

Apesar da máscara de Goode, Angor tinha certeza de que o homem apenas sorriu.

“Seu manto está rasgado, então o Mestre o jogou fora.”

Jogou fora.

Jogou, fora…

Angor não sabia o que dizer. O manto era um item de alquimia com um feitiço de [Limpeza] embutido… e foi jogada fora como lixo?

“A refeição está pronta. Se o Senhor Padt desejar comer, por favor, dirija-se à sala de jantar”, disse Goode. Ao ver a expressão do Angor, mudou de assunto, mantendo o sorriso.

Refeição?

Pensando nisso, Angor colocou a mão na barriga. Ele estava com fome. No entanto, ao se lembrar da comida que havia comido ali da última vez… Ugh.

Terminado o que tinha que fazer, Goode se retirou. Antes de fechar a porta, disse algo mais: “O mestre está em seu escritório. Após terminar a refeição, pode ir vê-lo lá.”

Angor hesitou na cama por um tempo antes de decidir se lavar.

Depois de ter certeza de que removeu todos os cheiros estranhos e a sujeira do seu corpo, ele vestiu o traje de cavalheiro trazido por Goode, sentindo-se um tanto envergonhado com isso.

Ele estava acostumado a usar o simples “lençol” que vestia ultimamente. Agora, sentia-se desconfortável ao vestir o terno, que exigia mais etapas para ser colocado.

Angor parou em frente ao espelho e se viu voltando a ser o jovem nobre da Mansão Padt. Contudo, na mansão, ele sempre tinha que fingir um temperamento sério e austero. Agora, parecia muito mais natural.

O jovem no espelho transbordava a energia da juventude. Seus cabelos loiros, um tanto despenteados, não comprometiam em nada sua beleza.

Ele colocou a gravata borboleta, alisou algumas rugas e assumiu uma pose elegante para o espelho, satisfeito.

Olhou ao redor do quarto novamente e viu seus pertences sobre uma escrivaninha. Seu Cartão de Perfil da Torre do Céu, seu Cartão Ósseo, algumas poções que havia preparado e… o Olho Alienígena.

Pegou o pingente e viu o objeto dentro do invólucro perfeitamente.

“Sunders teve que tirar minhas roupas para tratar meu ferimento, então… será que ele viu o Olho Alienígena?”, Angor começou a se preocupar. Esse objeto era um artefato especial de outro mundo. O professor percebeu?

Mas… ele a carregava consigo desde que chegara à Baleia Nebulosa. Sunders já deveria tê-la visto, considerando as habilidades aterrorizantes do cavalheiro. Já que Sunders não a havia confiscado, devia estar tudo bem.

Angor decidiu não se estressar muito. Se algo estivesse errado, Sunders mostraria. A julgar pelo caráter do cavalheiro, era bem provável que Sunders fizesse uma pergunta direta em vez de guardar segredo.

Angor guardou seus pertences. Contudo, não encontrou suas armas alquímicas.

Sua Besta de Gatilho não estava aqui. Nem seu trunfo estava aqui, que era o último recurso que ele preparou para a Torre do Céu — Uma pistola.

Enquanto comia, Angor repassou todos os cenários possíveis. Teria perdido eles no caminho até aqui?

Como não conseguiu encontrar uma resposta, simplesmente desistiu. Não era um grande problema, contanto que estivesse vivo. Sempre poderia forjar mais armas.

“O Mordomo Goode disse que eu dormi por dois dias e duas noites… Espera! Eu tinha mais três partidas à tarde, depois de lutar contra a Rainha Parasita!”

Ele perdeu todas as três, o que significava que havia perdido 12 pontos de partida. Suas quatro vitórias nos Três Níveis da Morte lhe renderam apenas 12 pontos por enquanto, e ele estava de volta à estaca zero!

Ele planejava chegar ao nível mais alto o mais rápido possível. Agora seus pontos de partida foram zerados, e ele desperdiçou dois dias sem fazer nada!

Angor suspirou novamente e se acalmou. Estar vivo era mais importante. Ele ainda tinha mais chances de participar de partidas e criar novas armas alquímicas.

Terminando sua refeição, Angor caminhou em direção ao escritório de Sunders.

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